13 de junho de 2020

A MEGALOMANIA CRISTÃ


Ao longo dos séculos, os cristãos fizeram um zilhão de mudanças e adaptações nos ensinamentos e preceitos do cristianismo, mas sempre afirmam que basta segui-los e crer para encontrar-se com deus e viver no paraíso eterno.

Antes de começar deixa eu avisar que não sou especialista em história, e não sou especialista em história do cristianismo ou de qualquer religião. Tudo que vou dizer vem de conhecimentos adquiridos como mera curiosa desse assunto - como meio que sou de muitos outros assuntos. Portanto, não me venham cobrar especificidades porque não vou poder dá-las. Qualquer dúvida pesquise e, se encontrar algum erro nas minhas afirmações, pode descer a lenha que não ligo, tá?

Vamos lá! No começo dos tempos do cristianismo todo cristão, inclusive o próprio Cristo, acreditava que Jesus voltaria logo, muito logo, em coisa de, no máximo, uns poucos anos. Daí que as próprias falas do Jesus bíblico confirmam que as orientações eram para que ninguém se apegasse aos bens materiais. Os discípulos e seguidores não deveriam possuir nada e andar pelas ruas pregando a Palavra e vivendo de esmola. Passaram os anos. Cristo foi, mas não voltou. Então o cristão - talvez discretamente a princípio - começou a ter uma coisinha aqui outra ali e a dar um jeitinho de dizer que com isso não estava, de forma nenhuma, deixando de ser cristão.

A coisa foi se desenvolvendo a ponto de hoje em dia não se conseguir encontrar muitos cristãos que ainda entram nessa de dar tudo que têm aos pobres e andar pelas ruas pregando a palavra e vivendo só de esmolas. Eu mesma nunca vi nenhum. Ou seja, a adaptação do ensinamento dado ao cristão no princípio foi se aperfeiçoando com o tempo a ponto de o cristão não se sentir vexado de morar em palacete e dirigir o carrão mais caro do ano se conseguir pagar por isso. Algumas pessoas maldosas poderão dizer que nem sempre é de maneira lícita e honesta que muitos dos cristãos ricos conseguem pagar pelos seus bens. Pode, inclusive, parecer que esses críticos não estão faltando com a verdade, pelo menos em alguns casos. Não é mesmo, Malafaia & CIA?

Antigamente uma noiva teria que ser obrigatoriamente virgem - salvo em casos especiais, como a viuvez. Se uma moça tivesse a audácia de chegar ao altar sem esse “qualificativo”, ela poderia estar certa de que quando morresse estaria condenada ao inferno por toda a eternidade. Quando eu era criança, casar-se de branco sem ser virgem era pecado mortal, segundo minha mãe e todas as mulheres da idade dela que eu conhecia. Quantos cristãos se atreveriam a defender seriamente esse preceito ainda hoje? E, caso alguém o faça, quantas cristãs levariam isso a sério?

Quando eu era criança, minha mãe jurava que comer carne na semana santa era pecado mortal com direito ao inferno. Depois de um tempo, até mesmo na minha casa, essa proibição se reduziu apenas à sexta-feira. Hoje, que eu saiba, não tem tanto cristão assim que acredita que poderá queimar no inferno - apesar de todos os seus cultos e missas - se “escorregar” e comer um bifinho na sexta-feira santa.

Antigamente o casamento era para sempre – “Até que a morte os separe”. A separação era um ato que, com toda a certeza e sem nenhuma sombra de dúvida, perderia para sempre e inapelavelmente “a alma imortal” dos dois membros envolvidos no ato. Não importa quão ruim pudesse ser a vida conjugal, ela teria que se manter porque o laço do matrimônio era sagrado e não podia ser quebrado a não ser pela morte. Acho que hoje em dia nem padre nem pastor diz mais no ato da cerimônia de casamento que “O que deus uniu o homem não separa” e, se ainda disserem, duvido muito que alguém leve isso a sério, incluindo o próprio padre ou pastor.

Essas são algumas das “adaptadas” que envolvem atitudes do dia a dia de que me lembrei para dar como exemplo das coisas que foram “sutilmente” mudadas pelos cristãos para adequar sua religião ao seu desejo. Além disso, muito se poderia dizer das coisas que suscitam divergências mais ou menos sérias entre as várias modalidades do cristianismo, como a adoração de ídolos e o celibato de seus ministros. Se olhar a bíblia e for enumerar e comentar todas as ordens, mandamentos, preceitos e tabus que lá estão, e que foram amenizados ou “ressignificados” pelos cristãos de uma ou de várias vertentes do cristianismo, terei que escrever um livro.

O “pulo do gato” é o cristão garantir que nada daquilo que ele não segue vale agora porque “não foi isso que deus (ou Jesus) quis dizer”. O cristão encontrou uma maravilhosa e oportuna saída: dizer que o que está na bíblia e que ele não acha que valha a pena seguir é “sentido figurado”. O curioso é que ele nunca usa esse mesmo argumento do “sentido figurado” quando o mandamento, preceito, recomendação ou sentença em questão está confirmando o que ele pensa. Mesmo, e principalmente, quando o que ele pensa é fruto de puro preconceito.

Alguém poderia me cobrar afirmando que me propus a falar da megalomania cristã. Essa pessoa perguntaria onde é que eu vejo a megalomania cristã nesses fatos que acabei de relatar? Simples: O cristão se acha tão importante, tão valioso, tão privilegiado e tão amado por deus que não importa quais sejam as prescrições do momento e quantas tenham sido as alterações que o cristão tenha feito nelas ao longo dos anos ou dos séculos, elas valem para ele como são. Como são agora. Parece, a quem olha de fora como eu, que essas prescrições são cuidadosamente adaptadas por deus para estarem sempre dispostas da maneira que for mais confortável para o cristão.

Por conta disso não posso deixar de me perguntar: E o que aconteceu com as pessoas que viveram antigamente, que não obedeceram aos preceitos da forma que eles eram pregados naquele tempo e que, por isso, foram mandadas para o inferno pelo deus obediente ao cristão? Não esquecer que muitas dessas pessoas foram inclusive mandadas para lá antes do tempo normal previsto porque deram o azar de trombar com um inquisidor ou com um fanático. E, mais e especialmente, me pergunto: O que acontecerá comigo quando eu já estiver no inferno e algum cristão resolver que o que faço e digo na verdade não é pecado?

A quem eu processo?

CIRO ADORA OFENDER!


Tá rolando na Net a acusação de que Jean Willys disse que Ciro Gomes atacou Marcia Tilburi em entrevista à BBC e que esse ataque nunca aconteceu. Seria, portanto, uma Fake News espalhada pela pessoa que vai trabalhar justamente com o tema Fake News em uma das maiores universidades do mundo.

Essa é uma acusação muito séria ao Jean Willys, séria demais, a meu ver, para ser aceita levianamente.

O trecho em discussão é essa fala do Ciro:



“Quantos votos teve a candidata a governadora do Rio de Janeiro nas eleições passadas? Você tem ideia? Rio de Janeiro é a maior concentração de artista por metro quadrado, intelectuais, engenheiros, do Brasil. É a sede da Globo, da ABI, enfim, de tudo o que é progressista. Sabe quantos porcento PT tirou lá? Dois por cento. Porque a Marcia Tiburi, que é uma figura respeitável, queridíssima e tal, faz apologia do cu na televisão. Eu tenho até vergonha de citar e isso não quer dizer que não haja uma grande interessante questão nesta tese da Marcia Tiburi, mas foi o que dominou o debate no Rio de Janeiro. Você quer uma governadora que faz apologia?”



E, para mim, ao contrário do que dizem, o Ciro atacou a Marcia Tiburi sim!

Eu até li uma matéria, cujo link está no primeiro comentário, que afirma que a notícia do ataque é uma Fake News, mas não concordo com a afirmação.

Na matéria o cronista destaca em negrito a parte em que Ciro diz que a Marcia é "uma figura respeitável, queridíssima", mas o fato é que ele diz que ela "faz apologia do cu na televisão", esse aposto com o elogio é apenas uma escolha textual que aparentemente tenta amenizar o ataque, mas é só um aposto.

O que a frase diz é "a Marcia Tiburi faz apologia do cu na televisão". Não vejo como isso não ser um ataque! Pelo menos não nesse trecho, porque não vi a entrevista da BBC, mas imagino que ele não tenha dito nada que retire ou se desculpe pelo ataque em outro ponto porque se o tivesse feito o cronista teria destacado, provavelmente em negrito.

Vamos fazer um paralelo para explicar melhor meu argumento: Nessa frase: Meu vizinho, um senhor muito sério e trabalhador, não venceu a eleição para representante dos moradores porque é um assassino em série. O fato de estar dito aí que o vizinho é "um senhor muito sério e trabalhador" retira da frase a acusação de que ele é um assassino? Acho difícil que alguém diga que sim! Se eu estivesse querendo dizer que os moradores não votarem nele porque acreditam que ele é um assassino em série, mas isso não é verdade, então eu DEVERIA ter dito EXATAMENTE isso, e não elaborado a frase dessa forma e esperar que as pessoas entendam. Agora reveja a frase do Ciro, será que o cronista do qual estou falando não mudaria seu discurso?

Continuando: Depois a matéria diz que foi a Márcia Tiburi que atacou Ciro ao chamá-lo de "Coroné" e que essa palavra é uma ofensa aos nordestinos. Mais uma vez não concordo!

O discurso de Ciro em outras ocasiões já me lembrou o dos "Coronés" mesmo. E essa palavra absolutamente não é uma ofensa aos nordestinos, principalmente porque a imensa maioria dos nordestinos não são "coronés", são vítimas deles. E acho que alguns (ou muitos) dos “coronés” do Nordeste sequer são nordestinos.

Tudo bem que o Ciro diz, mais abaixo no mesmo trecho, que pode haver uma questão interessante na tese da Márcia, ele não afirma que haja, não nega que ela "fez apologia", apenas diz que "não quer dizer que não haja", isso colocado como uma hipótese é quase uma ironia, ou soa como tal. Do tipo "Até pode ser, mas eu é que não engulo essa".

Não, desculpe, mas o Jean Willys não espalhou Fake News!

Em sua fala Ciro afirma SIM que a Marcia Tiburi "faz apologia do cu na televisão". Negar isso é ter interpretado a fala de forma enviesada e condescendente. Não sei se de propósito ou pelo fato de o cronista ter propensão a ignorar os pontos negativos da fala de pessoa que admira.

Uma propensão humana bem normal, comum e possível do cérebro humano a que todos nós estamos sujeitos.

A psicologia explica.

12 de junho de 2020

REDUZIR A MAIORIDADE PENAL ESTÁ CERTO?


Acho que diminuir a maioridade penal é um ato que deveria ser discutido com MUITO mais responsabilidade do que está sendo feito nessa campanha aparentemente orquestrada pela mídia aliada à elite urbana e bem-nascida do país. Acho que mesmo os que vêm com o discurso bonitinho de "não é solução, mas melhora" estão usando mais a raiva do que a racionalidade.

Não sou, em princípio, contra a redução da maioridade penal, mas sou sim E MUITO, contra a redução da maioridade penal como solução para o problema da criminalidade. Isso decididamente não é solução, nem "melhora".

A solução é muito mais complexa, muito mais demorada, muito mais trabalhosa e inclui prender MUITOS criminosos maiores de idade, com curso superior, contas bancárias cheias de zeros, moradores de grandes casas e apartamentos em bairros nobres e, em geral, brancos. Inclui prender, inclusive, muitos dos que estão “gritando” os chavões do tipo “bandido bom é bandido morto” e “tem idade para votar tem idade para ir pra cadeia”.

Não resolvemos o problema da criminalidade prendendo apenas jovens negros, favelados e analfabetos, por mais criminosos que sejam - tenham eles 16, 18 ou 30 anos.

Se toda a energia que se gasta lutando pela diminuição da maioridade penal e para que se imponha crenças religiosas nas leis do país fosse usada para melhorar DE VERDADE a educação, o problema da violência seria resolvido muito mais rápido.

Esclarecendo melhor: O que penso a respeito é que só DEPOIS que os problemas da desigualdade social, do descaso com a educação, do preconceito, da corrupção do executivo, das falhas e fragilidades das leis e de seu executores forem resolvidos - ou pelo menos levados em consideração como a real causa do problema da violência no país - se poderia discutir de forma lógica e sensata, no âmbito do direito constitucional (legislativo), se é ou não viável diminuir a maioridade penal.

Não digo que sou contra a diminuição da maioridade penal porque se vivêssemos em um país com educação de bom nível e para todos, com boa distribuição de renda, sem preconceito escancarado, com famílias estruturadas e leis decentemente criadas e cumpridas, daí talvez a diminuição da maioridade penal poderia ser um ponto a ser discutido e talvez pudesse ser efetivamente estipulada para 16 anos. Sempre SE e TALVEZ.

O que está acontecendo com esse assunto, para mim, parece ser o contrário do que costuma acontecer no caso de debates sobre as cotas para negros na faculdade. Os que são contra sempre dizem que em vez de dar cotas o governo tem que melhorar a educação. Quando a gente diz que devemos dar cotas ATÉ que se resolva o problema da educação, eles discordam veementemente, em geral com o tal “dar cotas equivale a institucionalizar o preconceito”, como se o preconceito já não fosse institucionalizado.

Daí os defensores da diminuição da maioridade penal alegam a mesma coisa que rejeitam no caso das cotas: Devemos prender todos ATÉ que se resolva o problema da educação. Mas a minha impressão é que (pelo menos na imensa maioria) os que defendem a diminuição da maioridade penal são os mesmos que se posicionam contra as cotas. Ou seja, para eles, dar um benefício “até que” não é válido, mas dar uma punição “até que” é muito válido.

Isso, para mim, não faz sentido, não porque eu não ache que criminosos devem pagar por seus crimes, mas porque para mim – exatamente como acontece no caso dos criminosos maiores de 18 - só alguns pagarão por seus crimes, os pobres, negros e favelados. Os demais continuarão com seus privilégios.

Se um filho de morador da Zona Sul cometer um crime - tenha 16 anos ou 18 não importa - com certeza esses “defensores da lei” vão arranjar jeito de dizer que “O coitadinho merece uma chance”. E os advogados conseguirão melhorar a situação do criminoso que, “Como todo mundo tá vendo, não é igual aos menores que precisam ir pra cadeia”.

O pensamento elitista quer eliminar o pobre. Pobre só pode ser tolerado se ficar longe e não incomodar, pobre que se aproxima muito tem que ser eliminado, ou afastado das vistas. Sempre lembro da colega de trabalho do meu marido falando sobre o aterro do Flamengo: "É bonito, mas muito mal frequentado". Ela quer que os pobres sejam proibidos de ir às praias bonitas do Rio, que fiquem com seus churrascos na laje e não se aproximem da elite a não ser como empregados em funções humildes e subalternas.

E, para essa gente, se tiver a desculpa de ter criminosos no meio desses pobres que devem sumir da vista, ótimo! “A gente enfia na cadeia e joga a chave fora sem se preocupar se são sempre e apenas os culpados que serão presos, afinal, se um inocente pagar por um culpado tudo bem, falhas acontecem”. Esse é o pensamento não verbalizado.

Se aceitar esse julgamento cheio de ódio que leva a maioria das pessoas a ser a favor da diminuição da maioridade penal, na minha visão, estarei concordando que pobres e pretos são mais criminosos do que brancos ricos ou da classe média, mesmo quando cometem o mesmo crime, e eu não concordo com isso.

E mais, e principalmente, a maioridade estipulada para 16 vai manter EXATAMENTE a mesma história, o mesmo ódio, a mesma sede de vingança travestida de reivindicação social, e com os mesmos argumentos; só que aí os personagens contra os quais lançarão sua fúria “patriótica” serão os jovens de 15 anos (e onze meses). ONDE isso resolve, ou ajuda?

Não posso fazer coro com essa campanha que me cheira mais a vingança irresponsável do que a uma preocupação social consciente e sensata. Mudem as leis, façam com que sejam iguais para todos, aí voltem a conversar sobre o assunto e eu posso prestar atenção e achar que vale a pena pensar no assunto.

Antes disso NÃO.

CRIATURAS MORTAIS


Acabei de ver, agora, no canal de TV da Nacional Geográfica, o “Netgeo” como pronuncia o locutor, um programa sobre animais que são predadores muito eficientes. O programa mostrou formigas extremamente venenosas; uma centopeia que come ratos; cobras, aranhas, tigres; um felino chamado fossa de que eu não me lembro de ter ouvido falar e terminou contando a história de um enorme urso negro que atacou e quase matou um ciclista nos EUA. Concluí que não devo mais ver esses programas, eles literalmente me fazem mal, meus batimentos cardíacos ainda não voltaram ao normal e estou com uma sensação horrível na barriga, uma espécie de amargor dolorido, sei lá... Tenho certeza de que se passasse por um exame médico agora ficaria comprovado que não estou mesmo bem, minha cabeça começou a latejar e estou sentindo uma pontada do lado esquerdo, preciso tomar um copo d’água, volto já.

Quando fui pegar a água descobri que estava tremendo, deitei-me e deixei passar um tempo antes de voltar a escrever.

Eu não entendo: o que é que passa na cabeça das pessoas que faz com que elas digam e acreditem que a natureza é bonita, perfeita, maravilhosa? Sempre que penso nisso sinto engulhos e depois de ver um programa desses fico mais e mais pasma com a capacidade que as pessoas têm de ver beleza no horror puro e simples. Não compreendo, é tudo que posso dizer a respeito. Não compreendo.

Só porque tem uma cadeia em que um devora o outro e é pelo outro devorado as pessoas chamam a natureza de perfeita? Só porque tem devoradores e presas coloridos, com carinhas simpáticas e pelos macios as pessoas chamam a natureza de bela? Só porque tem flores perfumadas, frutos saborosos e folhas brilhantemente verdes nos lugares onde animais de todos os tamanhos matam e são mortos as pessoas chamam a natureza de maravilhosa? Como pode? Como é possível? Eu não consigo compreender, não consigo...

Consigo sentir pena, carinho, respeito e até amor por muitos animais (deixo fora a barata); consigo admirar a beleza, a força, a esperteza, a agilidade de muitos animais (deixo fora a galinha); consigo desejar proteger, ajudar, amparar, compreender, conhecer muitos animais (acho que aqui não dá pra deixar nenhum fora); consigo até resistir ao meu próprio instinto, lutar contra meu gosto por picanha e sashimi e deixar definitivamente de comer qualquer animal se puder evitar. Mas não entendo como esse denso mar de sangue e medo em que estamos todos mergulhados pode ser chamado de bonito, maravilhoso, perfeito...

A natureza é feia, extremamente feia! Mal comparando, é como um psicopata sádico assassino serial extremamente simpático, cativante, bem vestido e perfumado (mais bonito e mais simpático do que o “Psicopata Americano”, alguém lembra do filme e do livro?). Toda a beleza e o visual agradável não conseguem fazer com que essa pessoa deixe de ser horrível. Assim é a natureza, mas parece que ninguém percebe isso e eu não entendo: Por quê?

SOU CONTRA O ABORTO


Eu acho que a grande maioria das pessoas é contra o aborto. Eu sou contra o aborto! Mas sou a favor, e muito, da descriminalização do aborto. Aborto é, e tem que ser, um último recurso quando os outros falharam ou por alguma razão não puderam ser usados. Acho que nenhuma mulher quer usar aborto como anticoncepcional, o que precisa é que elas tenham o direito de fazer aborto quando ELAS, pelos motivos que só dizem respeito a elas, decidem que querem fazer. Simples assim.

Se o aborto (de embriões) é crime porque tira uma vida inocente, matar animais é crime maior ainda porque em geral os animais são mortos quando já estão formados e com capacidade de sentir dor e medo. Essa coisa de achar que um óvulo humano fecundado tem mais direitos do que um animal senciente adulto é herança religiosa que muitos ateus ainda carregam. Essa herança religiosa é tão forte que valorizam mais a "vida" do óvulo fecundado do que a da mulher, que nem querem saber se sofre, se vai sofrer, por que motivo precisa ou quer fazer aborto. E também valorizam mais a "vida" de um óvulo fecundado do que a de uma criança nascida sem lar, sem amor, sem condições de ter uma vida decente.

O que acho engraçado sobre isso é que alguns dos que são contra aborto argumentam que se a mulher não tem nenhuma condição de criar o filho, ela pode simplesmente entregar para adoção. Dentro da visão que a minha parca inteligência alcança, me parece que não haveria tantos orfanatos pelo mundo, e pelo Brasil, cheios de crianças esperando por uma adoção que em muitos casos nunca acontece se a adoção fosse algo assim tão simples, como parecem pensar esses que não pensam nos direitos de mais ninguém a não ser nos hipotéticos direitos de um óvulo fecundado.

Além disso, como não pensam na vida da pessoa que com certeza está viva e sente dor - a mulher - a todos eles parece fácil, muito fácil, levar até o fim uma gravidez indesejada. Juro que não entendo como querem que o desespero ou mesmo a falta de informação se torne (ou continue sendo) crime.

MINHA PRÓPRIA MORTE


Eu acho que morrer deve ser muito legal. Sinto até uma certa ansiedade de que isso aconteça, como quem antevê o que sentirá quando chegar o dia de fazer aquela viagem previamente marcada para um país que não conhece. O mergulho no nada eterno me parece fascinante! Terrível seria o céu cristão: Sentar à direita do deus bíblico me apavoraria! O pós vida das outras religiões também não me agrada. Saber que só o nada está do outro lado é uma das muitas vantagens de ser ateia.

Não me incomoda deixar meu filho e não me incomoda deixar meu neto porque sei que isso é natural, então não me incomoda. Sei que não sentirei falta deles porque serei nada e o nada não sente, então isso me tranquiliza muito: nenhum aperto de saudade, oh, delícia! Meu filho provavelmente sentirá minha morte, e meu neto, se antes de eu ir a gente chegar a conviver, talvez sinta algo, mas a dor vai passar logo porque a mãezinha ou a vovozinha velhinha morrer é normal. A dor amaina mais rápido diante do natural.

O que não quero mesmo é morrer antes da minha mãe, ela sim teria uma dor maior – a maior de todas as dores na minha opinião – e isso sim, dói em mim pensar. Da mesma forma e pela mesma razão, não quero morrer depois do meu filho, como nenhum pai quer embora tantos passem por essa tortura. Seguindo a ordem natural a morte me parece muito boa, muito tranquila, muito agradável. O único medo que me sobra é o medo da dor, a dor que pode anteceder a morte caso ela venha por uma doença ou acidente sério; por isso, tudo o que desejo é que tenha muita morfina se eu precisar.

Ah! e embora não tenha medo, não tenho nenhuma pressa. Ainda tenho muitos livros pra ler.

10 de junho de 2020

É NOJENTO!

Que outra palavra posso usar
Para me referir ao comportamento
De um deus que é onisciente
E que mesmo assim
Pede que um pai mate o próprio filho
Para provar a sua fé?
Fé essa que
Pela sua onisciência
Ele já conheceria de sobra
Além da dor de Abraão
Imagino o terror de uma criança
Que é quase assassinada pelo próprio pai
E dizem que esse deus
É a suprema bondade!
Só se for a suprema bondade no sentido
Da visão do Giovanni Gentile
“O mal que é bem porque nos obriga a
Assim que tomamos consciência dele
Combatê-lo
E com isso melhorar
A nós mesmos e ao mundo”
Mas não é possível combater
Esse deus
Porque ele não existe
A única coisa que resta
É a minha total incompreensão
De como é que as pessoas
Conseguem acreditar
Afirmar e reafirmar
A bondade desse deus.

“NO PRINCÍPIO ERA O CAOS”


Eu gosto muito da primeira frase do primeiro livro da minha coleção de mitologia grega: "No princípio era o caos". Sei que a frase é o início da Teogonia, de Hesíodo (En arché én hó khaos), mas gosto de pensar nela como “A primeira frase do primeiro livro da minha coleção de mitologia grega”. Adoro mitologia greco-romana, e adoro minha coleção, que roubei fascículo a fascículo do bolso do meu pai.

Meu pai era macho alfa, se a gente calculava mal e pedia alguma coisa quando ele não estava de bom humor, ele dizia “Não!” e não voltava atrás jamais porque voltar atrás era sinal de fraqueza. Eu calculei mal, vi a propaganda da coleção que sairia em fascículos semanais, fiquei empolgada demais e esqueci a regra de ouro: Verificar o humor do meu pai antes de pedir qualquer coisa. Corri até ele gritando “Pai!, pai!” e falei da coleção aos trancos e cegamente levada pelo entusiasmo. Ele mal me ouviu e disse “Não”.

Roubá-lo era uma aventura! Ele trabalhava à noite, dormia durante o dia e ficava furioso quando alguém o acordava. Eu só o roubava quando não tinha ninguém em casa. Fechava a porta da sala, colocava um pano na janela para escurecê-la e não entrar luz no quarto quando a porta fosse aberta, então girava a maçaneta e abria a porta em câmara lenta para que não fizesse barulho, atravessava o quarto pé ante pé tateando no escuro e chegava até onde estava a calça do meu pai, pendurada no puxador do guarda-roupas.

Meu pai levava no cinto um chaveiro barulhento que no dia a dia era útil pra gente saber quando ele estava chegando, mas que não era útil naquele momento Eu tinha que achar o chaveiro primeiro e segurá-lo com cuidado na mão fechada para que não fizesse barulho, então enfiava a outra mão no bolso da calça e puxava uma nota. Com a nota apertada na mão, fazia todo o percurso inverso. Tudo isso demorava muito tempo e eu executava cada fase do processo quase sem respirar e parando a cada ronco mais forte, o coração e o cérebro em estado de alerta e de medo. Se meu pai acordasse eu levaria uma surra de cinta daquelas de deixar o corpo marcado por semanas.

Só depois de tirar o pano da janela e de abrir de novo a porta da sala, só depois de respirar aliviada, a salvo no meu quarto, é que eu via o valor da nota que tinha conseguido pegar. Se fosse uma nota alta, sentia que o crime compensa e comprava vários fascículos de uma vez, mas tinha dias que era uma nota baixa e eu só podia comprar um fascículo, e dias ainda piores em que a nota era tão baixa que não dava para comprar nenhum; então eu tinha que engolir a frustração da aventura inútil e esperar outro dia, quando ninguém estivesse em casa, para me aventurar de novo.

Fiz um acordo com o jornaleiro perto da escola e ele guardava os fascículos pra mim. Assim, de roubo em roubo e usando para comprar fascículos cada merreca que me caia na mão, completei a coleção e mandei encadernar. Anos depois, já adulta, contei pro meu pai o que tinha feito. Ele, que já não era mais o macho alfa da minha infância, me abraçou e quase chorou dizendo que tinha negado me dar a coleção por pura teimosia.

Agora a coleção está aqui, linda e velha como minhas lembranças.

CIRANDA

CIRANDA

Anda
Cira
Acorda
Que a roda
Acabou.

9 de junho de 2020

DIVISÃO

Vem você
Ou vou eu?
Não importa
Porque o que quero
Pode ser aqui ou lá

Cantar comigo
Contar comigo
Cantar contigo
Contar contigo
Comigo, amigo
Contigo, amigo

Essa é a receita
Pra gente
Estar, ter e ser
Um para o outro
Abrigo.

EDUCAR E AMAR, VERBOS DE PRIMEIRA CONJUGAÇÃO


          Os verbos educar e amar têm muito em comum. No livro de gramática, porque ambos têm a terminação ar, são denominados verbos de primeira conjugação. Na nossa sociedade, são ações de primeira necessidade, portanto: primeira conjugação. E são complementares: impossível educar sem amar, impossível amar sem educar, ou, sem ensinar, mesmo que seja apenas (apenas?) ensinar a amar.

E são regulares: na gramática porque seguem o paradigma da primeira conjugação, na sociedade porque são ações que devem ser praticadas regularmente, todos os dias e toda a vida. Quando amamos educamos, aprendemos, crescemos... Quando educamos de verdade, amamos e nos amamos. Quem não ama não educa e não é educado (nos dois sentidos). Quem não educa não ama, não se ama, não cresce, não aprende...

Os sujeitos desses verbos somos todos nós, nós adultos, nós professores, nós pais, nós cidadãos, nós seres humanos, nós homens, nós mulheres e nós crianças — sim, nós crianças! — porque crianças educam outras crianças e a criança que existe dentro de cada um de nós é uma grande educadora.

Esses dois verbos também são reflexivos: Quem ama e educa se ama e se educa, é amado e aprende, porque quem é amado ama e quem educa aprende. E quanto mais ama mais é amado, quanto mais educa mais é educado.

A escola é, portanto — tem que ser — um templo de amor. Cada casa, cada lar, cada família deve também ser um templo de amor e cabe a cada pessoa fazer de si um educador e um educando porque essa é a única forma de cada pessoa fazer de si mesma um mundo melhor. E torcer para que seja contagioso.

8 de junho de 2020

UTOPIA: MINHA ESCOLA IDEAL


A escola dos meus sonhos tem mais pátio do que salas de aula, tem mais lá fora do que lá dentro. Na escola dos meus sonhos tem muitos jardins, muitas árvores, muito gramado, muitos bancos ao ar livre, coretos e caramanchões. As salas são amplas, iluminadas e têm muitas janelas abrindo para o verde. A escola dos meus sonhos tem cadeiras e mesas e tem chão e almofadas, não carteiras; tem livros, revistas e gibis em todas as salas; tem todas as tecnologias mais avançadas, que são usadas como instrumento pedagógico ou material de estudo, nunca como fim em si mesmo, menos ainda como instrumento único e soberano; tem laboratórios, oficinas, quadras; suas paredes, teto, piso e cortinas são muito limpos, artísticos, coloridos e divertidos.

A escola dos meus sonhos tem poucos alunos por turma e professores em tempo integral recebendo tarefas e apoio, trabalho e material adequado, alunos receptivos e salários dignos. Ela tem direção, coordenação e pessoal de apoio em número suficiente e sempre mais interessados em educação do que em bajulação, mais empenhados em criar e participar de uma escola do que de uma empresa e trabalhando com empenho e boa vontade porque são valorizados.

A escola dos meus sonhos trabalha para conseguir a participação, a cumplicidade e o apoio dos pais com relação à própria escola e, principalmente, à educação dos seus filhos e ao futuro deles. Não há subserviência à posição social ou ao dinheiro desses pais, os alunos são alunos, não clientes, e os pais são pais, não patrões.

Na escola dos meus sonhos não tem professores de português, professores de literatura e professores de redação como se fossem três disciplinas separadas; tem professores de língua, ou de linguagem; professores que ensinam a ler e entender textos, a ter e expor ideias, a conhecer e a brincar com as palavras. Tem professores de história que contam histórias, instigam críticas e ajudam a pensar; professores de geografia que passeiam pelo mundo como se o mundo fosse um sonho e professores de ciências que fazem e ensinam a fazer experiências.

Lá os professores de educação física são técnicos dos times e das equipes que a escola formou de acordo com a aptidão e o gosto dos alunos, e os times e equipes estão sempre em treino, em aprendizado e em preparação para as muitas disputas e competições saudáveis e compensadoras que a escola promove e das quais a escola participa. Tem professores de matemática que sabem jogar, propor e resolver quebra-cabeças e professores de língua estrangeira que ensinam turmas formadas de acordo com o nível dos alunos e que não permitem que os pais necessitem pagar cursos particulares de língua estrangeira para seus filhos fora do currículo, da escola e do horário escolar.

Na escola dos meus sonhos os professores de física apresentam a matéria de que são constituídos os corpos como sendo uma amiga misteriosa e fascinante, os professores de química mostram e demonstram os fenômenos instigantes que acontecem fora e dentro de nós, e os professores de biologia mostram os corpos e as funções, a vida e suas características, sem tabu e sem travas morais hipócritas e prejudiciais.

Na minha escola os professores de educação artística e os professores de filosofia não dão aulas só para os alunos e não dão aulas sozinhos para as turmas de alunos; dão aulas para e com os outros professores. E com essa preciosa ajuda os professores incluem a arte e a filosofia em suas disciplinas e no final, todos juntos, transformam todas as disciplinas em uma disciplina só: Vida.

Na escola dos meus sonhos os alunos fazem atividades sob as árvores e sobre o gramado muito mais do que na sala de aula; eles falam e brincam muito, mas sabem falar e brincar como quem está crescendo e não apenas como quem está vendando os próprios olhos para poder “curtir a vida”, porque eles têm apoio, direito de fala, e opiniões, porque suas vozes não se resumem a serem ouvidas, mas são respeitadas e debatidas sem desrespeito e imposição.

A escola dos meus sonhos está localizada em um bairro bonito e arborizado com ruas largas, belas praças e casas suficientemente grandes, bem-acabadas e habitadas por famílias que trabalham e vivem dignamente, e essas são as casas onde moram os alunos que frequentam a escola dos meus sonhos.

A escola dos meus sonhos, como principal característica, não é UMA escola, são todas as escolas, tão todas que ninguém se lembra de uma escola que seja diferente dela.

PRIMAVERA

Na pétala da flor
Passeia uma joaninha
Tudo é colorido e lindo
No jardim brilhante de sol
Um pássaro azul
Com a graça do voo silencioso
Aproxima de seu biquinho delicado
A flor

À luz do sol
Com o canto das cigarras como fundo
Uma joaninha é despedaçada
Em sua beleza frágil
E o belo pássaro voa
Acima do jardim
Onde reinam soberbas
A beleza e a morte

7 de junho de 2020

GUERRA

Batalha talha mortalha
Nos campos abandonados
Os corpos apodrecem
Feios, sujos e mutilados
A cor é vermelha
Do sangue que espalha

São dores que nunca cessam
São esperas interrompidas
São órfãos vivos e mortos
Abandonados por nada.

A VELHICE CONTRARIANDO A FILOSOFIA


Lendo uma matéria em uma revista de filosofia (Ciência e vida – Filosofia – Ano – n° 10 – editora escala) deparei-me com um discurso tão meu conhecido e tantas vezes ouvido ou lido por mim que resolvi comentar mais uma vez já que estamos falando de filosofia e discordar radicalmente de filósofos reconhecidos é sempre uma temeridade excitante. A autora do artigo (Talita Cícero) é jornalista, mas cita vários filósofos em sua matéria que tem como objetivo, como praticamente tudo que leio sobre o assunto, convencer as pessoas velhas de que a velhice é maravilhosa e a gente deve sempre estar feliz com ela e por ela. Discordo enfaticamente!

Citando a filósofa Edi Mail Bohrer, Talita concorda que: “Não existe outra forma de encarar a velhice se não aceitando-a e vivendo-a.” Mais adiante uma citação de Sêneca: “Assim como tudo o que é natural, a velhice também é boa, e não revela decadência.” (filósofos também mentem, e muito!). Depois outra citação da mesma Edi Mail Bohrer: “Todos nós vamos envelhecer e morrer. Precisamos aceitar a nossa finitude terrena.” Com essas citações fiquei enjoada (novamente!) da palavra “aceitar”. Aceitar é pura passividade, aceitar é não pensar, não questionar, não lutar, não agir, não fazer NADA! Aceitar é estar morto! Eu não aceito! E começo não aceitando essa ideia de que só se pode ser feliz aceitando.

Primeiro temos que aceitar a dependência, as imposições, os castigos, as ordens nem sempre realmente sensatas dos pais; depois temos que aceitar a palavra dos professores mesmo quando eles próprios não sabem o que e do que estão falando, e a palavra de seres humanos como nós que se acham melhores porque se colocaram na posição de representantes e intérpretes da palavra de um deus que, coincidentemente, sempre concorda com eles; daí temos que aceitar ordens dos chefes, imposições do mercado, sobrecarga de trabalho e preocupação, obrigações sociais, impostos absurdos que desaparecem nos bolsos dos ladrões que governam nosso país; e, por fim, temos que aceitar a velhice e a morte. Bela maneira de não viver!

Temos que viver na dependência dos nossos pais enquanto não podemos suprir nós mesmos as nossas necessidades básicas, mas nosso objetivo, e o que nossos próprios pais esperam de nós, é que não aceitemos essa dependência a não ser como temporária. Saímos dela assim que conseguimos ganhar nosso próprio sustento. Temos ainda que aceitar, de nossos pais e dos adultos que nos rodeiam e são responsáveis por nós, imposições que são colocadas com o intuito de nos proteger e nos fazer crescer a ponto de nos tornarmos independentes dessas imposições, quando teremos condições de agir por nós mesmos e escolher com consciência nossos caminhos. Temos também que aceitar castigos impostos pelos nossos pais, desde que condizentes no tempo e no espaço, com os fatos que os geraram, quando cometemos um erro e podemos ver claramente que o fizemos. Para isso é obrigação dos pais ensinarem, ampararem e orientarem seus filhos, mas, infelizmente, todos sabemos que tem uma quantidade assustadoramente grande de pais que não fazem nada disso e só castigam e dão ordens (às vezes até espancam) para mostrar poder ou para obter paz e tranquilidade livrando-se da responsabilidade que assumiram (ou deveriam ter assumido) quando tiveram filhos.

Temos sim que aceitar a palavra dos professores que nos mostram caminhos para que possamos ir além deles e que estão na frente da sala de aula para ensinar a conhecer e não impor conhecimentos que eles próprios não possuem e se arvoram de ter. Devemos ouvir as palavras de seres humanos como nós e pensar sobre elas decidindo se vamos ou não segui-las, para isso temos que usar nossa inteligência e nossa liberdade de questionar e descobrir por nós mesmos, e nunca, nunca mesmo, ficar repetindo essas palavras sem compreendê-las, sem pensar sobre elas, sem usar nosso cérebro e nossa razão.

Novamente, temos que aceitar uma série de imposições sociais porque é em sociedade que vivemos e muitas dessas imposições visam o bem comum; Algumas delas temos que aceitar porque estamos fazendo uma troca e dando, por exemplo, nossa força de trabalho e nossa observância das regras em troca do que necessitamos para sobreviver. Mas essa aceitação não deve ser passiva e ignorante, ao contrário, deve ser ativa e esclarecida a ponto de nos permitir lutar – mudar de emprego, entrar para um sindicato, votar em outro candidato, comprar outros produtos – e gerar mudanças quando não concordamos com a situação em que vivemos. Se não fosse a não-aceitação social, ainda estaríamos nas árvores ou nas cavernas, comendo carne crua!

Finalmente, sobre a velhice, temos sim que saber que ela é o nosso destino natural, que a morte é o nosso fim irrevogável e que não temos poder para mudar nenhuma das duas situações; não reconhecer isso é inocência patológica. Mas daí a aceitar passivamente só porque é natural e (pior ainda) achar bom! Ah, daí vai uma grande distância! Se todo mundo aceitasse a velhice como querem essas matérias de autoajuda disfarçadas em filosofia, não teríamos saído de uma expectativa de vida de menos de 30 para uma de mais de 60 anos! Não teríamos os inumeráveis avanços da medicina e da cosmética que fazem com que uma pessoa de quarenta e uma de sessenta em muitos casos não sejam tão diferentes assim no que diz respeito à aparência e à qualidade de vida; e não porque a pessoa de quarenta aparenta mais idade mas porque a de 60 aparenta menos.

Não aceitar a velhice não é, obrigatoriamente, sinônimo de infelicidade. Os estudiosos do assunto ligados à medicina e à filosofia estão precisando rever urgentemente seus conceitos! Não aceitar a velhice pode significar simplesmente não aceitar botar no coração o mesmo inverno que a natureza nos coloca nos cabelos. Pode significar saber que a decrepitude está próxima mas estar sempre disposto a adiá-la para amanhã. Não aceitar a velhice pode significar falar sobre o que se sente, desabafando a alma e aliviando o espírito (falar a verdade e não invenções mentirosas de cursinhos de autoajuda!). Não aceitar a velhice pode ser cobrar com veemência (e participar inclusive) mais descobertas, mais avanços, mais qualidade, mais conhecimento, mais respeito, mais compreensão.

Aceitar é ser cordeiro indo para o abate sem um balido. Não aceitar é sair da vida molecamente, olhando para a morte e mostrando o dedo médio!