29 de fevereiro de 2020

ACHISMO


Embora muita gente me critique quase sempre que o faço, não tenho nenhum problema em dizer "Eu acho". É muito comum pessoas “ganharem” debates comigo fazendo ironia, apontando minha ignorância e dizendo que não é possível debater porque “só sei usar de achismos”. Fico me perguntando qual parte do que essa pessoa está usando como argumento não é achismo.
São poucas as coisas que posso verificar com meus parcos cinco sentidos. São poucas as coisas que o ser humano pode afirmar com plena certeza, mesmo depois de verificar com seus parcos cinco sentidos, e com a ajuda dos instrumentos que os ampliam. Cientistas são bons em explicar a maravilha da dúvida e da incerteza!
Ainda que tenha lido notícias, artigos e livros sobre provas dadas por cientistas que verificaram, eu não verifiquei. Ainda que tenha lido notícias, artigos e livros sobre os argumentos dados por pensadores que demonstraram, eu não demonstrei. E principalmente, por mais profunda que tenha sido a minha pesquisa (ou a sua), será que a seleção dos pensadores estudados, dos cientistas pesquisados, dos livros lidos, não seria fundamentada “apenas” no meu “achismo”? Você já perguntou isso sobre suas certezas? Quanto a mim, muitas vezes quase chego a concordar com aqueles que dizem que não posso sequer saber se a verdade existe, mas aí eu acho...
O que estou dizendo é que não adianta vir com esse nariz empinado para o meu lado. Sobre quase todos os assuntos, nada tenho a oferecer além do meu honesto "Eu acho". E, se fossem honestos, os “vencedores” dos debates que tentam me humilhar usando o argumento de que tudo que eu digo é achismo deveriam tentar perceber o quanto há de achismo em seus próprios argumentos.
Então, depois de pensar muito sobre muitas coisas (muitas mesmo!) concluí que euzinha não posso saber a verdade sobre praticamente nada, mas posso (com certeza posso!) pensar a respeito de vários assuntos e chegar às minhas conclusões. Você pode criticar conclusões que tenham sido, como diz o Pirula, “tiradas da bunda” e apresentadas como fato - vou concordar com você e apoiar sua crítica - mas não se atreva a tirar de mim (ou de quem quer eu seja) o direito de “achar”!

26 de fevereiro de 2020

ESPIRITISMO

Entre todas as religiões, quando penso nas pessoas que as seguem e no comportamento delas, uma das que mais mereceram o meu respeito foi o espiritismo.
O problema é que, por mais que seus membros sejam pessoas agradáveis, não me “encham o saco” tentando me converter e que eu não tenha visto muitas delas defendendo preconceito e intolerância, tem algumas coisas nessa religião que eu simplesmente não consigo entender.
- Para que serve essa tal "evolução do espírito" que, de acordo com eles, é o objetivo principal desses horrores (TODOS) que vivemos aqui. Para quê?
- Para onde vão os tais "evoluídos"?
- O que fazem os "evoluídos" e que utilidade prática suas ações teriam?
- Onde é que essa tal "evolução" vai parar?
- Por que tudo o que o "espírito mais evoluído" chamado Jesus fez de realmente grande e duradouro por aqui foi inspirar uma religião assassina, genocida e acobertadora de criminosos?
- E, por último, como essa religião também é teísta: O tal deus ONIpotente, ONIsciente, ONIpresente, Bom e Justo não poderia evoluir espíritos sem causar tanto sofrimento? Principalmente às crianças e aos animais?

Não, decididamente eu não poderia ser parte desse grupo, por mais que tenha pessoas bonitas nele.


20 de fevereiro de 2020

EU QUERO GRITAR!

Ando vendo com uma frequência altíssima
Dos dois lados do espectro político-ideológico
Talvez dos três ou quatro lados
Porque inclui também os meios termos
Que se auto intitulam "moderados"
Um discurso que me incomoda muito!
O discurso é "xxxxx não é gente"
Com a variante "essas não são pessoas"
Lembro os escravocratas dizendo
Que negros não são gente
Os nazistas propagando
Que judeus não são gente
Os "colonizadores” afirmando
Que índios não são gente
E os exemplos continuam sempre
Fico muito incomodada!
Então eu digo gritando
Se você não gostar
Tape os ouvidos

ATIVISTAS DE COMPUTADOR SÃO GENTE!
PETISTAS FANÁTICOS SÃO GENTE!
POLICIAIS QUE BATEM EM PROFESSOR SÃO GENTE!
CIRISTAS SÃO GENTE!
MULHERES SÃO GENTE!
ESQUERSOPATAS SÃO GENTE!
MACHISTAS SÃO GENTE!
POLÍTICOS SÃO GENTE!
FEMINISTAS SÃO GENTE!
BOZOMÍNIONS SÃO GENTE!
ATEUS SÃO GENTE!
VEGANOS SÃO GENTE!
PROSTITUTAS SÃO GENTE!
EVANGÉLICOS SÃO GENTE!
FAVELADOS SÃO GENTE!
MILICIANOS SÃO GENTE!
PRESIDIÁRIOS SÃO GENTE!
PEDÓFILOS SÃO GENTE!
JORNALISTAS SÃO GENTE!
MILIONÁRIOS SÃO GENTE!
HOMENS SÃO GENTE!
ATORES SÃO GENTE!
HOMOSSEXUAIS SÃO GENTE!
HOMOFÓBICOS SÃO GENTE!
BANQUEIROS SÃO GENTE!
TRAVESTIS SÃO GENTE!
PADRES PEDÓFILOS SÃO GENTE!
MINISTROS DO BOZOBOSTA SÃO GENTE!
NATURALISTAS SÃO GENTE!
PASTORES EXPLORADORES DA FÉ SÃO GENTE!
MORADORES DE RUA SÃO GENTE!
GOLPISTAS SÃO GENTE!
OS MEMBROS DA FAMILÍCIA SÃO GENTE!
PSICOPATAS ASSASSINOS SÃO GENTE!

Você pode acrescentar o grupo você quiser
Nessa lista só tem gente!
A diferença está no tipo de gente
Que forma cada um dos grupos
Tem grupo que é formado por pessoas
Que são vítimas
De grupos formados por pessoas
Que são agressores
Tem grupos formados por pessoas desprezadas
Por grupos de pessoas desprezíveis
Tem grupos de pessoas comuns
Que são estigmatizadas
Por grupos de pessoas nojentas
Mas todos são grupos de pessoas!
Todos mesmo!
Às vezes pessoas da pior espécie
Às vezes pessoas comuns
Às vezes pessoas com pelo menos
Uma qualidade fantástica em comum
Mas sempre e sempre pessoas!
Sempre e sempre gente!
Eu gostaria muito
Que gente parasse de dizer
Que gente não é gente

15 de fevereiro de 2020

VIDA APÓS A VIDA, QUE MERDA É ESSA?




Ando pensando já faz algum tempo em como seria terrível se de verdade acontecesse o que muitas pessoas afirmam sobre existir vida após a morte. Imagina a cena: Você morre e tem alguém lá do outro lado te esperando, depois chegarão outros e você vai se encontrar com todas as pessoas com quem conviveu e teve laços de amizade, amor, parentesco enquanto estava vivendo essa vidinha besta aqui na terra.

Acontece que, pelo que eu entendi, se é que entendi alguma coisa dessa ideia de vida após a morte, do outro lado você é um espírito de luz, você se livrou do seu corpo e, junto com ele se livrou também de uma porção de coisas negativas que são inerentes à raça humana. Você está num degrau acima para se tornar um espírito puro, você está evoluindo, é um candidato a alguma coisa de suprema-pureza que eu confesso não conseguir fazer muito bem a ideia do que seja. Mas, enfim, você está lá, com seu pai, sua mãe, seu primeiro namorado, seus filhos, seu marido, todas as suas melhores amigas desde aquela da escola primária até as do asilo, e todos são espíritos de luz candidatos a se tornarem um superespírito puro, seja lá o que isso for. Rapazes! Por favor, pensem nesses parentescos e relacionamentos que citei acima masculinizando ou feminizando as pessoas de acordo com o que se adequar mais ao que foi (ou terá sido quando isso acontecer) a sua vida.

Imagino que, nessas condições não possa haver mentiras, meias-verdades, disfarces, segredos; e mais, imagino que o segredo seu que todos saberão não é aquele que você contaria e do jeito que você contaria, é todo e qualquer segredo; seus atos e pensamentos mais profundos. Todos vão saber as condições, o momento e o que você pensou e sentiu em cada situação da sua vida, tudo o que você guarda só pra você e que não diria nem sob tortura a nenhum ser humano do planeta. Ou será que você não tem nada disso? Nada mesmo? Nenhum pensamentozinho insidioso num momento de fraqueza? Nenhum “Foda-se, ninguém tá vendo mesmo!” naquele dia em que você estava sozinha em casa ou trancada no banheiro? Nunca se arrependeu de algo que sentiu e depois jogou aquilo debaixo do tapete que não deve jamais ser levantado?

Não vou fazer uma lista de possibilidades aqui porque não quero constranger você e porque não quero me entregar que também sou humana, mas acho que ninguém escapa dessa; e isso não é verdade só para nós, mulheres. Pensem comigo, garotos: nada a esconder?

Das duas uma: ou eu sou uma anomalia, uma “freak”, uma aberração da natureza, ou todos nós temos os nossos segredinhos inconfessáveis por menos danosos que sejam. Acho que a segunda opção é a verdadeira, mas você pode tentar me desmentir se quiser.

Podemos ser boas pessoas, respeitar e valorizar os amigos, a família, a sociedade, as leis; podemos ter passado pela vida sem cometer nenhum crime, sem nunca prejudicar propositadamente qualquer pessoa... Mesmo assim não sairíamos por aí dizendo tudo, tim-tim-por-tim-tim, o que fizemos, pensamos e sentimos em todos os momentos da nossa vida.

Como aceitaríamos fazer isso depois de mortos e para todas as pessoas que tiveram alguma importância para nós? E ainda com a possibilidade de que isso aconteça assim, diante de todas as pessoas e ao mesmo tempo... Por favor, escondam minha cara! Acho que se pensar por esse lado a tal vida depois da morte perde muitíssimos do seu charme, não perde não?

Mas, pensando e “caraminholando” sobre o assunto, eu quis nos livrar disso e tentei encontrar uma saída: E se a gente não precisar ser transparente para todo mundo do lado de lá? Podemos restringir essa abertura plena e irrestrita da nossa pessoa a um único ser, por exemplo um outro espírito, mais evoluído que nós e que estaria, nesse caso, como uma espécie de orientador da nossa "caminhada evolutiva".

Ou, se você é religioso e prefere ele, então que esse ser mais evoluído seja Jesus, o espírito mais evoluído de todos os espíritos evoluídos que possam existir (é o que dizem...). Então tá! só ele vai saber todos os seus segredinhos sujos. Ainda assim ficou um sentimentozinho de “sem-graça” não ficou mesmo? Em mim ficou, eu juro. E olha que nem acredito nesses espíritos evoluídos todos!

Mas quer ser mais restrito ainda? Tá bom: vamos supor então que seja deus, que exista deus e só ele tenha pleno conhecimento da sua personalidade na íntegra. Será que agora dá pra encarar uma vida depois da morte e, mais ainda, uma vida depois do esclarecimento total e completo de que alguém além de você sabe TUDO?

Bem, não posso falar por você nem por ninguém, mas garanto que a correr esse risco eu prefiro que não exista vida nenhuma depois da morte... E mais: se puder escolher abro mão, por melhor que seja e sem pensar duas vezes, de qualquer possibilidade de vida após a morte para poder conservar e levar comigo (e só comigo!) para o nada, a minha privacidade.

2 de fevereiro de 2020

TIRAR OS OLHOS DO PRÓPRIO UMBIGO FAZ COM QUE A GENTE SE TORNE MUITO CHATA. EU SOU MUITO CHATA!


Sempre digo que a velhice é uma merda. Uso essa frase desde que tinha uns 20 anos porque, mesmo sendo jovem, comecei a olhar à minha volta e ver como as pessoas sofrem quando os anos começam a pesar. Nunca tive como parâmetro para dizer "A velhice é uma merda" apenas a mim, ao contrário do que pensam muitas pessoas que me ouvem ou leem quando falo ou escrevo isso agora que estou velha. Sou uma velha privilegiada porque tenho um companheiro que escolhi e continuo escolhendo a cada dia e uma vida classe média sem grandes dificuldades, então, embora não viva no paraíso (como ninguém vive) e tenha sim muitos problemas relacionados à idade, não são tantos quanto os que muitos outros velhos têm, continuo dizendo que a velhice é uma merda e continuo não falando apenas do meu umbigo. O que confirma que não estou errada são os relatos e observações de experiências extremamente comuns que tenho observado desde sempre, são histórias que mostram as muitas dificuldades e tristezas da velhice.

Como respostas discordantes o que mais vejo são relatos das poucas exceções dentre todas as velhices que observo. Exceções que são propagadas como se fossem a regra ou uma possibilidade indubitavelmente acessível a todos os que disserem “Quero ser um velho “porreta” e ativo”, é como se todos os velhos que sofrem tivessem simplesmente esquecido de desejar uma velhice digna. Muitas vezes os “exemplos louváveis” são apenas fases de antes da destruição, às vezes não demora muito tempo para que a mesma pessoa que louvava aquele exemplo que “eu tenho na minha própria família” comece a reclamar do quanto é estressante cuidar daquele velho ou velha. Alguns argumentos só mostram aspectos pontuais do tipo em que a pessoa está velha e usa bengala e fraldão, mas “é lúcida e ainda dá conselhos” ou a pessoa está sozinha, a família só a visita nos dias festivos, mas “Veja só, ela está sempre sorrindo e prepara almoços e jantares para todos!”.

Uma vez conheci uma senhora em uma viagem daquelas de excursão em ônibus fretado em que as pessoas compram a passagem e têm até um guia para falar sobre as maravilhas do lugar. Nesse tipo de viagem a gente vai com pessoas estranhas e, depois de passar muitas horas e até vários dias com elas, acaba criando uma amizade linda que “certamente será mantida”, mas que termina quando o ônibus nos coloca de volta no ponto de partida. Tinha mais gente idosa nesse ônibus, mas essa senhora se destacou pela alegria, pela simpatia, pelo otimismo, pela disposição e, coisa linda, pelo colorido das roupas (adoro cores!). Eu, que ainda não era velha, até pensei que seria legal ser uma velha como aquela e acho que todos pensaram, alguns chegaram a dizer isso.

Pois bem, em uma parada nos sentamos para esperar outros que ainda estavam passando pelo caminho divertido pelo qual todos passavam e eu me sentei ao lado dela em um dos bancos de uma praça, estávamos nós duas um tanto afastada e ela lamentou que o passeio estava chegando ao fim e começou a contar o quanto seria triste voltar ao normal e o quanto era triste o normal da vida dela. Juro que ela me disse tudo isso sem que, em nenhum momento, eu tivesse expressado minha opinião sobre a velhice, preciso destacar que diante de tanta simpatia e em um ambiente daquele tipo que se criou no ônibus inteiro eu jamais teria coragem de fazer isso. Sou chata, pessimista e rabugenta, mas não sou insensível!

Ou seja, sem que eu sequer tivesse pensado a respeito, aquela senhora me provou, de novo, que a velhice é realmente uma merda e que dizer isso não é pessimismo e sim falar da realidade; e ela foi apenas uma das pessoas que provaram para mim mesma que estou certa. Talvez seja porque passei a infância morando perto de um asilo de idosos e lá tinha um enorme pé de caqui, então comecei a ir com frequência até lá, primeiro para pegar caqui e mais tarde apenas para visitar os velhinhos que ficavam tão felizes quando a gente chegava! Talvez por isso adquiri o hábito de reparar (mesmo!) nas pessoas velhas e no que as pessoas não velhas dizem a respeito delas. Não foi uma escolha consciente, foi sem querer e sem planejar, eu apenas comecei a ver e ouvir... e pensar. Dá pra ficar bem chata vendo e ouvindo assim.

Já me disseram que com esse pensamento eu deveria ter me matado, mas não o fiz nem o farei porque encontrei uma solução e essa solução é apenas aproveitar o que sobra da juventude dentro da velhice o melhor que puder e aceitar que não posso evitar as dificuldades da mesma forma que não pude evitar tantas outras coisas que já me aconteceram, como nascer pobre por exemplo. Mas aceitar o que não posso evitar, para mim, ao contrário do que querem as pessoas que me aconselham a parar de reclamar da velhice e aceitar o que não posso evitar, não significa dizer para as pessoas e para mim mesma que o ruim é bom. Isso é paradoxal e burro; não é aceitar é mentir! Então não aceito as mentiras dos que dizem que "Não é bem assim" e as frases feitas do tipo "A velhice está no espírito". Está no espírito o cacete, está bem aqui no meu corpo e no corpo de cada pessoa que deixou de ser jovem!

Aproveito tudo o que ainda tenho, sorrio sempre e o máximo que posso, fico viva e VIVA da melhor forma e não tenho pressa de morrer - acho que era isso que aquela senhora da excursão estava fazendo - mas que ninguém venha com conversa de "Melhor idade" pra cima de mim que mando pra pqp! Sou uma velhinha fdp de teimosa!

31 de janeiro de 2020

TESTAMENTO VITAL (OU DIRETRIZES ANTECIPADAS)

Eu, Divina de Jesus Scarpim (Professora aposentada), diante de uma situação de doença grave em progressão e fora das possibilidades de reversão, apresento minhas diretrizes antecipadas de cuidados médicos.

Se chegar a padecer de alguma enfermidade manifestamente incurável, que me cause sofrimento ou me torne incapaz para uma vida racional e autônoma, faço constar, com base no princípio da dignidade da pessoa humana e da autonomia da vontade, que aceito a terminalidade de minha vida e repudio qualquer intervenção extraordinária ou inútil. Ou seja, qualquer ação médica pela qual os benefícios sejam nulos ou demasiadamente pequenos e não superem os potenciais malefícios.

As diretrizes incluem os seguintes cuidados: admito permanecer numa UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) somente se tiver alguma chance de sair em menos de dez ou quinze dias. Não aceito que me alimentem. Se não puder demonstrar vontade de comer, recuso qualquer procedimento de suporte à alimentação; não quero ser reanimada no caso de parada respiratória ou cardíaca em situação terminal.

Acrescento que logo após minha morte todos os meus órgãos aproveitáveis (se algum houver) devem ser doados. Meu corpo também deve ser doado para a faculdade de medicina que esteja mais próxima do local de minha morte para que seja usado como objeto de estudo da forma que puder ser útil.

Depois disso, se algo ainda houver, deverá ser cremado ou jogado fora conforme sejam os procedimentos normais da faculdade.

Não desejo, não quero e não permito que haja qualquer satisfação, cerimônia ou destino ritual de meus restos mortais, como velório, enterro, esquife, túmulo ou qualquer outro tipo de cerimônia fúnebre.

Como ateia que sou não quero nenhum tipo de cerimônia religiosa, nem antes nem depois da minha morte. Não quero extrema unção, missa de corpo presente, missa de sétimo dia ou qualquer outro tipo de cerimônia de qualquer religião.

                                                  Subscrevo: Divina de Jesus Scarpim

27 de janeiro de 2020

SÍMBOLOS DE SE ACHAR MELHOR DO QUE OS OUTROS



Estava vendo na televisão um trecho do filme Os dez mandamentos, de Cecil B. DeMille.
Há uma cena na qual o faraó está em seu trono e a mulher que namora o Charlton Heston e depois se casa com o Yul Brynner está em outro trono ao lado dele.
O faraó segura aqueles dois bastões “afrescalhados” cruzados que a gente já viu em muitas fotos e filmes de faraó e a moça segura com a mesma pompa uma enorme pena branca.
Eu comentei “Que coisa mais ridícula essa de ficar segurando esses trecos!”.
Meu marido, que é apaixonado por história, começou a me perguntar se eu sabia o significado e a importância daqueles “trecos” e já ia me dar uma aula que envolveria Alto Egito e Baixo Egito e que já ouvi antes.
Mas eu o interrompi explicando que não estava falando DESSE treco em especial e sim de todas as parafernálias do tipo.
Ele não quis concordar ou discordar de mim porque é apaixonado pelo filme e não queria perder a oportunidade de vê-lo pela centésima vez para me ouvir sendo chata.
Mas fiquei pensando em quanta parafernália o ser humano já criou e cria até hoje com a única utilidade de dizer “Eu sou superior a você”.
Pensei em cetros, brasões, bandeiras, flâmulas, monumentos, roupas, capas, chapéus e até gestos.
Lembra a fantasia que os papas e bispos usam?
Lembra os obeliscos?
Lembra do cetro, coroa e manto da rainha da Inglaterra?
A lista é grande e o objetivo de todos eles é dizer “Eu sou superior a você”.
Muitos desses trecos são fálicos, muitos são espalhafatosos e todos eles são ridículos, pelo menos em sua essência exibicionista e preconceituosa.
E sim, você pode discordar porque é só a minha opinião.


17 de janeiro de 2020

EU NÃO QUERO NINGUÉM!


Sou uma velha, tenho 60 anos, cabelos totalmente brancos, rugas, flacidez e tudo o mais que caracteriza uma pessoa desgastada pelo tempo e sem recauchutagem.

Entre essas características, tenho pelos sobre os lábios e alguns fios inconvenientes no queixo que normalmente as pessoas não veem porque eu costumo retirar.

Tive uma colega de trabalho há mais de vinte anos que disse uma vez que o bom de um casal ficar velho junto é que nenhum dos dois enxerga direito e daí não consegue ter a exata noção do quanto o outro está acabado.

Meio que confirmando isso, meu marido não enxerga muito bem de perto, então às vezes, se vou passar um ou dois dias sem sair de casa, acabo deixando os pelos do rosto crescerem um pouco mais do que o faria se fosse sair para algum lugar.

Pois bem, hoje saí para fazer algumas coisas que precisava e, assim que cheguei na rua, lembrei que tinha esquecido de fazer de conta que os pelos do meu rosto não existem antes de bater a porta do apartamento.

Daí, em lugar de voltar correndo envergonhada, comecei a pensar:

Perái! Eu não estou interessada em encontrar um namorado ou namorada, não estou a fim, e não quero, que alguém me aborde ou me olhe com interesse.

A única coisa que quero das pessoas com quem vou encontrar ou interagir é respeito e, eventualmente, amizade.

Ninguém precisa que uma velha tenha seus pelos depilados para respeitá-la e, se alguém quiser uma amiga, não vai ser um rosto que deixou de ser depilado que vai fazer alguma diferença.

Então phoda-se!

Dei um sorriso satisfeito e fui fazer o que precisava.

7 de janeiro de 2020

HÁ INOCÊNCIA NA CONIVÊNCIA?


Pessoas que votaram nessa quadrilha, pessoas que apoiam esses merdas que estão no poder podem fazer o discurso mais isentão, mais moralistinha ou mais "eu não sabia que ele era assim" que quiserem, mas vão ter que fazer muito mais do que isso para me convencer de que não são o reflexo e a cópia de toda a merda que apoiaram. Para mim, até prova em contrário, são todos mau caráter, trogloditas, fascistoides, falsos e mentirosos igualzinho o "mito" deles!

Agora que a violência contra minorias se tornou política de governo tudo ficou pior. Tem gente que continua apoiando essa merda de governo e tem gente que continua achando que "nem todo mundo que apoia o bozobosta tem culpa". Para mim tem sim!

Não é só pela desinformação que as pessoas apoiam a quadrilha, é pela semelhança de caráter mesmo. Infelizmente esse governo expôs o pior do ser humano e fez a gente descobrir que muita gente que parece boa não é.

Assim como as pessoas mais fanáticas e radicais muitas vezes são racionais em algumas coisas e não em outras, acho que pessoas que se comportam de forma decente em alguns aspectos e com algumas pessoas também são mau caráter e indecentes em outras circunstâncias e com outras pessoas.

Esses eleitores viram um cara dizer que "As minorias têm que se curvar às maiorias. Ou se calam ou desapareçam", “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, "Meus filhos não se casariam com uma negra porque foram bem-educados" e outras aberrações do tipo e encararam como normal e aceitável. Esses eleitores decidiram que a pessoa que diz essas aberrações é uma boa opção para governar o país e votaram nele.

E apesar de todas as aberrações que ele e sua quadrilha falaram e fizeram depois de assumirem o poder, provando a todo momento que suas falas não eram "exageros ditos da boca para fora", eles AINDA continuam achando que está tudo bem, que “tem que deixar o homem trabalhar”. Decididamente isso só pode ser mau caratismo!

Continuar apoiando a quadrilha da familícia é não se importar nem um pouco com o outro, é aceitar que pessoas sejam mortas, é aceitar que devem existir "merecedores" e excluídos. Não consigo mais atribuir esse tipo de aceitação ou concordância à inocência, à ignorância ou a um pretenso erro de julgamento. Não consigo! Talvez seja uma falha minha e eu é que esteja errada, mas não consigo mais.

1 de janeiro de 2020

DEPOIS DE TER ACONTECIDO ANTES E POR TER VOLTADO A ACONTECER, PRECISEI DAR UMA RESPOSTA!

Meu livro ‘Deus não Existe’ já foi acusado de ser filosoficamente pobre mais de uma vez, e certamente voltará a ser. As poucas pessoas que o leram devem ter percebido (pelo menos assim espero) que, embora tenha colocado uma bibliografia no final, em nenhum momento me defini como uma filósofa, nem mesmo dei a entender que sou uma profunda conhecedora de ciência ou filosofia.

Recentemente me acusaram (de novo!) de não ter “capacidade intelectual” suficiente para escrever um livro sobre ateísmo porque não me aprofundei “adequadamente” no campo filosófico e nos autores que julgam fundamentais para que alguém tenha a audácia de sequer tentar falar sobre esse tema. “Se quiser militar em prol do ateísmo ou criticar a religião de forma bem embasada e não atacar espantalhos é preciso ter um bom conhecimento filosófico, caso contrário, que permaneça calado e guarde seu ateísmo frouxo para si”. É o que pensam e dizem.

Confesso que, com uma certa maldade, chego a procurar erros de português no texto desse tipo de comentário (e sempre encontro algum) para pensar com meus botões algo como “Se é assim, então você não deveria escrever um texto na língua portuguesa, afinal não se aprofundou o suficiente nela a ponto de usar o acento grave de forma correta”. Mas a maldade passa, afinal, não é assim que EU penso de verdade.

Vi gente do tipo que me manda calar a boca e que ofende fortemente outros ateus atrevidos por não termos nos aprofundado “o suficiente” em filosofia, afirmando que Stephen Hawking não foi um "grande cientista" - bem assim, entre irônicas aspas. E eu fico me perguntando: Se não tenho “capacidade intelectual” para falar sobre ateísmo mesmo sendo ateia, essa pessoa tem respaldo para falar de Hawking? Eu só me pergunto, afinal, não sou cientista e, nesse campo, admito com toda a convicção que realmente não tenho capacidade intelectual para opinar. Mas suspeito, só suspeito, que a comunidade científica não colocaria um cientista medíocre na cadeira que foi de Newton.

Não escrevi esse livro para os intelectuais que sabem tudo de filosofia e para os quais minha pós graduação na matéria não vale nada. Escrevi para o mortal comum, escrevi tentando e objetivando dar mais ênfase à experiência do mal do que à hermenêutica ou epistemologia (tentei evitar palavrões desse tipo).

Não quero com isso dizer que sou "mais sábia" do que deixei transparecer no livro, deixei meu currículo nele para que ninguém se engane. Sou formada em letras, tenho pós lato senso em filosofia e sou uma leitora voraz que não vai muito com a cara de gente metida a intelectual inatingível. Tive professores nas três pós que fiz que tinham mais títulos do que os que me dizem que não tenho "capacidade intelectual" para falar sobre ateísmo que eram BEM menos arrogantes.

Enfim, posso não ter mesmo "capacidade intelectual" (seria mais correto dizer conhecimento específico e pesquisa suficiente) para falar sobre ateísmo em um trabalho acadêmico de nível mais elevado do que o que fiz, que foi um TCC de pós lato senso, mas sei que se estudasse mais um pouco e lesse mais um pouco poderia fazê-lo sem ter que abrir mão de ou jogar fora os conhecimentos que adquiri nos livros que li e que coloquei na bibliografia do livro Deus não existe.

Então, não vesti a carapuça, não estou envergonhada, não estou sendo desonesta e, ao contrário do que dizem os narizes empinados, tenho sim o direito de falar sobre ateísmo.

E tenho dito!

29 de dezembro de 2019

DEPOIS DA ELEIÇÃO EM QUE O ÓDIO VENCEU

(O texto foi escrito em janeiro de 2018, meus desejos não se realizaram)

Durante pelo menos quatro anos eu desejo muito que nenhum aluno negro de um professor que votou no ódio seja morto por “parecer” bandido (pela cor da pele) em nome da máxima “bandido bom é bandido morto”. Porque se acontecer eu vou querer muito também que esse professor que votou no ódio saiba que ele é culpado pela morte do seu aluno.

Durante pelo menos quatro anos eu desejo muito que nenhum filho de nenhum negro que votou no ódio seja morto por “parecer” bandido (pela cor da pele) em nome da máxima “bandido bom é bandido morto”, porque se acontecer eu vou querer muito também que esse negro que votou no ódio saiba que ele é culpado pela morte de seu próprio filho.

Durante pelo menos quatro anos eu desejo muito que nenhum filho de nenhuma mulher negra que votou no ódio seja morto por “parecer” bandido (pela cor da pele) em nome da máxima “bandido bom é bandido morto”, porque se acontecer eu vou querer muito também que essa mulher negra que votou no ódio saiba que ela é culpada pela morte de seu próprio filho.

Durante pelo menos quatro anos eu desejo muito que nenhum namorado, marido, namorada ou esposa de nenhum(a) homossexual que votou no ódio seja morto(a) por “ser uma bichona” ou por “ser uma sapata”, porque se acontecer eu vou querer muito também que esse(a) homossexual que votou no ódio saiba que ele(a) é culpado(a) pela morte do seu afeto.

E, me desculpe, mas se você votou no ódio, durante pelo menos quatro anos você será culpado(a) pela morte de todo negro inocente ou culpado que seja morto, sem direito a defesa, em nome da máxima “bandido bom é bandido morto” institucionalizada pelo ódio no qual você votou; você será culpado(a) pela morte ou pelo estupro de toda mulher que seja agredida em nome do machismo institucionalizado pelo ódio no qual você votou; e você será culpado(a) pela morte de todo homossexual que seja assassinado em nome do “viado e sapata têm mesmo é que morrer” institucionalizado pelo ódio no qual você votou. Para mim será sempre como se você tivesse puxado a arma (seja ela qual for) e a usado no corpo indefeso. Se for um amigo, familiar, aluno, inocente, você será igualmente culpado.

E se você é um cristão que votou no ódio, eu tenho certeza de que, o Jesus Cristo no qual você diz que acredita e ao qual você diz que adora, caso exista, vai manter você MUITO longe dele porque ao votar no ódio você mostrou que não aprendeu NADA das lições às quais diz amém nos cultos ou nas missas. Afinal, Jesus, se existiu, foi um comunista (dividiu o pão por igual a todos), foi um esquerdopata (expulsou os vendilhões do templo e não aceitou as regras vigentes) e por não obedecer as leis foi preso e torturado e assassinado. O que, na sua concepção ou na concepção do ódio no qual você votou mostrando que é também o seu ódio, só acontece com quem não pode mesmo ser grande coisa e, por isso, “recebeu o que mereceu”.

Você que votou no ódio esqueceu a lição de “dar a outra face”, esqueceu a lição de “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, esqueceu a lição de quem expulsou os vendilhões do templo, esqueceu as lições de quem andava com prostitutas e ladrões e respeitava a todos igualmente. Você que votou no ódio, se Jesus existir, não vai ter o direito de se aproximar dele. Seu lugar será outro.

Então, aconselho você que votou no ódio a se tornar ateu, assim não precisará temer o inferno, que é para onde ele afirmou que irão os que se dedicam ao ódio e não ao amor; ele, o Jesus que você diz amar mas não ama. Porque votou no ódio e esqueceu o amor.

21 de dezembro de 2019

"O ASPECTO MAIS TERRÍVEL SOBRE HITLER: ELE ACREDITAVA NO QUE DIZIA".

Terrível, triste. E pensar que ainda hoje existem pessoas que acreditam exatamente nas mesmas coisas que ele! Mas, infelizmente não é só isso: Tem muita gente que acredita piamente em muitas coisas estranhas e que não vão parar de acreditar se por acaso lerem esse texto ou verem nos noticiários os números de sofrimento e morte em consequência de suas crenças.

- Tem gente que acredita que os negros são intelectualmente e moralmente inferiores aos brancos;

- tem gente que acredita que crianças assassinadas por bala perdida são só “efeito colateral”;

- tem gente que acredita que os homossexuais são aberrações e devem ser espancados e até mortos;

- tem gente que acredita que mulheres são objetos a serem possuídos e que devem obediência ou morte aos machos da espécie;

- tem gente que acredita que seu deus “se agrada” de violências e assassinatos cometidos “em seu nome”;

- tem gente que acredita que combate às drogas é a mesma coisa que entrar nas favelas atirando;

- tem gente que acredita que só a sua religião é válida e tem que ser imposta como lei;

- tem gente que acredita que os maiores representantes das religiões estão fazendo o bem quando tudo o que fazem são discursos;

- tem gente que acredita que é correto matar médicos que fazem aborto;

- tem gente que acredita que é correto e educativo espancar crianças;

- tem gente que acredita que fazer discursos de ódio nos púlpitos não incita violência;

- tem gente que acredita que caça e pesca são esportes em que todo mundo se diverte e esquecem dos animais e dos peixes envolvidos;

- tem gente que defende pena de morte;

- tem gente que acredita que é legal prender pássaros em gaiolas;

- tem gente que acredita que estupro é culpa da mulher e que transexualidade é falta de vergonha;

- tem gente que acredita que para ter dinheiro e poder vale fazer qualquer coisa, inclusive roubar dinheiro da saúde e da educação;

- tem gente que acredita que crimes de estupro e pedofilia cometidos e acobertados por líderes religiosos não têm nada a ver com a instituição religiosa porque são só “umas poucas laranjas podres” e não religiosos “de verdade”;

- tem gente que acredita que falsificar remédios e roubar merenda de crianças é ser esperto e azar de quem perdeu;

- tem gente que acredita que pessoas diferentes merecem ser humilhadas e é divertido “tirar sarro” delas por terem mais ou menos peso, por serem mais altas ou mais baixas, por terem espinhas ou usarem óculos, por terem sotaque nordestino ou sulista, por serem portadores de necessidades especiais ou por terem qualquer característica que as destaque como “diferentes”;

- tem gente que acredita que chamar alguém de "viado", "gay" ou "mulherzinha" é opção natural de xingamento, ou apenas "brincadeirinha" que não magoa nem ofende ninguém;

- tem gente que acredita que miséria é culpa dos miseráveis;

- tem gente que acredita que entre os miseráveis abandonados à própria sorte a criminalidade é maior porque eles são mesmo “gente ruim”;

- tem gente que acredita que para diminuir a violência tem que ter mais armas, mais polícia invadindo favelas, mais presídios e mais gente encarcerada;

- tem gente que acredita em meritocracia no Brasil;

- tem gente que acredita que juiz não precisa ser imparcial se estiver julgando aqueles que elas odeiam;

- tem gente que acredita que um cara que defende pena de morte, torturador e milícia é uma boa opção de voto.

- tem gente que acredita que tudo que escrevi aí em cima é só um monte de besteira de uma "petralha esquerdopata";

Tem gente que acredita em cada coisa tão idiota que a gente chega a ter dificuldade em acreditar que existam mesmo pessoas assim.

17 de dezembro de 2019

FUI UMA CRIANÇA MUITO DIFÍCIL E TENHO ORGULHO DISSO

Resposta a um texto sobre a infância de antigamente (que transcrevo abaixo):

Eu cresci comendo a comida que meus pais podiam colocar na mesa, e se tivesse algo que eu não gostava tinha que comer mesmo assim. Se não comesse apanhava porque "Criança não tem querer!".

Fui obrigada a respeitar meus pais e dizer sim mesmo quando eles estavam errados porque "Criança não responde!", e tive que respeitar as pessoas mais velhas mesmo quando eram velhos FDP porque "Criança não tem opinião!"...

Tive TV só na adolescência, antes disso tinha a "televizinho" que nem sempre era uma boa porque em geral “televizinhos” não eram lá muito bem-vindos - exceto na primeira vez, quando os proprietários exibiam a televisão nova com os ares de “Eu tenho, você não tem!”.

Criança não escolhia canal, sentava no chão e, se os donos da casa serviam alguma coisa boa de comer, serviam para os adultos, não para as crianças. Tínhamos que “engolir” o desejo e ficar quietos porque "Criança não fala na casa dos outros se não apanha quando chegar em casa!".

Antes de sair para a escola eu não arrumava a minha cama porque sempre achava uma boa desculpa para não o fazer.

Apenas mexia a boca para fingir que fazia o juramento à bandeira e para fingir que cantava o Hino Nacional na escola porque achava isso uma tremenda babaquice. E ainda acho.

Não bebia água de torneira porque não tínhamos água encanada, bebia água do poço que minha mãe puxava com um balde preso por uma corda. Um peso desgraçado que a envelheceu antes do tempo.

Andava descalça ou usava chinelos. Tinha também os sapatos “de uniforme” – horrorosos e pesadões – quando ganhava de um governo mais “generoso” em troca do voto do meu pai. Não tinha tênis, nem mesmo baratos. As roupas não só não tinham marca como muitas delas minha mãe fazia, em alguns casos reformando roupas velhas que ganhava de algum parente mais afortunado.

Não existia celular, nem tablet e muito menos computador. Para ler um livro era um trabalho enorme porque a biblioteca da escola ficava trancada e ninguém podia entrar. Fiquei no pé da inspetora muito tempo até convencê-la a me deixar trancada lá para poder ler. Estudava à tarde mas ia para a escola no horário da manhã e ficava todo o período trancada na biblioteca lendo. Li toda a coleção de Monteiro Lobato assim. Só eu tive esse privilégio porque fui pentelha demais. Os demais alunos não liam nem podiam ler.

Lia também os livros de jornaleiro, em geral histórias de “bang bang”, que meu pai comprava ou ganhava dos colegas da fábrica onde trabalhava. Cheguei a escrever uma história de “bang bang” quando bem criança, o título era “A cidade escravizada” e tinha todos os chavões dos “bolsilivros” do meu pai. E lia os gibis do Tio Patinhas e do Mandrake que ele comprava para mim desde que descobriu que eu já sabia ler. Amei muito meu pai por isso!

Não ajudava minha mãe nas tarefas de casa se pudesse evitar, e evitava sempre que conseguia inventar alguma razão, como uma "dor de barriga" muito bem fingida. E sim, eu achava que era exploração porque queria brincar e ler!

Eu tinha horário para deitar, mas dormia a hora que queria porque aprendi a ler com pouca luz e a sonhar acordada.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, por isso nunca aprendi a andar de bicicleta e não tinha livros em casa, exceto raros livros emprestados e – lembrança maravilhosa! – um volume em capa dura dos Doze trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato que um amigo roubou em algum lugar e me deu de presente. Não sei dizer quantas vezes li esse livro.

Outro amigo me emprestou A moreninha, do Joaquim Manoel de Macedo e não teve pressa de receber o livro de volta. Li uma meia dúzia de vezes, pelo menos!

Estudei contrariando a opinião de que "mulher não precisa estudar”. Notas baixas não eram castigadas uma vez que não importavam as minhas notas – porque sou mulher - e sim que eu respeitasse o professor. Mas para ser honesta não tenho muita certeza disso porque não tirava notas ruins para saber se seria castigada ou não.

Eu apanhava quando aprontava, ou quando “achavam” que alguma coisa era minha culpa. Apanhava muito, ficava com raiva e aprontava outra pior para me vingar da surra. Estava quase sempre marcada de cinta e achava isso terrível, uma humilhação a que fiz questão de não submeter meu filho.

Conheci muitas crianças que apanhavam e sofriam muito mais do que eu. Uma pena que naquele tempo espancamento de crianças não era um caso de polícia!

Não, não sou revoltada porque meus pais não agiam assim por mal, eles foram criados dessa forma e faziam o que achavam que seria o melhor para mim.

Por essas razões eu nunca, nunquinha, jamais vou endossar essa ideia absurda de que a infância de antigamente era melhor!

Certo que hoje há, em muitos casos, um excesso de permissividade, mas não é louvando as torturas do passado que vamos melhorar isso.

Sim, eu sobrevivi, mas não sinto nenhuma saudade da minha infância, ao contrário do meu filho a quem acho que consegui dar uma infância bem melhor do que a minha, principalmente tentando sempre não cometer os mesmos erros dos meus pais.

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação e Amor podem perfeitamente existir, se essas coisas formarem uma via de mão dupla, se formarem não uma lista de imposições, mas uma lista de frutos de uma convivência saudável. Dessa forma se pode incentivar concordância no lugar da obediência vazia, puro fruto do medo.

Com amor e exemplos é possível formar uma pessoa decente que sinta saudades da infância que teve e que não fique pensando que é preciso espancar crianças para ser um bom pai ou uma boa mãe.

Por um mundo onde não haja só direitos e deveres. Nem para as crianças, nem para os adultos que as têm sob sua guarda.

O texto que originou minha resposta (Não sei quem é o autor):

Eu cresci comendo a comida que meus pais podiam colocar na mesa, sempre respeitei meus pais e as pessoas mais velhas... Tive TV com 7 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama...

Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalça, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador...

Ajudava minha mãe nas tarefas de casa e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

E não sou revoltado e não faço análise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.

Se você também faz parte dessa elite, cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu.

Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...

Por um mundo onde não haja só direitos, mas também DEVERES!

11 de dezembro de 2019

ZOTRO, O DEUS DO MAL


O pior e mais terrível vilão da humanidade não foi Hitler, não foi Mao, nem é sequer o diabo, que nunca se viu mas que muita gente jura que existe. O pior vilão da humanidade é um cara chamado Zotro.

Zotro é muito poderoso, ele é capaz de estragar os melhores planos de qualquer pessoa, basta que alguém conte pro Zotro o que pretende fazer e o que de bom virá dali e pronto: o Zotro consegue fazer com que tudo saia errado.

Uma poderosa arma do Zotro parece estar no olhar. Todos dizem que o Zotro não pode ver ninguém bem que logo lança seu mau olhado e o que estava bem fica mal, e o Zotro fica feliz.

Aliás, nada deixa o Zotro mais feliz do que a infelicidade alheia.

O Zotro é capaz de pensar, mas só pensa mal. Ninguém pode fazer ou dizer algo que pronto, o Zotro pensa mal! E quando o Zotro pensa mal o mal se concretiza. Esse é o mais terrível poder que o Zotro tem.

Por isso cuidado, não fale sobre os seus planos que o Zotro faz com que eles não se realizem. Não diga que está feliz que o Zotro faz com que as razões de sua felicidade desaparecem como por magia.

Não se comporte de forma mais liberal, não se vista para o verão e não sorria nem fale alto porque o Zotro pensa mal e o mal que ele pensou gruda em você para todo o sempre.

Não adianta confiar na passagem do tempo para que tudo volte ao normal porque o Zotro nunca esquece.

Ah, e se tem algo que o Zotro não suporta é um relacionamento harmonioso. Seja casamento, namoro ou amizade, basta que esteja tudo correndo bem e o Zotro descubra para que as coisas comecem a mudar. O Zotro começa com intrigas, usa seu mau olhado e, como último recurso quando falham os demais poderes, ou quando estes não foram suficientes, o Zotro pensa! E todo mundo sabe que quando o Zotro pensa mal tudo de mal acontece.

Mas o pior de tudo, o pior mesmo é que o Zotro tem duas das piores qualidades de um deus: Ele é onipresente e nunca morre.

A boa notícia é que ele não é onisciente. Para que o Zotro saiba de alguma coisa é preciso que alguém conte pra ele, só aí ele age.

E quando o Zotro age ninguém escapa!

9 de dezembro de 2019

UMA VEZ EU VI JESUS

             Eu era pequena e estava doente. Estava de cama e minha mãe, para variar, estava desesperada como ela sempre ficava quando um de nós ficava doente. Então eu dormi e sonhei que estava parada, em pé, do lado da cama e que me senti mal a ponto de achar que ia cair, daí eu disse “Ai, meu deus, me ajuda!” e Jesus apareceu na minha frente com um raminho de mato na mão. E Jesus me benzeu igual uma das benzedeiras de onde minha mãe levava a gente sempre. Daí o sonho continuou com Jesus brincando comigo como meus colegas brincavam e acabou. Eu acordei e não estava mais doente. Contei o sonho pra minha mãe e ela, é claro, não teve dúvidas de que Jesus tinha me curado, rezou um monte agradecendo o milagre. 

Eu mesma acreditei nisso durante muito tempo. Mas quando li a bíblia e comecei a questionar a religião, comecei a questionar isso também. Demorou bastante para chegar a uma conclusão porque no começo era bem difícil questionar o que sempre aprendi que não era para questionar. Eram mais pensamentos involuntários que muitas vezes eu afastava rapidamente, mas os pensamentos “hereges” foram se tornando mais teimosos e chegou um tempo em que não fugiam mais quando eu tentava espantá-los.

Leituras de livros de filosofia e de livros religiosos juntamente com outras leituras da bíblia acabaram por me forçar a assumir que a fuga não era mais possível. Eu me descobri ateia depois de pensar em muitas coisas ligadas à religião, entre elas essa vez que vi Jesus.

Pensei melhor nesse sonho e ficou claro que naquele dia a criança que eu era apenas juntou características do Jesus que tinha visto muitas vezes, inclusive em um quadro na frente do qual minha mãe rezava com a benzedeira que era amiga da gente. E concluí também que sarei porque nem estava tão doente assim e sararia de qualquer forma. A continuação do sonho tendo sido tão comum, com Jesus se confundindo com meus coleguinhas de brinquedo confirma totalmente essa certeza.

E, falando como a ateia que sou, se Jesus se deu a todo esse trabalho para me curar de uma doencinha boba, por que não me deixar sarar naturalmente e usar essa energia para curar outra criança que realmente precisava. Morreram, de doença, pelo menos três crianças do meu bairro naquela época.