10 de junho de 2020

É NOJENTO!

Que outra palavra posso usar
Para me referir ao comportamento
De um deus que é onisciente
E que mesmo assim
Pede que um pai mate o próprio filho
Para provar a sua fé?
Fé essa que
Pela sua onisciência
Ele já conheceria de sobra
Além da dor de Abraão
Imagino o terror de uma criança
Que é quase assassinada pelo próprio pai
E dizem que esse deus
É a suprema bondade!
Só se for a suprema bondade no sentido
Da visão do Giovanni Gentile
“O mal que é bem porque nos obriga a
Assim que tomamos consciência dele
Combatê-lo
E com isso melhorar
A nós mesmos e ao mundo”
Mas não é possível combater
Esse deus
Porque ele não existe
A única coisa que resta
É a minha total incompreensão
De como é que as pessoas
Conseguem acreditar
Afirmar e reafirmar
A bondade desse deus.

“NO PRINCÍPIO ERA O CAOS”


Eu gosto muito da primeira frase do primeiro livro da minha coleção de mitologia grega: "No princípio era o caos". Sei que a frase é o início da Teogonia, de Hesíodo (En arché én hó khaos), mas gosto de pensar nela como “A primeira frase do primeiro livro da minha coleção de mitologia grega”. Adoro mitologia greco-romana, e adoro minha coleção, que roubei fascículo a fascículo do bolso do meu pai.

Meu pai era macho alfa, se a gente calculava mal e pedia alguma coisa quando ele não estava de bom humor, ele dizia “Não!” e não voltava atrás jamais porque voltar atrás era sinal de fraqueza. Eu calculei mal, vi a propaganda da coleção que sairia em fascículos semanais, fiquei empolgada demais e esqueci a regra de ouro: Verificar o humor do meu pai antes de pedir qualquer coisa. Corri até ele gritando “Pai!, pai!” e falei da coleção aos trancos e cegamente levada pelo entusiasmo. Ele mal me ouviu e disse “Não”.

Roubá-lo era uma aventura! Ele trabalhava à noite, dormia durante o dia e ficava furioso quando alguém o acordava. Eu só o roubava quando não tinha ninguém em casa. Fechava a porta da sala, colocava um pano na janela para escurecê-la e não entrar luz no quarto quando a porta fosse aberta, então girava a maçaneta e abria a porta em câmara lenta para que não fizesse barulho, atravessava o quarto pé ante pé tateando no escuro e chegava até onde estava a calça do meu pai, pendurada no puxador do guarda-roupas.

Meu pai levava no cinto um chaveiro barulhento que no dia a dia era útil pra gente saber quando ele estava chegando, mas que não era útil naquele momento Eu tinha que achar o chaveiro primeiro e segurá-lo com cuidado na mão fechada para que não fizesse barulho, então enfiava a outra mão no bolso da calça e puxava uma nota. Com a nota apertada na mão, fazia todo o percurso inverso. Tudo isso demorava muito tempo e eu executava cada fase do processo quase sem respirar e parando a cada ronco mais forte, o coração e o cérebro em estado de alerta e de medo. Se meu pai acordasse eu levaria uma surra de cinta daquelas de deixar o corpo marcado por semanas.

Só depois de tirar o pano da janela e de abrir de novo a porta da sala, só depois de respirar aliviada, a salvo no meu quarto, é que eu via o valor da nota que tinha conseguido pegar. Se fosse uma nota alta, sentia que o crime compensa e comprava vários fascículos de uma vez, mas tinha dias que era uma nota baixa e eu só podia comprar um fascículo, e dias ainda piores em que a nota era tão baixa que não dava para comprar nenhum; então eu tinha que engolir a frustração da aventura inútil e esperar outro dia, quando ninguém estivesse em casa, para me aventurar de novo.

Fiz um acordo com o jornaleiro perto da escola e ele guardava os fascículos pra mim. Assim, de roubo em roubo e usando para comprar fascículos cada merreca que me caia na mão, completei a coleção e mandei encadernar. Anos depois, já adulta, contei pro meu pai o que tinha feito. Ele, que já não era mais o macho alfa da minha infância, me abraçou e quase chorou dizendo que tinha negado me dar a coleção por pura teimosia.

Agora a coleção está aqui, linda e velha como minhas lembranças.

CIRANDA

CIRANDA

Anda
Cira
Acorda
Que a roda
Acabou.

9 de junho de 2020

DIVISÃO

Vem você
Ou vou eu?
Não importa
Porque o que quero
Pode ser aqui ou lá

Cantar comigo
Contar comigo
Cantar contigo
Contar contigo
Comigo, amigo
Contigo, amigo

Essa é a receita
Pra gente
Estar, ter e ser
Um para o outro
Abrigo.

EDUCAR E AMAR, VERBOS DE PRIMEIRA CONJUGAÇÃO


          Os verbos educar e amar têm muito em comum. No livro de gramática, porque ambos têm a terminação ar, são denominados verbos de primeira conjugação. Na nossa sociedade, são ações de primeira necessidade, portanto: primeira conjugação. E são complementares: impossível educar sem amar, impossível amar sem educar, ou, sem ensinar, mesmo que seja apenas (apenas?) ensinar a amar.

E são regulares: na gramática porque seguem o paradigma da primeira conjugação, na sociedade porque são ações que devem ser praticadas regularmente, todos os dias e toda a vida. Quando amamos educamos, aprendemos, crescemos... Quando educamos de verdade, amamos e nos amamos. Quem não ama não educa e não é educado (nos dois sentidos). Quem não educa não ama, não se ama, não cresce, não aprende...

Os sujeitos desses verbos somos todos nós, nós adultos, nós professores, nós pais, nós cidadãos, nós seres humanos, nós homens, nós mulheres e nós crianças — sim, nós crianças! — porque crianças educam outras crianças e a criança que existe dentro de cada um de nós é uma grande educadora.

Esses dois verbos também são reflexivos: Quem ama e educa se ama e se educa, é amado e aprende, porque quem é amado ama e quem educa aprende. E quanto mais ama mais é amado, quanto mais educa mais é educado.

A escola é, portanto — tem que ser — um templo de amor. Cada casa, cada lar, cada família deve também ser um templo de amor e cabe a cada pessoa fazer de si um educador e um educando porque essa é a única forma de cada pessoa fazer de si mesma um mundo melhor. E torcer para que seja contagioso.

8 de junho de 2020

UTOPIA: MINHA ESCOLA IDEAL


A escola dos meus sonhos tem mais pátio do que salas de aula, tem mais lá fora do que lá dentro. Na escola dos meus sonhos tem muitos jardins, muitas árvores, muito gramado, muitos bancos ao ar livre, coretos e caramanchões. As salas são amplas, iluminadas e têm muitas janelas abrindo para o verde. A escola dos meus sonhos tem cadeiras e mesas e tem chão e almofadas, não carteiras; tem livros, revistas e gibis em todas as salas; tem todas as tecnologias mais avançadas, que são usadas como instrumento pedagógico ou material de estudo, nunca como fim em si mesmo, menos ainda como instrumento único e soberano; tem laboratórios, oficinas, quadras; suas paredes, teto, piso e cortinas são muito limpos, artísticos, coloridos e divertidos.

A escola dos meus sonhos tem poucos alunos por turma e professores em tempo integral recebendo tarefas e apoio, trabalho e material adequado, alunos receptivos e salários dignos. Ela tem direção, coordenação e pessoal de apoio em número suficiente e sempre mais interessados em educação do que em bajulação, mais empenhados em criar e participar de uma escola do que de uma empresa e trabalhando com empenho e boa vontade porque são valorizados.

A escola dos meus sonhos trabalha para conseguir a participação, a cumplicidade e o apoio dos pais com relação à própria escola e, principalmente, à educação dos seus filhos e ao futuro deles. Não há subserviência à posição social ou ao dinheiro desses pais, os alunos são alunos, não clientes, e os pais são pais, não patrões.

Na escola dos meus sonhos não tem professores de português, professores de literatura e professores de redação como se fossem três disciplinas separadas; tem professores de língua, ou de linguagem; professores que ensinam a ler e entender textos, a ter e expor ideias, a conhecer e a brincar com as palavras. Tem professores de história que contam histórias, instigam críticas e ajudam a pensar; professores de geografia que passeiam pelo mundo como se o mundo fosse um sonho e professores de ciências que fazem e ensinam a fazer experiências.

Lá os professores de educação física são técnicos dos times e das equipes que a escola formou de acordo com a aptidão e o gosto dos alunos, e os times e equipes estão sempre em treino, em aprendizado e em preparação para as muitas disputas e competições saudáveis e compensadoras que a escola promove e das quais a escola participa. Tem professores de matemática que sabem jogar, propor e resolver quebra-cabeças e professores de língua estrangeira que ensinam turmas formadas de acordo com o nível dos alunos e que não permitem que os pais necessitem pagar cursos particulares de língua estrangeira para seus filhos fora do currículo, da escola e do horário escolar.

Na escola dos meus sonhos os professores de física apresentam a matéria de que são constituídos os corpos como sendo uma amiga misteriosa e fascinante, os professores de química mostram e demonstram os fenômenos instigantes que acontecem fora e dentro de nós, e os professores de biologia mostram os corpos e as funções, a vida e suas características, sem tabu e sem travas morais hipócritas e prejudiciais.

Na minha escola os professores de educação artística e os professores de filosofia não dão aulas só para os alunos e não dão aulas sozinhos para as turmas de alunos; dão aulas para e com os outros professores. E com essa preciosa ajuda os professores incluem a arte e a filosofia em suas disciplinas e no final, todos juntos, transformam todas as disciplinas em uma disciplina só: Vida.

Na escola dos meus sonhos os alunos fazem atividades sob as árvores e sobre o gramado muito mais do que na sala de aula; eles falam e brincam muito, mas sabem falar e brincar como quem está crescendo e não apenas como quem está vendando os próprios olhos para poder “curtir a vida”, porque eles têm apoio, direito de fala, e opiniões, porque suas vozes não se resumem a serem ouvidas, mas são respeitadas e debatidas sem desrespeito e imposição.

A escola dos meus sonhos está localizada em um bairro bonito e arborizado com ruas largas, belas praças e casas suficientemente grandes, bem-acabadas e habitadas por famílias que trabalham e vivem dignamente, e essas são as casas onde moram os alunos que frequentam a escola dos meus sonhos.

A escola dos meus sonhos, como principal característica, não é UMA escola, são todas as escolas, tão todas que ninguém se lembra de uma escola que seja diferente dela.

PRIMAVERA

Na pétala da flor
Passeia uma joaninha
Tudo é colorido e lindo
No jardim brilhante de sol
Um pássaro azul
Com a graça do voo silencioso
Aproxima de seu biquinho delicado
A flor

À luz do sol
Com o canto das cigarras como fundo
Uma joaninha é despedaçada
Em sua beleza frágil
E o belo pássaro voa
Acima do jardim
Onde reinam soberbas
A beleza e a morte

7 de junho de 2020

GUERRA

Batalha talha mortalha
Nos campos abandonados
Os corpos apodrecem
Feios, sujos e mutilados
A cor é vermelha
Do sangue que espalha

São dores que nunca cessam
São esperas interrompidas
São órfãos vivos e mortos
Abandonados por nada.

A VELHICE CONTRARIANDO A FILOSOFIA


Lendo uma matéria em uma revista de filosofia (Ciência e vida – Filosofia – Ano – n° 10 – editora escala) deparei-me com um discurso tão meu conhecido e tantas vezes ouvido ou lido por mim que resolvi comentar mais uma vez já que estamos falando de filosofia e discordar radicalmente de filósofos reconhecidos é sempre uma temeridade excitante. A autora do artigo (Talita Cícero) é jornalista, mas cita vários filósofos em sua matéria que tem como objetivo, como praticamente tudo que leio sobre o assunto, convencer as pessoas velhas de que a velhice é maravilhosa e a gente deve sempre estar feliz com ela e por ela. Discordo enfaticamente!

Citando a filósofa Edi Mail Bohrer, Talita concorda que: “Não existe outra forma de encarar a velhice se não aceitando-a e vivendo-a.” Mais adiante uma citação de Sêneca: “Assim como tudo o que é natural, a velhice também é boa, e não revela decadência.” (filósofos também mentem, e muito!). Depois outra citação da mesma Edi Mail Bohrer: “Todos nós vamos envelhecer e morrer. Precisamos aceitar a nossa finitude terrena.” Com essas citações fiquei enjoada (novamente!) da palavra “aceitar”. Aceitar é pura passividade, aceitar é não pensar, não questionar, não lutar, não agir, não fazer NADA! Aceitar é estar morto! Eu não aceito! E começo não aceitando essa ideia de que só se pode ser feliz aceitando.

Primeiro temos que aceitar a dependência, as imposições, os castigos, as ordens nem sempre realmente sensatas dos pais; depois temos que aceitar a palavra dos professores mesmo quando eles próprios não sabem o que e do que estão falando, e a palavra de seres humanos como nós que se acham melhores porque se colocaram na posição de representantes e intérpretes da palavra de um deus que, coincidentemente, sempre concorda com eles; daí temos que aceitar ordens dos chefes, imposições do mercado, sobrecarga de trabalho e preocupação, obrigações sociais, impostos absurdos que desaparecem nos bolsos dos ladrões que governam nosso país; e, por fim, temos que aceitar a velhice e a morte. Bela maneira de não viver!

Temos que viver na dependência dos nossos pais enquanto não podemos suprir nós mesmos as nossas necessidades básicas, mas nosso objetivo, e o que nossos próprios pais esperam de nós, é que não aceitemos essa dependência a não ser como temporária. Saímos dela assim que conseguimos ganhar nosso próprio sustento. Temos ainda que aceitar, de nossos pais e dos adultos que nos rodeiam e são responsáveis por nós, imposições que são colocadas com o intuito de nos proteger e nos fazer crescer a ponto de nos tornarmos independentes dessas imposições, quando teremos condições de agir por nós mesmos e escolher com consciência nossos caminhos. Temos também que aceitar castigos impostos pelos nossos pais, desde que condizentes no tempo e no espaço, com os fatos que os geraram, quando cometemos um erro e podemos ver claramente que o fizemos. Para isso é obrigação dos pais ensinarem, ampararem e orientarem seus filhos, mas, infelizmente, todos sabemos que tem uma quantidade assustadoramente grande de pais que não fazem nada disso e só castigam e dão ordens (às vezes até espancam) para mostrar poder ou para obter paz e tranquilidade livrando-se da responsabilidade que assumiram (ou deveriam ter assumido) quando tiveram filhos.

Temos sim que aceitar a palavra dos professores que nos mostram caminhos para que possamos ir além deles e que estão na frente da sala de aula para ensinar a conhecer e não impor conhecimentos que eles próprios não possuem e se arvoram de ter. Devemos ouvir as palavras de seres humanos como nós e pensar sobre elas decidindo se vamos ou não segui-las, para isso temos que usar nossa inteligência e nossa liberdade de questionar e descobrir por nós mesmos, e nunca, nunca mesmo, ficar repetindo essas palavras sem compreendê-las, sem pensar sobre elas, sem usar nosso cérebro e nossa razão.

Novamente, temos que aceitar uma série de imposições sociais porque é em sociedade que vivemos e muitas dessas imposições visam o bem comum; Algumas delas temos que aceitar porque estamos fazendo uma troca e dando, por exemplo, nossa força de trabalho e nossa observância das regras em troca do que necessitamos para sobreviver. Mas essa aceitação não deve ser passiva e ignorante, ao contrário, deve ser ativa e esclarecida a ponto de nos permitir lutar – mudar de emprego, entrar para um sindicato, votar em outro candidato, comprar outros produtos – e gerar mudanças quando não concordamos com a situação em que vivemos. Se não fosse a não-aceitação social, ainda estaríamos nas árvores ou nas cavernas, comendo carne crua!

Finalmente, sobre a velhice, temos sim que saber que ela é o nosso destino natural, que a morte é o nosso fim irrevogável e que não temos poder para mudar nenhuma das duas situações; não reconhecer isso é inocência patológica. Mas daí a aceitar passivamente só porque é natural e (pior ainda) achar bom! Ah, daí vai uma grande distância! Se todo mundo aceitasse a velhice como querem essas matérias de autoajuda disfarçadas em filosofia, não teríamos saído de uma expectativa de vida de menos de 30 para uma de mais de 60 anos! Não teríamos os inumeráveis avanços da medicina e da cosmética que fazem com que uma pessoa de quarenta e uma de sessenta em muitos casos não sejam tão diferentes assim no que diz respeito à aparência e à qualidade de vida; e não porque a pessoa de quarenta aparenta mais idade mas porque a de 60 aparenta menos.

Não aceitar a velhice não é, obrigatoriamente, sinônimo de infelicidade. Os estudiosos do assunto ligados à medicina e à filosofia estão precisando rever urgentemente seus conceitos! Não aceitar a velhice pode significar simplesmente não aceitar botar no coração o mesmo inverno que a natureza nos coloca nos cabelos. Pode significar saber que a decrepitude está próxima mas estar sempre disposto a adiá-la para amanhã. Não aceitar a velhice pode significar falar sobre o que se sente, desabafando a alma e aliviando o espírito (falar a verdade e não invenções mentirosas de cursinhos de autoajuda!). Não aceitar a velhice pode ser cobrar com veemência (e participar inclusive) mais descobertas, mais avanços, mais qualidade, mais conhecimento, mais respeito, mais compreensão.

Aceitar é ser cordeiro indo para o abate sem um balido. Não aceitar é sair da vida molecamente, olhando para a morte e mostrando o dedo médio!

31 de maio de 2020

SOBRE O BRINDE COM COPO DE LEITE OU QUALQUER OUTRO ABSURDO DESSE GOVERNO QUE VOCÊ PODE LEMBRAR SEM MUITO ESFORÇO

Independente do significado e do resultado
Que o uso desse símbolo possa ter
O fato é que esse é apenas mais um
Dos absurdos dessa absurdidade
Em que estamos inseridos
E nisso tudo
O real e que afeta a vida da gente
Tem sido apenas e unicamente
O de que ninguém está fazendo nada!
Ninguém que tem poder para agir está fazendo nada!
E quem não tem poder nenhum
Feito eu
Só consegue sentir raiva e impotência
A certeza da impotência é terrível
A gente vê um mundo que já não era bom
Desmoronando
Um mundo muitíssimo pior sendo construído
E se vê totalmente impotente
Para fazer qualquer coisa
Estou lendo Os Testamentos
O segundo livro da distopia
Criada por Margaret Atwood
Em O conto da Aia
Tem tanta semelhança na angústia que o texto passa!
Principalmente quando penso
No que teria levado ao nascimento
E manutenção
Da República de Gileade
E comparo a angústia de algumas das personagens
À angústia que essa situação absurda
Que estamos vivendo
Causa a mim
Não estou falando da série
Porque não vi nada da série
Mas li O Conto da Aia
Antes desse segundo livro que estou lendo agora
Sei que muita gente
Pode não perceber tanta semelhança assim
Mas acho que as semelhanças mais sutis
Entre literatura e realidade
São as mais significativas
E são seguramente
As que mais me afetam.

29 de maio de 2020

CANSA CONVERSAR COM BOZOMINION PORQUE...


Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente que diz "E daí?" diante da notícia de que milhares de pessoas estão morrendo por dia é um assassino.

Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente que quer "socar" nas pessoas um remédio que tem efeitos colaterais gravíssimos contrariando todos os especialistas de saúde como se ele tivesse conhecimento para isso é um assassino.

Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente que quer armar a população enquanto acaba de desmontar a educação pública já tão fragilizada é um assassino.

Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente que dá dinheiro para banqueiros e tira direitos de trabalhadores em meio a uma crise financeira é um assassino.

Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente cujo governo tem um programa de incentivo ao agronegócio que mata pessoas em nome de latifúndios e grilagem é um assassino.

Um bozominion nunca vai aceitar que um presidente que cria crises políticas e desmantela seu ministério da saúde enquanto pessoas morrem por uma doença para a qual não existe vacina é um assassino.

Não, um bozominion não vai entender que um presidente que pratica, incentiva e facilita esse tipo de atitudes é um assassino.

Por isso que nazistas certamente argumentaram (e ainda argumentam) que Hitler nunca matou ninguém.

Quando uma pessoa tem essa capacidade absurda de aceitar a barbárie como projeto de governo, não há argumento que mude isso.

Esse tipo de fanático nunca aprende.

18 de maio de 2020

MITOCÔNDRIA


Quando era criança e, na escola, aprendi sobre as células e suas organelas, me apaixonei pela mitocôndria! Uma vez fui à casa de uma pessoa com um grupo de amigos e, assim que entrei na sala, com a discrição escandalosa que foi minha marca naqueles tempos e acho que é ainda hoje, gritei: “Uma mitocôndria!” olhando para um quadro que havia na parede. O dono da casa disse que aquele quadro estava lá há muito tempo e aquela era a primeira vez que ele recebia alguém que sabia o que era aquela figura. Mas não fiquei apenas orgulhosa do meu “feito”, também fiquei fascinada pelo quadro, desejei ter um como aquele em minha casa e pensei nisso muitas vezes no futuro.

Eu achava a mitocôndria a mais interessante e bonita das organelas e, ao mesmo tempo, gostava de pensar no quão pequenas todas elas são e de tentar imaginar o quanto elas eram grandes comparadas com o tamanho dos átomos. Como um átomo “veria” uma organela? Também pensava muito sobre os átomos tão diferentes formando substâncias completamente diferentes que, por sua vez, formam as organelas, as células, o nosso corpo.

Nessa época pensei que deus poderia ser um corpo e nós poderíamos ser seres mais do que minúsculos habitando um dos elétrons de um dos átomos de uma das organelas de uma das células de seu corpo. Vendo as imagens representativas do sistema solar, eu tinha tido quase que uma epifania pensando na semelhança entre aquele modelo e o modelo que representava os átomos. Então imaginei que deus poderia sequer ser assim “um deus”, poderia ser um ser vivo com inteligência como uma pessoa ou com instintos como um animal vivendo em um grupo ou família como vivemos na terra. Tais seres não seriam exatamente iguais a nós porque o núcleo de seus átomos teria que ser um tanto incandescente para que um deles pudesse ser batizado por nós de sol, e eu não tinha visto nenhum livro ou professor dizer que o núcleo dos átomos brilha. Mas seriam seres vivos vivendo vidas como as nossas em algum lugar de alguma forma semelhante ao nosso universo só que extremamente maior. E nós habitaríamos um elétron do corpo de um desses seres, o ser que chamamos de “deus”. Para mim, isso explicaria o fato de não termos nenhuma evidência de fato da existência de deus. Afinal, o que saberia de mim uma criatura que habitasse um elétron de um átomo do meu corpo? Isso poderia, talvez, explicar também a "impressão" da “presença” de deus que algumas pessoas, incluindo minha mãe, diziam sentir; explicaria até mesmo o fato de ele aparentemente ignorar nossa existência. O que saberia eu sobre a existência de seres minúsculos que vivessem em um dos elétrons de um átomo do meu corpo? Será que, se tais seres existissem, nos momentos em que eu sentisse algo mais forte, como raiva quando meu pai me batia ou felicidade quando ganhava um presente ou tirava uma boa nota, alguns desses seres que fossem mais sensíveis não poderiam “sentir” algo e, por não saberem o que estava acontecendo, atribuir isso a uma interferência minha em suas vidas que eu na verdade ignoro totalmente?

Até hoje acho essa ideia interessante embora não possa dizer que acredito nela. Mas se fosse habitar um elétron de uma organela de uma célula de um corpo como o meu, eu escolheria habitar uma mitocôndria!

5 de maio de 2020

COMO SERÁ QUE SE VIVE?

Quando tinha 18 ou 19 anos e era uma moleca bem "Porra louca", tive uma amiga que se chamava Preta. Ela não era preta, então não sei o porquê do apelido, ou se era mesmo apelido. 
A preta era uma lésbica do tipo que dá "na vista" por não ser muito feminina e era uma poeta e uma pessoa muito agradável e divertida. 
Nossa amizade fez meus pais se perguntarem se eu era lésbica e discutirem se me aceitariam ou não. Minha mãe só meu contou isso anos depois e achei muito engraçado!
Um dia resolvemos escrever a quatro mãos. Uma começava e a outra acrescentava algo. A gente ficava um tempo trocando a folha de papel de mãos uma ou duas vezes por semana até que alguém desistia de continuar. Um dia perdemos contato e eu nunca mais soube nada a respeito dela. 
Fizemos dois textos assim e quando os leio não consigo lembrar quais trechos são meus e quais são dela. Um deles foi esse: 


Será viver caminhar passos incertos
E sofrer em cada esquina
Em cada canto
Em cada sonho?

Será então sorrir aos quatro cantos
Ser a personificação da felicidade
E do bem-estar?

Será viver amar ao próximo
E por ele dar a vida se preciso for
Mas nunca precisar?

Será então não amar ninguém
E viver de deu em deu
Rolando pela estrada
Como pedra lascada?

Como será que se vive?
Como será que se aprende?
Como?
Como será?

Será viver um misto de sentimentos
Diversos e espalhados
Sem certeza de seu próprio mundo?

Será explodir o coração
Num momento de paz
Ou será a procura
Dessa mesma abstração
Numa constante?

Como será viver?
Será unir as mãos
Em infinitos pedidos de perdão
Ao astro maior denominado Deus?

Será que viver é apontar
A arma da desigualdade
Ao infeliz fracassado
E assim se considerar herói
Dessa guerra existencial?


2 de maio de 2020

VIDA CADELA


Viver é um pé no saco. E olha que eu nem tenho saco... Não tenho mais saco pra brincar de dizer que a vida é legal, não acredito mais nessa mentira há tempos, a vida é um porre, é ruim, é inútil, é desagradável. Viver não tem nenhuma razão, nenhum sentido, nenhuma graça.

Jovem gosta da vida porque só vive, não pensa na vida. Mas a gente vai vivendo e começa a pensar. Por que será que é tão importante para a raça humana ficar se dizendo o tempo todo que a vida é legal? Se fosse mesmo seria preciso ficar dizendo tanto?

Por que a maioria das religiões condena o suicídio? Não seria para que não haja suicídios em massa? Por que a gente tem tanto medo da morte se a vida é muito mais apavorante? Deve ser porque sem esse medo atávico a gente se recusaria a viver. Quem iria querer ficar nesse mundo tão ruim se não estivesse preso por um instinto que nada tem de racional?

Na vida tem prazer? Tá bom; tem prazer sim! Mas quais são eles?

Sexo? Para a maioria de nós é pecado, é tabu, é nojento, é comércio, é forçado de uma forma ou de outra. Ou é forçado porque a mulher transa só com o marido para ser honesta, ou é forçado porque o marido transa só com a mulher para ser responsável, ou é forçado porque a amante transa o homem casado por dinheiro, ou porque a menina ou o menino transam porque seus hormônios não são domináveis, ou é forçado porque já que todo mundo transa... Ou é forçado mesmo.

Estupro legalizado ou não.

Sexo sem nenhum tipo de amarra praticamente não existe; ou realmente não existe, exceto, talvez, entre os animais; mas a maioria deles tem a restrição do cio; se a fêmea não estiver no cio não tem diversão. E tem os que precisam morrer para transar, como o louva-a-deus e os zangões.

E sexo, se não tiver amarras tem consequências; é a gravidez indesejada, a traição ou o medo dela, a doença venérea mais ou menos grave, a acusação de pecadora, galinha, puta, vagabunda, “viado”, “sapatão”... Ou a cobrança que obriga a mentir. O garanhão que brocha, o sátiro que gostaria de encontrar sua alma gêmea, o cara que tem o pinto pequeno e é obrigado a tentar acreditar que tamanho não é importante sem acreditar de verdade, ou aquele que, coitado, nem sabe se tem pau pequeno ou não.

Sexo, para a imensa maioria, acaba sendo na verdade algo ruim que se finge que é bom, algo bom que deixa culpa e sofrimento, algo morno de que não se fala nada ou se fala mentiras.

E a vergonha do corpo? Quantos gordos e gordas? Quantos velhos e velhas? Quantos feios e feias? Quanta gente tão longe da perfeição!

Que outro prazer tem? Comer. Mas comida nem todo mundo tem, e quem tem nem sempre tem o suficiente para o prazer. E quem tem para o prazer não pode porque engorda e gordura é feio. Tudo bem; é doença também, mas quem liga? O ruim mesmo é que ser gordo é feio. A mídia mandou e a gente acredita.

Comer por prazer dá vergonha, quase tanto quanto o sexo; dá culpa quase tanto quanto o sexo. Comer por prazer também é pecado, como o sexo.

Comer é tão ruim quanto fazer sexo.

Beber? Mas beber vicia, dá ressaca, vira do avesso, destrói lares, mata de cirrose. Beber é pecado, é vício; em muitas culturas é proibido.

Criar filhos? Criar filhos não é prazer, é obrigação do instinto!

É o instinto irracional da entrega, de cuidar e amar aquele que se não fosse o instinto que impede até pensar nisso seria a pessoa que primeiro desejaríamos matar. Sim, é cuidar de quem ficará no seu lugar quando você morrer, e por instinto você não quer morrer, mas prepara seu substituto como boi baixando a cabeça para o abate.

Amar uma pessoa é um prazer? Talvez por um tempo, mas logo acaba. A pessoa não quer mais, você não quer mais, a pessoa morre, você morre, a pessoa te trai, você trai, a pessoa adoece, fica inútil e você tem que cuidar, você adoece, fica inútil e a pessoa tem que cuidar. Amar dói.

Ter amigos é um lado bom da vida? Sim, com certeza! Para aqueles que conseguem tê-los, existem tantas pessoas sozinhas, sem amigos e sem habilidade para fazê-los. Amigos são um bem para os que não são traídos por eles, para os que não os usam e não são usados por eles. Não é à toa que há um consenso entre nós: o de que as amizades verdadeiras são raras.

Sim! A amizade é linda. Mas amigos morrem, amigos sofrem, desaparecem, adoecem e morrem quando só nossa impotência pode estar presente, e às vezes nem isso.

Sem contar que amigos não são outra coisa além de distrações que nosso instinto nos coloca para que aceitemos a vida sem rebeldia e sem suicídio. São nossos aliados na aceitação do inevitável.

Viver é esperar a grande desgraça. E não se pode nem pensar em escapar. Ela virá. Ela virá! Com toda certeza, virá. Você só não sabe quando. Será a morte, uma doença, a velhice sem esperança, um acidente que te mutila. Às vezes mais de uma dessas coisas, juntas. Vem uma desgraça, duas ou várias, mas vem, sem dúvida nenhuma vem. É só uma questão de tempo.

As pessoas são boas? Mentira, somos todos terrivelmente ruins, não mato porque sou covarde, você não mata porque tem medo da lei, ou porque está alienado pela religião e, nesse momento, ela diz para não matar.

Mas houve tempo em que a religião mandou matar e talvez volte a fazê-lo, então você também vai matar, torturar, roubar, humilhar, caluniar, e dizer que é a vontade de Deus. A religião leva a isso, é só uma questão de tempo. Tempo no passado ou tempo no futuro, talvez os dois.

Tem Deus para te consolar? Só se você fechar bem seus olhos, seus ouvidos e sua mente. Só se você não pensar nem por um momento na dor que te cerca, que está sempre e a todo momento em você ou a seu redor.

Deus como consolo? De que maneira se a religião afirma que Ele mandou você não pensar? De que maneira se a religião quer que você veja como pecado tudo aquilo que é contrário àquelas leis que, em algum momento, um homem cheio de fanatismo, paranoia e esquizofrenia, às vezes junto com outro sádico, humilhado e cheio de ódio doentio, escreveu e disse que foi o próprio Deus que o fez?

E você acredita porque esse bando de loucos escreveu também que se você não acreditar será porque tem uma aliança ou está sob a possessão do diabo – essa entidade que parece inspirada nas paranoias desses profetas lunáticos.

Se duvidar deles você será um descrente, um herege, um ímpio, um pagão, um qualquer-coisa que merece em tempos de paz o asco, o medo, a repulsa, o isolamento e até uma piedade rancorosa, e em tempos de guerra a tortura ou a morte. Se você pensar será o isolado porque tudo que você pensar merecerá um “vade retro” e você corre o risco de se tornar o próprio diabo sem nem sequer acreditar nele.

Ah, tem o conhecimento! O saber é um prazer. Mas como se quanto mais sabemos mais sabemos o quanto somos ignorantes? E se sabemos, mais ainda, que nem sequer temos condições de avaliar a extensão da nossa ignorância? Somos amebas olhando para o sol, que pode entender de sol uma ameba? Que podemos entender de alguma coisa nós, pobres macacos pelados?

A natureza é linda! Tem no mundo paisagens de tirar o fôlego do ser humano mais insensível; são recantos verdes, são ilhas em meio a mares azuis, são flores, perfumadas ou não, são animais cuja aparência ou habilidade nos deslumbra, são filhotes cuja beleza e fragilidade cheias de cores e brilhos nos comovem. Tanta beleza quase que faz com que acreditemos no bem.

Mas onde não vemos está o lindo inseto lançando veneno para capturar outro inseto não tão lindo assim, está o belo pássaro cantor se esbaldando de assassinar insetos, está o réptil capturando os filhotes mal saídos dos ovos de pássaros coloridos, está um peixe abrindo a boca e engolindo vários outros menores, às vezes da própria espécie, está um homem preparando uma armadilha para capturar um roedor a fim de vender sua pele, estão todos os seres vivos em uma guerra infinita de assassinatos em massa a que os biólogos chamam Cadeia Alimentar.

Um Deus tem que ter requintes de sadismo para criar tal natureza, e nós temos que ser muito burros para ver beleza nisso. E somos.

E alguém vai querer me convencer de que a vida é bonita?

Atreva-se!

1 de maio de 2020

TODO PRECONCEITO É UMA ACUSAÇÃO

Preconceito significa imputar ao outro
A culpa pela nossa incompreensão
A pessoa preconceituosa
Vê no outro um criminoso
Condena-o
Sem dar a ele o direito de defesa
E frequentemente
Não tem sequer a dignidade
De acusá-lo diretamente
Condenamos o outro
Por ter nascido diferente
Da muito pequena gama de variedade
Que nossa mente limitada
É capaz de aceitar
Acusamos o outro
De ter nascido
Em lugar diferente
De ter sido educado
De forma diferente
De não ter tido
Quem o educasse
Acusamos o outro
De falar outra língua
De ter estado doente
De sofrer um acidente
Acusamos o outro
De pertencer a outra cultura
De chamar de pátria
Outro pedaço de chão
Acusamos o outro
De ter nascido em outra data
De levantar os olhos
Para outro deus
De preferir outra cor
Outro sabor
Outro conceito
Outro som
Outro tipo de amor
Acusamos
Condenamos
Punimos o outro
Por não nos conhecer
Quando nos recusamos a conhecê-lo
Acusamos o outro
Pelos defeitos que manifestamos
Com mais vigor
Acusamos
Condenamos
Executamos o outro
Com mais veemência
Com mais furor
Quando
No espelho da verdade
Recusamos enxergar
Nossa própria essência.