11.12.09

TROCA

Às vezes ao tentar contar uma história não encontramos o ponto exato onde tudo começou, no meu caso tenho esse ponto exato muito claro em minha mente. Era sábado e eu estava deitado na cama e vendo televisão enquanto ouvia, vindo do banheiro, o barulho do chuveiro ligado. Ouvi o momento em que o barulho cessou e poucos minutos depois a porta se abriu e eu quase caí da cama. Saindo do banheiro, ao invés da minha esposa enrolada na toalha, vi uma mulher nua que não se parecia em nada com ela. Corri ao banheiro passando pela desconhecida e conferi que não havia ninguém lá, minha esposa havia sumido! Parei diante da outra perguntando apressadamente quem era, como havia aparecido assim e por quê. Antes de perceber que ela falava comigo, percebi que estava me comportando como louco, eu estava mesmo enlouquecido! Parei, respirei fundo, voltei ao banheiro, peguei a toalha e entreguei à mulher, ela ficou segurando-a como que sem saber o que deveria fazer com ela e continuou falando. Dei-me conta então de que ela estava repetindo algo como se fosse uma espécie de mantra, mas eu não entendia nada e não conseguia identificar que língua era aquela. Sentei na cama e tentei me acalmar olhando para a mulher que continuava em pé e que parecia não saber que a toalha serviria para cobrir seu corpo nu. A primeira coisa que me veio à mente foi que ela parecia uma boneca de plástico daquelas com as quais minha filha brincava. A pele era muito lisa e muito “certa”, os cabelos pareciam sintéticos de tão certos. Detectei “certo” demais na minha definição mental da mulher.

Ela continuava falando e sua voz havia subido um tom, achei que estava se desesperando e por isso olhei de frente para ela e disse, fazendo os sinais que achei adequados, que eu não estava entendendo nada do que ela dizia, ao mesmo tempo tomei de sua mão a toalha e, devagar, enrolei-a em seu corpo de boneca de plástico. Ela foi parando de falar à medida que eu falava, parece que também não conseguia entender o que eu dizia. Quando se calou, caminhou devagar até a cama e sentou-se, parecia ter desistido de entender o que estava acontecendo. Sentei-me a seu lado e perguntei “Quem é você?” Ela me olhou e adivinhei uma incompreensão em seus olhos, percebi, aliás, que os olhos dela, ao contrário do rosto, eram muito expressivos. Lembrei dos filmes de televisão e fiz os típicos gestos enquanto dizia meu nome e perguntava o dela:

- Meu nome é Ivan, eu sou Ivan. – e eu tocava meu peito com a mão esquerda (sou canhoto) – e o seu, qual é o seu nome? - E eu tocava de leve a ponta do dedo indicador na toalha na altura do peito dela.

- Lua – Ela disse essa palavra que parecia com a palavra lua, mas não era exatamente a mesma pronúncia, o L era também um pouco N e o U era também um pouco O.

Eu simplesmente não sabia o que fazer, fiquei em pé e comecei a andar devagar pelo quarto enquanto tentava pensar:

- Onde diabos se meteu minha mulher?

Tentando ser racional e prático, fui até o guarda-roupas e peguei um vestido da minha esposa para a desconhecida “Lua”. Mostrei a ela o vestido, fiz os gestos mostrando que ela deveria tirar a toalha e colocar o vestido para que pudéssemos sair do quarto; eu me sentia um palhaço fazendo todas aquelas mímicas exageradas, e não sabia se ela estava entendendo. Parece que entendeu alguma coisa, tirou a toalha (a nudez parece que não era problema para ela) e pegou o vestido se atrapalhando para colocá-lo, tive que ajudá-la e me parabenizei por ter pegado um vestido tipo robe, o que facilitou muito porque a mulher parece nunca ter visto um vestido em sua vida, ela não sabia nem o que era em cima e o que era embaixo naquele pedaço de pano. Pensei em pegar uma calcinha, mas desisti, o vestido era comprido e o tecido era grosso o suficiente para que ela não tivesse constrangimento, ou melhor, para que ela não ME fizesse ter constrangimento.

Saí do quarto com ela e desci as escadas ainda sem saber direito o que faria. Tenho um casal de filhos e eles estavam na sala jogando vídeo game, nem me viram entrar, tive que chamar por eles:

- Gabriel, Amanda! – os dois se viraram ao mesmo tempo e olharam com estranheza para a mulher

Enquanto a puxava delicadamente para a frente, tentei explicar o que aconteceu tendo total consciência do absurdo que estava falando.

- Sua mãe foi tomar banho e sumiu no banheiro, ela apareceu no lugar, não sei como...

- Por que ela está usando o vestido da mãe? – Amanda perguntou apontando a mulher com o dedo, e sua voz tinha um tom recriminatório.

Antes que eu tivesse tempo de responder os dois falaram ao mesmo tempo, Gabriel e a mulher.

- Quem é ela? – isso foi o que ele disse, também apontando para ela, o que ela disse nenhum de nós três entendeu.

- Como eu disse, sua mãe entrou no banheiro e ela saiu. – eu falava e sentia o quanto era difícil acreditar no que eu dizia.

Meus dois filhos e a mulher começaram a falar ao mesmo tempo, sentei-me no sofá e fiquei esperando que parassem. Pararam daí a pouco e ficaram se olhando em silêncio.

- Que língua ela fala? – e enquanto perguntava, Gabriel veio sentar-se no outro sofá à minha frente.

Amanda sentou-se ao lado de Gabriel e a mulher sentou-se também na outra ponta do sofá onde eu estava. Os olhos dela expressavam mil pontos de interrogação que eu quase podia enxergar envolvendo nós todos.

- Não sei – eu disse um pouco alto demais – não sei quem é ela, não sei que língua fala, não sei de onde veio e ela está usando um vestido de sua mãe – olhei diretamente para Amanda – porque ela saiu do chuveiro nua e tive que dar algo para que ela vestisse.

- E cadê a mãe? – perguntou Gabriel muito baixinho.

- Também não sei – e eu tentava fazer sentido sem conseguir – ela entrou no banheiro, ouvi o barulho da água do chuveiro, depois o chuveiro parou e essa mulher saiu do banheiro no lugar da sua mãe.

- Ela deve ter vindo de um universo paralelo, e a mãe deve estar lá – Amanda apontou o armário onde ficavam os jogos de vídeo game como a explicar que os universos paralelos estavam nas caixinhas de jogos.

- Sei lá, pode ser – joguei o peso em cima deles – não sei o que fazer, vocês sabem?

Meus filhos tinham 15 e 16 anos. Amanda tinha usado seu lindo vestido rosado de baile há duas semanas e Gabriel teve sua festa de 16 anos no mês anterior. A mulher pareceu ter desistido de participar da conversa, levantou-se e começou a andar pela sala olhando todas as coisas com muita curiosidade nos gestos e nos olhos, ela rodou a sala, parou bastante tempo diante do aparador olhando as fotos, pegou algumas, olhou para a foto e para nós e, sem que percebêssemos o momento exato, foi andando para a cozinha.

- Não sei – era Amanda quem falava – podemos ensinar português para ela, mas vai demorar... temos que perguntar onde está a mãe.

- E aquele seu amigo que dá aula de latim – agora era Gabriel quem pensava em uma sugestão para o nosso problema - não conhece um montão de línguas? Talvez ele saiba que língua ela fala.

- Tá – e Amanda olhou o irmão com desprezo – se ela veio de um mundo paralelo, é claro que a língua dela é diferente de qualquer língua que a gente fala nesse mundo aqui, né? Seu babaca!

- Sem ofensas! – e eu tentava botar ordem no caos – a sugestão de chamar o Carlos é boa sim, mesmo que ele não conheça a língua dela, pode ter alguma semelhança com alguma das línguas que ele conhece, isso já pode ajudar...

- Isso é – admitiu Amanda a contragosto.

- Cadê ela – Gabriel olhava para os lados e realmente constatamos que a mulher de plástico não estava mais na sala.

Fomos todos olhar a cozinha, ninguém, saímos para o quintal e lá estava ela, pisando a terra do pequeno jardim que minha esposa cultivava.

- Fiquem com ela, eu vou ligar pro Carlos – fui correndo para dentro da casa deixando a estranha pisoteando a terra e falando, ou resmungando, com meus filhos, ou consigo mesma.

Entrei na sala e, antes que ligasse, meu filho veio atrás.

- Pai, acho melhor esperar um pouco mais antes de fazer qualquer coisa. Essa história é absurda demais, acho que quanto menos gente envolver, melhor... E se a gente tiver que explicar o desaparecimento da mamãe pra polícia? – meu filho tentava esconder o nó na garganta que tinha quando pensava na possibilidade de que a mãe não aparecesse nunca mais...

Parece que de repente acendeu uma luz na minha cabeça: Tentei de verdade não pensar nisso, mas estava o tempo todo lá no fundo... Minha esposa poderia não voltar! Meu filho, mais prático, pensou também nas conseqüências... se ela não voltasse, como eu poderia explicar o desaparecimento dela? Nesses casos a primeira suspeita é sempre assassinato e o primeiro suspeito é sempre o marido. Pelo menos é o que a gente vê nos seriados de televisão.

- Tem razão, melhor esperar... Não vou ligar pra ninguém - Esperei um pouco sem saber o que dizer – vou esquentar o almoço, fica lá fora com sua irmã...

Temperei a salada, arrumei a mesa, fiz nossos pratos, coloquei no microondas e voltei para o quintal. A mulher continuava pisando a terra enquanto com aparente boa vontade mostrava estar assimilando os ensinamentos do curso “português em 10 minutos” que meus filhos tentavam ministrar a ela.

Avisei que o almoço estava pronto e convencemos Lua a sair do jardim e nos acompanhar até a mesa da sala de jantar. Sentamos todos e eu trouxe os pratos, a mulher olhava tudo com muita estranheza e fez uma expressão de supremo nojo diante dos pedaços de frango assado. Enquanto mostrava sua curiosidade e sua aversão, ela falava num tom um pouco nervoso e nós três, é claro, não entendíamos nada.

Amanda fez as mímicas e usou as palavras para explicar a ela que aquilo era comida e que a gente comia assim, olha. Quando pegou um pedaço do frango e colocou na boca a mulher fez a maior expressão de espanto que já vi em toda a minha vida, empurrou o prato, levantou-se da cadeira e mais correndo do que andando voltou para o quintal.

Almoçávamos, levantávamos, ora um ora outro para confirmar que Lua continuava no quintal com os pés na terra e conversávamos a respeito da estranha mulher e seu comportamento diante da comida. Cláudia, nossa empregada que, felizmente não fica em casa nos finais de semana, é uma boa cozinheira, aquilo não tinha como ser uma crítica aos dotes culinários da moça. Só poderia ser uma estranheza provocada por ela ter visto algo muito diferente do que eram seus hábitos.

- O que será que ela come? Perguntou Gabriel.

- Eu acho que ela não come. – Amanda fazia sua expressão de entendida.

- E como é que ela estaria viva sem comer, sua boba, todo mundo sabe que se não comer a gente morre!

- Certo! “A gente” morre. Mas ela é de outro mundo, talvez no mundo dela não se precise comer para viver...

- E ela tiraria nutrientes de onde?

- Da terra. Vocês não viram como ela procurou depressa a terra e como prefere ficar lá do que em qualquer outro lugar. Acho que ela tira energia da terra meio que como as plantas fazem...

- Ela é então uma mulher-alface e faz fotossíntese? Mas não precisa ser verde pra fazer fotossíntese?

- Talvez não seja exatamente fotossíntese, talvez ela tenha outro sistema de tirar nutrientes da terra, outra maneira diferente de tudo que a gente conhece.

- É, pode ser. Eu queria saber como é isso, mas queria mais ainda que a mãe voltasse... – Gabriel colocou uma espécie de amargura de luto nessa última observação.

- Como será que ela está? Deve estar ainda mais atrapalhada do que essa mulher, sua mãe sempre foi exagerada. – Eu tentava imaginar os apuros de minha esposa, jogada de repente em um mundo estranho. Era difícil pensar...

Minha filha não disse nada, baixou a cabeça e colocou mais uma porção de comida na boca, que mastigou e demorou muito pra engolir...

Terminamos o almoço mais rápido do que o normal e voltamos para o quintal onde a mulher estava, em pé e imóvel pisando a terra. Achei que Amanda estava certa e achei que Lúcia não iria gostar nada de ver alguém pisoteando seu jardim, apesar de que, isso eu tinha que admitir, ela pisava com todo o cuidado para não maltratar as plantas.

Deixei que os meninos continuassem a ministrar seu curso relâmpago de português e fui até a geladeira pensando em oferecer alguma coisa para a mulher. Abri a porta e fiquei olhando a cerveja, o refrigerante, o suco de laranja, o iogurte de morango, a garrafa de água. Concluí que a água era mais segura, enchi um copo e levei para o quintal. Amanda entregou o copo a ela que pareceu apreciar muito, pelo menos isso ela aparentemente não estranhou em “nosso mundo”.

- Vou pra sala descansar um pouco. Qualquer problema me chamem.

Estou muito acostumado a tirar uma soneca logo depois do almoço nos finais de semana e meu corpo estava reclamando pelo sofá, cheguei a tirar um cochilo e acordei com barulho de sorrisos. Voltei ao quintal e quase caí duro quando percebi que os três estavam conversando amigavelmente, em português!

Os meninos tinham levado cadeiras para o quintal e eu levei também a minha. Passamos o resto da tarde conversando. Ficou claro que a mulher estranha já não era mais tão estranha. Lua aprendia as coisas com espantosa facilidade mas não sabia explicar melhor do que eu mesmo o que tinha acontecido. Ela contou que estava em casa sozinha porque todos tinham ido à Festa da Limpeza e ela voltara correndo a fim de pegar um livro que emprestaria para uma amiga, quando estava procurando o livro aconteceu “aquilo”; em um momento ela estava em sua sala e no momento seguinte estava no nosso banheiro.

Nós ficamos imaginando o que faria Lúcia sozinha na casa de Lua, ficamos perguntando mil coisas a ela para ver se conseguíamos imaginar uma maneira de ter certeza de que nossa esposa e mãe estaria bem. Lua tentou nos tranqüilizar dizendo que todos os que moravam com ela eram pacíficos e compreensivos.

- Todos a receberão bem, e antes de voltarem da festa ela terá tempo de conhecer a fábrica.

- Fábrica? Você mora em uma fábrica?

- É, moramos em uma construção bem grande que, muito antes, foi uma fábrica de brinquedos.

- E por que não é mais uma fábrica de brinquedos?

- Na verdade ainda é, só que não é mais fábrica só de brinquedos. Nós fazemos também enfeites, presentes e molduras pra quadros... coisas assim. Além disso, antes, ela era uma grande fábrica com muitos funcionários e uma grande produção, agora somos em onze pessoas e produzimos muito menos do que a quantidade que se produzia antigamente para vender aos montes para outras cidades e outros países.

- Quantas famílias vocês são?

- Uma só, oras...

- Uma só, mas então você tem nove filhos? – Acho que Amanda não achava que Lua parecesse uma mulher que tivesse tido nove filhos...

- Não, eu não tenho filhos. Somos todos adultos e formamos uma família porque estamos vivendo juntos na fábrica, tivemos um filho uma vez, mas ele cresceu e foi viver em outra família.

- E ele não vem te visitar?

Teve muitas perguntas, muitas explicações, muitos estranhamentos de ambas as partes, eu quase não falei e, quando achei que estava na hora, fui até a cozinha preparar o jantar, Gabriel levou outra jarra de água para deixar ao alcance de Lua. Pelo que entendi da conversa o mundo de Lua era muito diferente desse em que ela foi cair mas o mundo dela havia sido, em épocas muito remotas, bastante parecido com o nosso. Talvez – e foi uma idéia que me passou pela cabeça assim de repente e, é claro, uma idéia muito influenciada pelos muitos filmes e livros de ficção científica que já vi. Talvez o mundo de Lua não fosse tão outro, talvez fosse o mesmo em outra época... será que ela é, no final das contas, uma viajante do futuro?

Mas tínhamos um problema prático e tivemos que resolvê-lo, depois de conversarmos muito durante o jantar liguei para a polícia e demos queixa do desaparecimento de Lúcia. Esse telefonema, como era de se esperar, desencadeou uma via crucis que nunca mais parou: policiais aparecendo para fazer perguntas nas horas e lugares mais impróprios, familiares vindo à nossa casa como se fosse para um velório, contar a mesma história um milhão de vezes e até mesmo fazer reconhecimento de cadáveres.

Conseguimos esconder Lua durante algumas semanas e depois ela surgiu como governanta e acabou levantando bem menos suspeitas do que esperávamos, nem Cláudia, que passava a semana toda em casa, fez qualquer ligação entre o desaparecimento de Lúcia e o surgimento de Lua. Acho que se estivéssemos com essa história em um daqueles seriados de tevê em que detetives investigam um desaparecimento e, depois de muitas reviravoltas acabam conseguindo encontrar, julgar e condenar o assassino, eu teria sido julgado. É claro que a cumplicidade e esperteza dos meus filhos fez toda a diferença.

Aos poucos Lua, que tomou posse do quintal e do quarto de hóspedes, foi se adaptando à rotina da casa e começou a ver televisão durante a tarde como quem estudava, com aplicação e empenho, uma matéria da qual não gostava muito. À noite eu voltava do consultório e conversávamos sobre o dia, volta e meia a lembrança de Lúcia embaçava os olhos de Amanda ou de Gabriel e tornava mais áspera e difícil a minha voz. Sempre tentávamos pensar que ela estava bem e a descrição que Lua fazia de seu mundo ajudava muito nesse processo.

- Mas, Lua, se vocês não comem, se não se ferem, se não podem matar nem vegetais, como minha mãe vai conseguir sobreviver? Ela é como nós, precisa comer para viver, mesmo que seja apenas frutas e legumes...

- Meus amigos vão conseguir, com toda a certeza, encontrar frutas maduras e vegetais ainda frescos que as plantas dispensam naturalmente e darão de comer a sua mãe, Gabriel, não se preocupe, se tem uma coisa da qual tenho certeza é que ninguém vai permitir que sua mãe morra de fome, juro.

Essas afirmações sempre nos deixavam menos preocupados e o tempo é um remédio que age mesmo contra a vontade dos doentes, aos poucos a lembrança de Lúcia ficou menos dolorida e não era mais tão comum que eu ouvisse – e fingisse não ter ouvido – os choros abafados de Amanda ou de Gabriel nos seus quartos. Procurei respeitar a privacidade deles e só demonstrava minha compreensão, e os abraçava e consolava da melhor maneira que conseguia, quando eles não escondiam esses soluços e anunciavam sentir saudade da mãe.

Um dia Lua foi embora. Anunciou de repente que resolvera se aliar a alguns biólogos e morar numa reserva onde ajudaria a cuidar de animais e proteger as matas, não ficamos muito surpresos na verdade. Já que não tinha como voltar para casa, ela só poderia mesmo optar por uma vida que tivesse ligação com a natureza e que a deixasse em contato com a terra, que é a única que a alimenta. Só esperávamos que Lúcia também tivesse encontrado algo interessante para fazer de sua nova vida. Ela sempre levou jeito com artesanato, talvez esteja se sentido bem com uma família que fabrica brinquedos.

10.12.09

VIDA APÓS A VIDA

Ando pensando já faz algum tempo em como seria terrível se de verdade acontecesse o que muitas pessoas afirmam sobre existir vida após a morte. Imagina a cena: Você morre e tem alguém lá do outro lado te esperando, depois chegarão outros e você vai se encontrar com todas as pessoas com quem conviveu e teve laços de amizade, amor, parentesco enquanto estava vivendo essa vidinha besta aqui na terra.


Acontece que, pelo que eu entendi, se é que entendi alguma coisa dessa idéia de vida após a morte, do outro lado você é um espírito de luz, você se livrou do seu corpo e, junto com ele se livrou também de uma porção de coisas negativas que são inerentes à raça humana. Você está num degrau acima para se tornar um espírito puro, você está evoluindo, é um candidato a alguma coisa de suprema-pureza que eu confesso não conseguir fazer muito bem a idéia do que seja. Mas, enfim, você está lá, com seu pai, sua mãe, seu primeiro namorado, seus filhos, seu marido, todas as suas melhores amigas desde aquela da escola primária até a do asilo, e todos são espíritos de luz candidatos a se tornarem um super-espírito puro, seja lá o que isso for. Rapazes! Por favor, pensem nesses parentescos e relacionamentos que citei acima masculinizando ou feminilizando as pessoas de acordo com o que se adequar mais ao que foi (ou terá sido quando isso acontecer) a sua vida.


Imagino que, nessas condições não possa haver mentiras, meias-verdades, disfarces, segredos; e mais, imagino que o segredo seu que todos saberão não é aquele que você contaria e do jeito que você contaria, é todo e qualquer segredo; seus atos e pensamentos mais profundos. Todos vão saber as condições, o momento e o que você pensou e sentiu em cada situação da sua vida, que você guarda só pra você e que não diria nem sob tortura a nenhum ser humano do planeta. Ou será que você não tem nada disso? Nada mesmo? Nenhum pensamentozinho insidioso num momento de fraqueza? Nenhum “Foda-se, ninguém tá vendo mesmo!” naquele dia em que você estava sozinha em casa ou trancada no banheiro? Nunca se arrependeu de algo que sentiu e depois jogou aquilo debaixo do tapete que não deve jamais ser levantado?


Não vou fazer uma lista de possibilidades aqui porque não quero constranger você e porque não quero me entregar que também sou humana, mas acho que ninguém escapa dessa; e isso não é verdade só para nós, mulheres. Pensem comigo, garotos: nada a esconder?


Das duas uma: ou eu sou uma anomalia, uma “freak”, uma aberração da natureza, ou todos nós temos os nossos segredinhos inconfessáveis por menos danosos que sejam. Acho que a segunda opção é a verdadeira, mas você pode tentar me desmentir se quiser.


Podemos ser boas pessoas, respeitar e valorizar os amigos, a família, a sociedade, as leis; podemos ter passado pela vida sem cometer nenhum crime, sem nunca prejudicar propositadamente qualquer pessoa... Mesmo assim não sairíamos por aí dizendo tudo, tim-tim-por-tim-tim, o que fizemos, pensamos e sentimos em todos os momentos da nossa vida.

Como aceitaríamos fazer isso depois de mortos e para todas as pessoas que tiveram alguma importância para nós? E ainda com a possibilidade de que isso aconteça assim, diante de todas as pessoas e ao mesmo tempo... Por favor, escondam minha cara! Acho que se pensar por esse lado a tal vida depois da morte perde muitíssimos do seu charme, não perde não?


Mas, pensando e “caraminholando” sobre o assunto, eu quis nos livrar disso e tentei encontrar uma saída: E se a gente não precisar ser transparente para todo mundo do lado de lá? Podemos restringir essa abertura plena e irrestrita da nossa pessoa a um único ser, por exemplo um outro espírito, mais evoluído que nós e que estaria, nesse caso, como uma espécie de orientador da nossa "caminhada evolutiva".


Ou, se você é religioso e prefere ele, então que esse ser mais evoluído seja Jesus, o espírito mais evoluído de todos os espíritos evoluídos que possam existir (é o que dizem...). Então tá! só ele vai saber todos os seus segredinhos sujos. Ainda assim ficou um sentimentozinho de “sem-graça” não ficou mesmo? Em mim ficou, eu juro. E olha que nem acredito nesses espíritos evoluídos todos!


Mas quer ser mais restrito ainda? Tá bom: vamos supor então que seja deus, que exista deus e só ele tenha pleno conhecimento da sua personalidade na íntegra. Será que agora dá pra encarar uma vida depois da morte e, mais ainda, uma vida depois do esclarecimento total e completo de que alguém além de você sabe TUDO?


Bem, não posso falar por você nem por ninguém, mas garanto que a correr esse risco eu prefiro que não exista vida nenhuma depois da morte... E mais: se puder escolher abro mão, por melhor que seja e sem pensar duas vezes, de qualquer possibilidade de vida após a morte para poder conservar e levar comigo (e só comigo!) para o nada, a minha privacidade.

4.12.09

UM NATAL DIFERENTE

Eu não quero te desejar um feliz natal, eu quero te desejar uma feliz vida, quero desejar que você tenha uma sequência tão longa de dias felizes quanto forem os dias que te faltam pra viver, e que eles sejam muitos! Quero que você seja feliz a ponto de sentir provado em sua vida que felicidade contínua não causa tédio e que ser feliz de verdade não cansa.

Quero que você seja feliz mas não posso te desejar um feliz natal porque não acredito em natal, ao menos não acredito nele com essa conotação religiosa que tem, embora pense que todo pretexto para amar o outro e demonstrar isso seja válido. Pena que todos nós costumamos amar o outro de forma tão restrita: Amar apenas o outro que conhecemos, o outro do qual somos amigos, o outro que pensa como nós, o outro que é nossa família. Seria tão bom se todos nós pudéssemos ampliar esse “outro” até abarcar todas as pessoas do planeta nessa definição! Isso eu desejaria!

O “aniversariante do dia”, embora esteja no meu nome não significa nada para mim além de uma idéia em nome da qual muito se matou e muito se odiou no mundo, não sei ser condescendente com idéia tão destrutiva, me desculpem. Metade dos habitantes do planeta não conhece esse aniversariante e não comemora esse dia e eu quero que eles também sejam felizes. Não posso desejar a eles e a você um feliz natal, mas posso desejar a você e a eles uma vida feliz vida! A partir de hoje, a partir do dia de natal, a partir do dia primeiro do ano ou de qualquer dia que seja. Que eu desejo que seja o mais breve possível.

Para minha dor e minha frustração embora deseje, a você e ao mundo, com todas as minhas forças, uma vida feliz, eu não acredito de verdade nessa possibilidade; apenas posso desejar estar errada, desejar muito estar errada, desejar com todas as minhas forças estar errada. Na verdade tudo que eu pediria como presente de natal se pudesse pedir um presente de natal seria isso: estar errada! Mas sinto que, infelizmente, infelizmente, infelizmente, por mais que se deseje e por mais que se faça, não existe vida feliz.

O que acho mesmo é que as pessoas continuarão, contrariando todos os meus desejos, matando e odiando o outro em nome de um deus irracional. De um lado um deus “todo bondade” que manda matar, do outro um deus “todo bondade” que inventou a morte, e em nome deles - que são vários e que em muitos casos se dizem únicos - o homem, manipulado e manipulável, está sempre odiando, desprezando ou simplesmente ignorando o outro homem, este outro homem que é por sua vez manipulado por idéias “diferentes” mas extremamente iguais às mesmas que o manipulam.

Acho que o que eu poderia desejar de mais valioso para o mundo seria um Livrar-se-desses-deuses-todos, um Amar-incondicional-e-verdadeiro, um Considerar-próximo-também-o-distante, um Pensar-por-si-próprio-e-amar-maiúsculo-e-completo; um Fim-de-barreiras, um Fim-de-limites, um Abrir-mão-de-ter-razão.

Sim, o que posso desejar, e desejo muito, para você e para o mundo, poderia ser resumido nessas palavras: AMOR e LIBERDADE!

2.12.09

MAS EU NÃO CRITICO DEUS!

Na verdade não critico o ser, nem haveria como, já que não acredito em sua existência. O que afirmo são as falhas muitas que há nessa criação humana que não se sustenta diante da lógica mais banal.

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Não quero entender leis e desígnios de um ser inexistente. Essas falácias de “Os desígnios de deus são incompreensíveis aos olhos do homem” ou “Deus escreve certo por linhas tortas” e todas as similares são frases feitas obviamente criadas para dizer alguma coisa com respeito às incoerências dessa crença absurda sem na verdade explicar nada.

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Não há desígnio, caminho, escrita, razão possível que possa tornar justificável o estupro de uma criança, a tortura de um ser humano ou de um animal, um animal botar seus ovos dentro de outro para que as larvas ao eclodirem se alimentem desse ser vivo de dentro para fora, e outras milhões de aberrações que existem no mundo em todos os níveis. Nada, nunca em hipótese alguma que se diga ou que um próprio deus dissesse se, contrariando minhas certezas, esse tal monstro existisse, poderia me convencer de que há algo de bom em vida se alimentar de vida.

Não acredito também nessa coisa de “evolução espiritual”, na minha opinião, do tempo que faz que a vida existe no planeta, se houvesse mesmo alguma coisa que se pudesse chamar de “evolução espiritual” essa já se teria manifestado de forma inequívoca. E mais, mesmo que houvesse essa tal “evolução espiritual”, um deus que a promovesse ao custo de tanto horror, sendo ele onipotente, somente mereceria o meu mais profundo desprezo.

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A vida pulsa diz você e dizem milhões de pessoas. Acho que seria mais adequado dizer que a morte pulsa, que o medo pulsa, que o sofrimento pulsa, que a dor pulsa... A vida mesma é apenas o pano de fundo necessário a esse apagar de luzes, a essa sequência de ocasos.

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Bem, mas você pergunta se vivo ou existo. Eu respondo que não sei. A frase filosófica mais correta de todas as frases filosóficas que já se disse desde que existe filosofia é aquela do Sócrates: Sei que nada sei. Tudo que sei é que me sinto no mundo, me sinto respirando, vendo, sentindo, amando, convivendo com outras pessoas e participando dessa marcha em direção ao nada. Se isso é viver ou existir não faço a menor idéia. Não sei sequer se estou mesmo aqui em contato com esse mundo e essa realidade ou se tudo isso são meras impressões da minha mente. Não sei nada, absolutamente nada.


Mas sei reconhecer argumento lógico e deus decididamente não é um deles.

1.12.09

EU NÃO ACREDITO EM AGNÓSTICOS

Sou ateia. Me assumo ateia e em meus textos falo muito sobre a lógica do meu ateísmo e sobre os caminhos seguidos pelo meu raciocínio e que me levaram ao ateísmo e me levam sempre a reforçar essa minha não crença. Mas, embora me critiquem tanto por falar desse assunto com freqüência, o que sinto é que, por mais que eu fale contra a existência de deus, os crentes me falaram muito mais (muito mais mesmo!) a favor da existência dele.

Sinto-me uma ateia praticante porque escrevo o que penso e assumo meu ateísmo em qualquer lugar onde estou e sempre que alguém fala algo sobre religião tentando me colocar como cúmplice ou me catequizar; faço isso da mesma forma que aviso que sou vegetariana toda vez que alguém me oferece carne.

Não sinto, de forma nenhuma, embora muitos digam o contrário, que a minha postura é parecida com a dos crentes. Eles parece que querem obrigar o mundo todo a ser crente e, mais que isso, a frequentar a mesma igreja que eles frequentam. Eu argumento contra a existência de deus porque gosto de pensar e expor meus pensamentos e minhas conclusões me ajuda a pensar mais e melhor; e também porque gostaria que as pessoas pensassem sobre o assunto ao invés de apenas balançar a cabeça diante do que o padre ou pastor diz. Eu queria ajudar as pessoas a se tornarem mais livres.

Para mim, adotar o termo agnosticismo é uma forma de se dizer ateu sem assumir a palavra “ateu” que é mais pesada e mais forte e que normalmente pressupõe um tipo de militância a que o agnóstico não quer se engajar.

Pelo seguinte: O agnóstico não acredita no deus dos teístas seja ele qual for e não acredita no "fato" de ser sagrado o livro sagrado dos teístas seja ele qual for; mas o agnóstico admite a possibilidade (pela simples impossibilidade de provar que não existe) da existência de uma mente qualquer, inteligente e interessada, ou não, que pode ter criado o universo e a vida.

Pois bem, eu também admito que não tenho e possivelmente nunca terei conhecimento suficiente para negar com absoluta certeza que um tipo qualquer de mente possa ter criado o universo e a vida, portanto, penso exatamente a mesma coisa e do mesmo modo que os agnósticos, mas eu me defino como ateia, por quê?

Simples (pelo menos pra mim): porque essa mente ou seja lá o que for que pode existir ou não e que pode ou não ter criado o universo, na minha opinião não será, não é e não tem como, racionalmente falando, ser chamada de deus. Teríamos que encontrar outro nome para esse "ser" porque a semelhança dele com deus é a mesma semelhança que pode existir entre um cachorro e uma xícara de chá.

É por isso que nego veementemente a existência de deus e que me defino como ateia.

O agnóstico não acredita no deus bíblico porque, esse, basta ler a bíblia pra ver que não faz nenhum sentido, o mesmo pode-se dizer do deus do talmude (acho que é o mesmo da bíblia) e do deus do alcorão (o mesmo de novo). Nesses o agnóstico não acredita porque a prova de sua não existência está no próprio texto que os teístas querem usar como prova de sua existência, e o agnóstico sabe disso.

O agnóstico admite sim a possibilidade da existência de uma mente criadora justamente porque não há como provar que ela não exista. Usando a lógica, o "primeiro motor" ou o "arquiteto inteligente" chega a fazer sentido, daí o agnóstico fica no meio por não poder acreditar nem duvidar totalmente já que falta comprovação para ambas as hipóteses.

Daí, quando digo que não acredito em agnósticos, ou na existência real de agnóstico, o que estou afirmando é que me sinto exatamente assim: Não nego nem afirmo a existência de uma "mente criadora", ou seja lá o que for porque não há como provar nem um lado nem outro. Viu? Igualzinho o agnóstico.

O que defendo e me faz negar o agnosticismo, é que seja lá o que for essa "mente criadora" na qual não podemos acreditar e da qual não podemos duvidar, não é a mesma coisa que deus. Essa "mente" que pode existir ou não precisa de outro nome. O nome deus decididamente não serve para ela. É essa minha teoria.

Se o agnóstico não acredita nem desacredita é porque admite a hipótese de que possa existir essa "mente", seja ela o que for. O agnóstico não se importa se existe ou não, mas admite que pode existir, da mesma forma que admite que pode não existir, tanto faz. E mais, ele tem certeza de que dificilmente terá algum dia qualquer tipo de prova seja da existência, seja da não existência dessa "mente".

O que o agnóstico não admite mesmo é que exista esse deus terrível que os exploradores da fé usam como ferramenta para subjugar mentes maleáveis.

Na minha visão o agnóstico é tão ateu quanto eu, porque o que penso é exatamente isso. A única diferença, se é que há alguma, é que não concordo em chamar essa "mente", que pode existir ou não, de deus.

Daí que, para mim, exista ou não essa mente, ela não pode se chamar deus, consequentemente, assumo que deus não existe e pronto: Sou ateia. E o agnóstico é ateu também.

26.11.09

MAIS ARGUMENTOS CONTRA DEUS

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Graças a um amigo descobri que tenho sempre uma posição tomada, uma opinião construída, antes de escrever um texto e que crio esse texto para refletir sobre minha opinião, ou melhor: eu o escrevo depois de muito pensar no assunto e para que as pessoas que porventura venham a lê-lo possam refletir sobre essa minha opinião. Acho que é por isso que nunca me ofendo quando me ofendem, quando mandam e-mails ou deixam comentários ofensivos nos meus textos: Quando escrevo é porque já refleti muito sobre aquilo, a ponto de ter segurança e de estar pronta a assumir a responsabilidade pelo que digo.

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Estou, é claro, falando principalmente a respeito dos meus textos que criticam e até ofendem as religiões e deus. Esse amigo me disse que não posso negar deus simplesmente afirmando que ele teria que conhecer o mal para julgá-lo. Mas eu não disse que deus teria que saber o que é o mal para JULGAR o mal, pelo menos não me lembro de tê-lo dito em nenhum dos meus textos “nervosinhos”; eu disse que ele teria que saber o que é o mal para (a partir do nada mais absoluto) CRIAR o mal. Acho que deus não pode ser inteiramente bom porque, se assim fosse, ele não saberia ou não teria desejos de que qualquer criatura sua soubesse ou sentisse na pele, o que é o mal; pelo menos não saberia tão bem a ponto de criá-lo a partir do nada. Ou ainda, caso soubesse, sua bondade o impediria de criar esse mal e, mais ainda, de permitir que ele perdurasse tanto tempo. Posso não precisar saber o que é uma coisa para julgá-la, mas tenho que saber, ou pelo menos fazer uma boa idéia do que seja essa coisa para criá-la, e, pior ainda, a gente normalmente cria apenas aquilo que de alguma forma nos agrada.

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E, antes que alguém o use novamente eu aviso: aquele argumento religioso de que deus não criou o mal não me convence: Se ele criou, a partir do nada, tudo o que existe, e se ele tem, como afirmam os crentes, a tal onisciência, então ele obrigatoriamente criou o mal ao criar o homem ou o tal do anjo que se rebelaria contra ele. Aliás, a onisciência que atribuem a ele é comprovação por si mesma de que ele conhece sim o mal, assim como o fato de tê-lo criado e de permitir que esse mal predomine no mundo comprova que, de alguma forma, ele aprecia o mal. É com base nisso que afirmo sempre que o deus bíblico, “talmudiano” e “alcorânico”, se existisse, teria que, obrigatoriamente, ser um sádico.

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Tenho outra mania com a qual muitas pessoas não concordam: julgo muitas coisas como sendo boas ou ruins e as pessoas não costumam aceitar bem esse meu pensamento maniqueísta; mas é que não tenho outro parâmetro para julgar e, por mais que as pessoas me afirmem o contrário, eu não consigo ver os furacões, tornados e outros fenômenos naturais que causam mortes como outra coisa senão coisas ruins. E por quê? Porque não apenas alguns mas muitos seres humanos, e não apenas seres humanos mas muitos animais morrem em decorrência deles. Tudo bem que uma árvore não é boa ou ruim porque ela não tem uma intenção altruísta e generosa no ato da produção dos seus frutos e na possibilidade de sombra de seus ramos; tudo bem que um furacão não é bom ou ruim porque não é levado por nenhum tipo de decisão consciente e ditada pela maldade pura e simples quando destrói; mas um furacão mata gente, mata bicho, destrói cidades, arrasa casas, ninhos e tocas, por isso, no meu olhar simples de ignorante habitante do planeta, eu julgo o furacão como algo ruim e a árvore como algo bom. Não sei fazer de outro jeito, não sei sentir de outro jeito.

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E toda explicação geológica sobre as placas tectônicas e a pressão interna do planeta não cabe no meu parâmetro de julgamento quando digo que um terremoto é algo ruim justamente porque estamos falando de deus, lembra? O tal deus que é ONIPOTENTE e que criou tudo a partir do nada mais absoluto. Pois se existe como me afirmam os crentes, então ele criou a terra e deu a ela essa condição geológica que a faria ser, ao mesmo tempo que uma mantenedora, uma destruidora de vidas. Daí acho que dá para perceber a que meu raciocínio leva: Não julgo o furacão ou o terremoto ruins, em si e conscientemente; julgo deus ruim - se ele existisse - por ter criado o furacão e o terremoto ou, mais especificamente, por ter criado a terra e dado a ela a condição e a necessidade de que nela tenha furacões e terremotos.

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O que sinto é que as pessoas todas com quem tenho falado ou escrito a respeito desse assunto esquecem sempre de que a idéia de deus não pode ser confrontada com leis físicas já que ele teria, como criador de TUDO, que ter criado também essas leis. As pessoas colocam as leis da física, da química, da biologia, da natureza enfim, como se elas fossem anteriores à existência de deus; mas se elas forem - e disso as pessoas se esquecem - elas se tornam apenas mais um argumento a favor da minha tese de que deus não tem como existir; afinal, se ele é todo poderoso não pode estar sujeito às leis da natureza e, se ele está sujeito a essas leis então ele não é todo poderoso, portanto não é deus, portanto não existe.

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Sem crer em deus todos os fenômenos se aplicam e se definem como fenômenos pura e simplesmente, sem que caiba a eles qualquer tipo de julgamento do que seja bom e mau, embora eu, como indivíduo, julgue como um mal toda e qualquer catástrofe que ceifa vidas; mas se admitirmos a ideia de deus então posso sim julgar os fenômenos como bons ou ruins e, principalmente, julgar com esse critério o criador de tais fenômenos. Se deus existe e criou o furacão, então ele é mau porque o furacão é algo ruim, algo que destrói vidas no sentido literal e no sentido poético do termo. Isso sem esquecer que o mesmo que estou falando de deus por ter criado o furacão posso dizer desse mesmo deus por ter criado qualquer outro fenômeno natural; e o que estou falando sobre fenômenos naturais posso falar sobre toda e qualquer coisa que faça mal a algum ser vivo, desde um vírus até um ser humano. Existe muita coisa ruim no planeta e, se deus existisse, ele seria responsável por cada uma delas.

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Acho também que o fato de que podemos e temos respaldo lógico para ter todo tipo de ideia sobre deus também quer dizer, e a meu ver comprova, que esse deus não existe, pelo menos não existe como é definido pelos crentes e, principalmente, pelos adeptos das três maiores religiões do mundo. Se ele existisse mesmo e se fosse como o definem, o mundo e as pessoas (suas criações) não seriam nem sequer parecidos com o que são e, mais ainda, não haveria como duvidar de sua existência porque ele a teria deixado clara e inequivocamente expressa desde sempre e através de um veículo confiável e não de livros velhos e plenos de ranço.

11.11.09

CORRESPONDÊNCIA

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João não amava Maria; Maria não amava João. Mas tiveram um relacionamento proibido e intenso. Para os padrões de Maria, moça pobre que tomava dois ônibus todos os dias para o trabalho e estudava à noite sonhando terminar o colégio e fazer jornalismo meio que sabendo que não faria porque não teria dinheiro para pagar o que custaria uma faculdade para quem tinha que ajudar no orçamento doméstico de uma família grande, João era rico; era um dos engenheiros da fábrica e morava em uma casa numa rua tranqüila do centro da cidade, com jardim na frente e muito parecida com uma outra onde Maria havia entrado uma única vez na vida há alguns anos apenas como candidata a empregada doméstica. A dona da casa, uma mulher alta e orgulhosa que Maria invejou de imediato, não a aceitou porque era nova demais.

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O primeiro bilhete foi apenas para marcar um encontro, não houve primores literários e João foi conciso e direto como sempre era quando precisava se comunicar por escrito com alguém. Mas nesse encontro Maria levou uma cartinha contendo um poema e João, sem se dar conta, de repente se viu escrevendo cartas de amor intensas e apaixonadas nas quais ele mesmo reconhecia grandes qualidades literárias e que eram destinadas por um João adolescente para uma menina loira de olhos delicados que estudou na sua classe quando ele estava na sexta série.

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Maria escrevia porque era romântica como quase toda jovem é, porque gostava de escrever e via em si, através do reconhecimento dos professores de português que tivera e das amigas que gostavam de ouvir seus poemas, um talento quem sabe promissor. E ela escrevia para um amor que nunca teve, para seu príncipe encantado que a levaria pela mão, sobrevoando o mundo e suas mazelas, em direção a uma vida feliz e de sonho onde caberiam juntos e sem se chocarem, os filhos lindos e perfeitos, a carreira de escritora famosa em constante noite de autógrafo e a casa parecida com a de João onde ela seria aquela senhora alta e orgulhosa.

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Os bilhetes eram trocados dentro de envelopes de trabalho, eram deixados sobre a mesa junto com um comunicado interno falso, eram colocados discretamente na mão um do outro em um esbarrão na hora do almoço e chegavam via algum mensageiro discreto. Sempre davam um jeito de trocarem as cartas, que de bilhetes logo não mais se tratavam, e, para dar certa credibilidade de retidão, João inventou que Maria era neta de uma empregada que tivera durante muitos anos e a quem devia todo respeito. Se as pessoas acreditavam nas mentiras, se os viam juntos, se sabiam dos encontros e das tardes passadas nos motéis nunca tentaram averiguar e como ninguém nunca disse nada sobre saber ou não saber do caso, acreditaram, ou se acomodaram no conforto de fingir acreditar, que ninguém sabia; e esse arranjo não verbal, e essa comodidade durou para sempre um ano inteirinho.

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Uma semana depois de terem comemorado com champanhe no quarto de motel o primeiro ano de troca de cartas e fluídos, João foi transferido para a filial de outro estado e o romance acabou. Ainda trocaram algumas poucas cartas, ela para seu amor de sonho, ele para a menina loira da sexta série; mas um dia ela conheceu um rapaz que a quis como namorada e escreveu a João uma última carta supostamente chorosa de supostamente eternas despedidas e supostamente eternas saudades.

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João nunca guardou uma carta, que a esposa não as encontrasse; rasgava todas assim que terminava de ler, ou reler reconhecendo o progresso dos dons literários de Maria e, no destinatário, o príncipe encantado que não era ele. Maria guardou todas as cartas durante muitos anos em um baú de madeira envernizada colocado no fundo do guarda-roupa; o baú, que ela ganhou de João logo no começo do romance porque disse a ele que tinha medo de que alguém lesse suas cartas, tinha um cadeadinho cuja chave ela escondia no fundo da gaveta de calcinhas.

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Guardou o baú no fundo do guarda-roupa e a chave na gaveta de calcinhas, primeiro por uma precaução infantil, já que o frágil cadeado não foi quebrado e o bauzinho não foi roubado por puro desinteresse que todos na casa tinham pelos seus segredos; depois continuou guardando por hábito até o dia em que, depois da terceira mudança de casa, estava de mau humor e foi remexer suas roupas; encontrou o baú e concluiu que já era hora de dar fim ao passado de uma adolescente que ela não podia mais reconhecer na senhora de meia idade em que se transformara e cujo filho mais velho era, naquele momento, mais velho do que ela fora quando, no arrebatamento dos sonhos, escrevia aquelas cartas.

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Rasgou uma por uma sem relê-las antes de jogar no lixo os pedaços de papel amarelado, separou as roupas que doaria para a Campanha do Agasalho e fechou o guarda-roupa não como quem fecha uma etapa de sua vida porque essa já tinha sido fechada há muitos anos, mas como alguém que simplesmente fecha o guarda-roupa antes de voltar para a cozinha que já estava na hora de preparar o jantar.

O MELHOR SEXO

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Os rapazes eram todos gays, as moças eram todas lésbicas, ela era a única exceção. Todos a tratavam como a “simpatizante” e ela era parte do grupo. Quando uma das meninas brigava com a namorada, vinha desabafar com ela, quando um dos rapazes tinha problemas com o namorado era na voz amiga dela que encontrava consolo e apoio, se chegava alguma menina nova no grupo e olhava para ela com interesse, alguém já avisava: “Ela é hétero.”
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E no grupo tinha gente que fazia poesias, tinha gente que tocava violão e tinha o Luís, que tocava flauta e o Amaro que tocava violino e tinha olhos fundos e ar romântico como um artista do século XIX. Era uma turma unida, alegre e que sempre estava fazendo festas por qualquer motivo que surgisse e fazendo ponto nos bares que os aceitavam e onde viravam a noite jogando sinuca e tomando cerveja. Riam muito, cantavam muito e liam os poemas uns para os outros, ela sempre lia os seus e os mais lindos eram os que havia escrito para a filha que um dia teria. Eram jovens.
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Um dia combinaram um passeio, passariam o feriado na praia, os pais da Luciana tinham um apartamento e todos acampariam lá porque deram sorte de, naquele feriado não ter ninguém da família decidido a passar esses dias naquela praia, e Luciana enfatizava aos gritos: Vamos aproveitar gente que isso é muito raro, a minha família é grande. Combinaram tudo, dormiriam na casa da Márcia e de madrugadinha sairiam com a mochilas nas costas e pegariam o primeiro trem que, naquela época ainda descia a serra.
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Encontraram-se no bar, tomaram algumas cervejas e jogaram algumas partidas de sinuca, comeram sanduíches e muitas batatas fritas e depois foram para a casa da Márcia. Quando chegaram a sala estava arrumada com um sofá cama aberto e alguns colchões no chão, tinha travesseiro e lençol pra todo mundo e o grupo se dividiu porque parte foi dormir no quarto da Márcia onde também tinham sido tomadas as devidas providências para caber mais gente.
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No sofá cama cabiam três pessoas e ela ficou na ponta de fora, brincou que se caísse esmagaria a cabeça do André e da Sônia que estavam no colchão mais próximo do sofá. Numa outra ponta da sala tinha mais um colchão e os sete habitantes temporários daquele dormitório improvisado brincaram e conversaram muito antes que a mãe da Márcia reclamasse do barulho e o silêncio se fizesse sentir. Do lado dela estava a Nena, a mais masculinizada da turma e também a mais simpática, ela já tinha pensado um monte de vezes que se um dia sentisse vontade de transar com uma mulher não seria ruim que essa mulher fosse a Nena, mas isso era só brincadeira porque nunca sentiu vontade de transar com meninas, gostava mesmo de homens.
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Enfim, sem estar preocupada e tendo Nena como uma de suas melhores amigas no grupo, ela já se preparava para dormir quando sentiu a mão da outra menina procurando a sua, virou-se e fez de conta que a via, sorriu baixinho e disse um oi sussurrado antes que fosse beijada por aqueles lábios tão suaves e sentisse o corpo da amiga encostando-se muito ao seu. Não sentiu asco, aversão ou qualquer outro sentimento negativo, pode retribuir o beijo com todo carinho que a amiga estava colocando nos carinhos que fazia em seus cabelos. Deixou-se beijar, deixou-se acariciar e quando sentiu que, sem que nenhuma das duas tirasse a calcinha, Nena encostava seu sexo no dela e esfregava-se suavemente não ficou excitada, mas permitiu porque sentia-se bem em deixar-se quieta se isso proporcionava prazer para a colega. Quando Nena terminou conversaram um pouco abraçadas e Nena perguntou a ela se havia gostado, antes de responder ela abraçou-a mais forte e deu-lhe um beijo carinhoso para que ela não ficasse ofendida ou magoada.
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- Não odiei porque gosto muito de você, mas não fiquei excitada e não aconteceu nada para mim além de muito carinho, acho que é porque, para sexo não tem jeito: eu gosto mesmo é de homem.
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Elas ainda se deram um beijo e ficaram quietas, mas daí a pouco Sônia tocou seu braço e pediu, aos sussurros pra trocarem de lugar. Aceitou e foi para o colchão ao lado de André que parecia adormecido, mas não estava. Logo depois sentiu a mão de André passeando suave pelo seu corpo, ficou muito quieta e deixou que ele explorasse seus seios por vários minutos, depois as mãos desceram e tiraram sua calcinha enquanto passeavam devagar por suas pernas e uma delas se deixava demorar em seu sexo como se estivesse tentando decorar suas formas, sentir cada pelo e cada dobra, ver com o tato algo que desconhecia. Aquela bolinação excitou-a e a mão continuava, molhada e quente, explorando-a, e continuou ainda um pouco mais depois que ela, em silêncio, teve o primeiro orgasmo.
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Depois ele simplesmente colocou-se entre suas pernas e penetrou-a, não pediu carinho, não pediu que ela sentisse com a mão ou com a boca, seu tamanho, sua forma, seu intumescimento. Penetrou-a e ficou se movimentando com desconhecida suavidade num vai e vem cadenciado e sem pressa, e ela teve um segundo orgasmo sem que ele aumentasse ou diminuísse a pressão, sem que aumentasse ou diminuísse seu ritmo lento; e ela, assim, foi tendo o terceiro, o quarto, o quinto orgasmo, e tendo outros e perdendo a conta a ponto de se tornar cansada do prazer que sentia; e quando estava prestes a quebrar o silêncio daquela dança sem música pedindo-lhe que parasse porque já não agüentava mais, ele acelerou levemente em dois únicos movimentos e suspirou mais fundo antes de mergulhar a cabeça nos cabelos dela. ´
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Daí a poucos minutos ele saiu de dentro dela e ficou quieto estendido do seu lado e segurando sua mão, ela precisou segurar-se para que o riso não saísse alto como uma gargalhada e não acordasse ou perturbasse as outras pessoas da casa. Em um riso abafado e divertido ela pensou: “Nossa, será que alguém vai acreditar quando eu disser que o melhor sexo da minha vida foi o que tive com um gay?”

10.11.09

INCOMPATIBILIDADE

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E ela se perguntava todo dia, e mais ainda logo depois que se separava dele na volta de um dos encontros que tinham e no qual ele a levava a um motel onde ela o via pelado, com sua barriga grande, suas rugas denunciadoras, suas costas peludas e seu pinto pequeno: O que é que eu estou fazendo com esse cara? E qual era a resposta? Nenhuma, não havia resposta e não havia como compreender isso. Ela era alta, medianamente bonita, jovem, esguia e muito simpática, era inteligente, curiosa, capaz de atrair rapazes jovens, bonitos e sexualmente atraentes e, no entanto e apesar de todos os inconvenientes, estava saindo com esse senhor totalmente desinteressante e em quem não conseguia ver nada de exatamente atraente.

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Tudo bem que ele era divertido, mas ela conhecia pelo menos três caras tão divertidos quanto; ele era inteligente, mas ela conhecia pelo menos dois tão ou mais inteligentes ainda; ele tinha uma situação financeira razoável, mas ela não se importava nem um pouco com isso porque ela própria tinha situação e independência financeira bem acima da média das moças da sua idade; ele tinha bom gosto, mas homens de bom gosto não são coisas tão raras de se encontrar se é isso que você está procurando. Quem nessa história toda estava se saindo uma pessoa de péssimo gosto era ela e ela só. Chegava a sentir raiva de si mesma quando tentava descobrir porque continuava a sair com ele e não conseguia nenhuma resposta, nenhuma razão que justificasse essa escolha. Aliás, ela não percebia nisso nenhuma escolha, nunca “escolheu” sair com ele, simplesmente saiu. E além e acima de todos os inconvenientes, o desgraçado do homem era casado! Dá pra encontrar coisa pior?

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E ela se respondia: Não! E se respondia novamente e se respondia sempre: Não! No entanto era só ele ligar e ela se vestia, se perfumava e saía para encontrar-se com ele e voltar algumas horas depois xingando a pessoa que era e brigando sem tréguas consigo mesma. E isso já levava meses! Algumas poucas pessoas já estavam sabendo e era visível que, mesmo não dizendo nada, pensavam exatamente como ela, a diferença é que as pessoas pensavam também que estivesse cega e apaixonada, que estivesse iludida e esperando que ele deixasse a esposa para ficar com ela. Nossa! A hipótese de essa idéia passar pela cabeça dele a apavorava! E se ele de repente se dissesse apaixonado, ameaçasse divorciar-se e pedisse a ela que fosse viver com ele? Que pavor! Se acontecer isso eu me mato!

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Mas não fazia nada a não ser pensar, perguntar, ofender a si própria e continuar a sair com ele para uma sessão de sexo morno em motéis tão mornos quanto; ah! Como se odiava! E ele não percebia nada, e quem os via juntos não percebia nada porque quando estava do lado dele ela parecia feliz, quando o beijava, beijava com fome, quando o olhava, olhava com olhos de amor, quando falava com ele falava como quem fala a alguém especial. Todo o seu comportamento, do momento em que o encontrava ao momento em que se despedia dele com um beijo intenso, era o comportamento inconfundível de uma mulher apaixonada, a raiva só vinha quando estava sozinha. Nada fazia sentido.

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Era domingo e aos domingos eles não se viam porque domingo era o dia que ele passava com a esposa e os dois filhos, era o dia do almoço em família, do churrasco na casa do cunhado, de levar as crianças ao zoológico. Nesse dia nunca se viam e ela gostava mais dos domingos porque era o dia em que agia e se sentia quase como uma pessoa normal. Visitava amigos, almoçava com os pais, via televisão na sala, ia ao cinema, só o que não conseguia fazer era sair com outros homens, mas procurava não pensar nisso e esforçava-se mais do que qualquer outro dia da semana para não pensar nele. Estava na sala com o pai, a mãe, a irmã mais velha e o cunhado que ainda deveria estar cheirando a peixe porque passou a manhã toda na cozinha preparando o delicioso pintado na manteiga com batatas coradas que almoçaram e, de repente, sem pensar e sem dizer nada, nem para si mesma, levantou-se do sofá e foi ao quarto se vestir, se perfumar e saiu dando tchau e dizendo que estava indo na casa da Camila.

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Não ia à casa da Camila, a Camila nem sequer estava em casa e ela não tinha feito nenhum plano de sair naquele dia, o que fez foi pegar o carro e dirigir com toda cautela e segurança durante quase uma hora para chegar a uma praça da cidade vizinha onde nunca tinha parado antes. Estacionou, saiu do carro e dirigiu-se com toda a segurança para o centro da praça onde ele a esperava. Nunca tinham marcado encontro nessa praça, nunca tinham sequer falado a respeito dessa praça que ela conhecia só de passar por ela sempre que ia de uma cidade a outra. Se perguntassem o que pensara e o que sentira que a fizera estar ali naquele momento, não saberia dizer, apenas tinha vindo e não foi surpresa que ele a estivesse esperando, pelo contrário, foi por isso que veio e ele sabia. Não tinham falado nada, não tinham marcado nada, mas sem que ela soubesse como ou por que, ele viera encontrá-la na praça e ela estava lá.

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Beijaram-se, foram até o carro dele, ele contou que a esposa resolvera ir apenas com as crianças até a casa da irmã dela que estava adoentada, então ele tinha a tarde livre e resolveu que eles deveriam se encontrar, pensou na praça e foi até lá chamando-a mentalmente. Foi só esperar um pouco e ela chegou. Falaram do assunto entre risos, com bom humor e sem estranheza, como se o que aconteceu não fosse algo incomum, como se não fosse mais digno de nota do que se o encontro tivesse sido combinado com antecedência de dois ou três dias. Foram a um motel e algumas horas depois ela entrava em seu quarto batendo a porta com expressão aborrecida e se perguntando: O que é que eu estou fazendo com esse cara?

9.11.09



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Foram sete meses morando em Vigo e usando quase que todos os finais de semana e todos os feriados para passear por Espanha e Portugal. Muitas vezes pegamos as conservadas e muito bem iluminadas rodovias que nos levam às várias cidades de Portugal e da Espanha; estivemos em Conimbriga, uma cidade romana próxima de Coimbra; estivemos em Santa Maria da Feira, uma cidade que tem um castelo lindo que não pudemos ver por dentro porque estava em reforma e só reabriria quando já estivéssemos de volta no Brasil e que tinha também uma feira, para fazer jus ao nome que tinha; estivemos em duas cidades com o mesmo nome, Montemor o Velho e Montemor o Novo, em Montemor o Velho tem um castelo com muralhas maravilhosas e quando a gente desceu para a cidade para o almoço encontramos um restaurante super gostoso que tinha um prato chamado arroz com feijão que não tem muito a ver com o nosso arroz com feijão porque os dois estão juntos formando uma espécie de sopa muito gostosa, em Montemor o novo só tinha mesmo ruínas do castelo, mas como gostamos de ver ruínas, não sentimos ter perdido a viagem, pelo contrário. As duas cidades valeram o passeio.
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Estivemos em uma cidade linda e toda murada, com casas pintadas de branco e um castelo muito lindo que era um hotel, essa cidade se chama Óbidos e lá dormimos em uma das casas brancas onde alguém morava e que, talvez por estar viajando deixou as chaves com o dono de um bar que alugou o quarto para nós; estivemos em outra cidade linda e gostosa de visitar chamada Leiria, onde tem um castelo lindo no alto e uma praça com uma fonte esguichando sobre uma estátua de Adão e Lilith e uma estátua de Camões em outra praça diante da qual tirei uma fotografia; fomos também à cidade de Tomar, linda com seu castelo templário por cujos pátios passeamos com vagar e fomos a uma outra cidade chamada Pombal onde havia um castelo e onde comemos um jantar delicioso e diferente no qual a carne vinha em um espeto dependurado sobre o prato, preso por um gancho; numa dessas muitas viagens de fim de semana passamos pelo mosteiro de Alcobaça onde vimos os túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro I (não o D. Pedro I do Brasil, este lá é D. Pedro IV), um de cada lado do altar.
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Nos tornamos o que denominamos de “caçadores de castelos”: fomos uma vez para os lados de Leão e Castela e passamos todo o fim de semana indo de um castelo a outro dos que víamos pelo guia, um dos mais bonitos foi o Castelo do Coca, todo construído com tijolos avermelhados de mais de um tom e cujas diferentes tonalidades formam faixas como se ele fosse pintado. O castelo é lindo, bem grande e a gente pode vê-lo todinho por dentro e por fora e, inclusive subir no alto dele. Foi um dos castelos espanhois de que mais gostei.
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Outra cidade que visitamos e que vale muito a visita é O Porto, antiga capital de Portugal. A cidade é muito linda, tem uma ponte altíssima, ruas gostosas de passear, uma praça enorme, mais de uma igreja azulejada, todo um lado do rio pra se provar os famosos vinhos do Porto e um castelinho pequeno e muito charmoso chamado Castelo do Queijo onde funciona um museu do exército. . Nos deixamos ficar muitos fins de semana em Vigo e fomos almoçar ou jantar mais de uma vez em Baiona ou na Playa América, onde está o hotel em que ficamos nos primeiros dias que passei na Espanha. Quando estávamos chegando ao dia de nossa despedida voltei a Santiago de Compostela, comprei as cruzes para trazer para meu filho e passei muitos dias andando pelas ruas da cidade, caminhando por ruas já muitas vezes caminhadas, olhando-as todas com meus olhares de despedida. Fui novamente e novamente às cafeterias onde tinha encontrado os melhores “platos combinados” e aos restaurantes chineses que são gostosos, aconchegantes e razoavelmente baratos. Voltei mais vezes aos arredores do porto de Vigo, caminhei pelas ruas do “casco Velho”, mas continuei até o fim sem coragem para comer, com uma boa espirrada de limão, os tais mariscos crus recém-pescados.
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E quando chegou o dia nos despedimos das pessoas que conhecemos lá, pegamos o avião e voltamos para o Brasil com a certeza de que tínhamos passado os melhores meses das nossas vidas. Que me perdoem os muito patriotas, mas nesse tempo todo não senti saudades do Brasil e não senti nenhuma vontade irresistível de comer arroz e feijão, acho que sou desapegada e embora ache o Brasil lindo, como já disse antes, acho lindos os outros países também. E achei Espanha e Portugal maravilhosos!

MINHA VIAGEM À ESPANHA (parte oito)


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E um dia tivemos que voltar a Madri para deixar nosso filho no aeroporto de onde ele partiria de volta ao Brasil depois de passar um lindo mês inteirinho com a gente. Naquele dia meu coração ficou tão apertado que parecia ter tomado o tamanho de uma azeitona e, depois de vê-lo desaparecer pelo portão de embarque as lágrimas seguradas com tanta valentia se escaparam todas e ganhei o abraço e o “Sua bobona” dito pelo meu marido com voz embargada por aquele nó que nele não chegou a virar lágrimas, e eu chorei por nós dois.

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Mas horas depois falamos com ele por telefone e ele estava novamente em terra, em casa junto da minha família que o recebeu saudosa e estava feliz. Meu peito se foi aliviando e pudemos passar o dia seguinte em Madri. Era domingo e a entrada no Museu do Prado era gratuita, fomos até lá e ficamos na fila durante uns dez minutos pensando e conversando sobre o que era mais lógico, racional e gostoso de fazer. O dia estava lindo, a temperatura agradavelmente fria, a cidade toda convidativa e a fila enorme, mas estávamos no Museu do Prado, um dos mais famosos do mundo, perderíamos a oportunidade de entrar? Sim, perderíamos! Saímos da fila aliviados e passamos o dia todo caminhando pela cidade e curtindo suas ruas, suas belezas, seu charme. À noite voltamos para Vigo.

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Num outro fim de semana fomos a Segóvia. Nossa, adoramos Segóvia! O castelo que tem lá é lindo! O Nêgo gostou muito da visita ao interior do castelo mas ficou, diante do aqueduto, parecendo uma criancinha que ganhou um brinquedo novo; ele tem fascínio pela história dos romanos e aquele aqueduto é fantástico, a inclinação quase imperceptível, a altura imensa, a montanha de pedra e de tecnologia necessária para construir aquilo, a idade dele! Segóvia foi um acampamento militar dos romanos, por isso não tem o que o Nêgo chama brincando de “Kit Romano”, ou seja, o teatro, a arena, o fórum, as termas; aquele conjunto que se encontra sem grandes variações em todas as antigas cidades que foram possessão romana. Segóvia não era uma cidade, era um acampamento militar...

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Outro fim de semana fomos a Ávila e achamos a cidade muito legal embora tenhamos nos decepcionado um pouquinho com o fato de que não se pode caminhar pelas muralhas pelo alto e em toda a sua extensão circundando toda a cidade como fizemos em Lugo, mas as muralhas são lindas, muito altas e parte delas é “caminhável”, a cidade em si é muito passeável e tem também, como todas as cidades medievais importantes, sua imponente e imensa catedral. Mas tive uma outra pequena decepção quanto a Ávila: Falava-se muito nos famosos “pasteis de Santa Clara” e eu fiz questão de comprar uma caixinha deles e levar comigo para Vigo, são docinhos redondinhos e bem bonitos arrumados em forminhas charmosas, mas o sabor não me impressionou muito não. Achei a respeito dos tais pasteis que a fama é muito maior do que o merecimento. Enfim, é provar, afinal, gosto é gosto e cada um tem o seu...

6.11.09

MINIDICIONÁRIO DE RELACIONAMENTOS HUMANOS

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Alegria: É algo que a gente sente porque esquece por momentos dos motivos que temos para não senti-la. E os motivos são muitos: pessoas morrem de fome; pessoas morrem de sede; pessoas morrem de frio. Crianças são usadas como escravas, inclusive sexuais, por adultos sem escrúpulos; existem adultos sem escrúpulos e eles são muitos...

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Bondade: Tem dois irmãos dos quais é muito próxima e com os quais, se olharmos bem, ela se parece muito. Os irmãos são a Vaidade e o Orgulho. A Bondade é tão ligada a esses dois irmãos que, se os tirarmos de perto, ela provavelmente deixará de existir.

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Caridade: É quase um sinônimo de Bondade na medida em que existem os sinônimos. A diferença é que a Caridade é mais prática, mais concreta. Consiste em dar aos outros aquilo de que não precisamos e que, na maioria dos casos, se não encontrarmos quem queira, jogaremos fora.

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Destino: É o que usamos para nos eximir de praticar alguma ação efetiva que pode nos tirar de nosso conforto. “Se milhões morrem de fome enquanto eu preciso fazer regime não é culpa minha, é apenas porque quis o destino que eu nascesse em uma situação melhor do que esses milhões de pessoas”

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Essencial: É tudo aquilo que eu preciso ter para ser feliz. Mas se milhões de pessoas não podem ter o que é essencial para mim, tudo bem, a lista de prioridade das pessoas é diferente e isso não vai atrapalhar ou embaçar a minha felicidade. Afinal, se para mim é essencial ter o carro do ano e se, em situações financeiras mais críticas, eu posso sobreviver sem o carro do ano uma ou duas semanas por que outras pessoas não podem também abrir mão por algum tempo do que é essencial para elas? Acontece que nem todo mundo tem como prioridade possuir o carro do ano, tem gente que precisa apenas comer...

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Falar: É um verbo que não está obrigatoriamente ligado ao verbo ouvir. Muitas pessoas falam e falam o tempo todo sobre seus problemas, seus achaques, suas mazelas, suas revoltas, suas crenças mas não ouvem uma única palavra do seu interlocutor, principalmente se este tiver crenças diferentes ou se tiver a audácia de tentar falar também de seus problemas, seus achaques e suas mazelas. Cedo! É preciso que a gente se afaste de pessoas que gostam de conversar sobre coisas negativas!

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Galinha: É a mulher que se comporta com a mesma liberdade sexual que é normal para os homens, isso, é claro, se essa mulher não for minha filha, minha irmã, minha mãe ou qualquer outra mulher do meu círculo familiar. Galinha pode ser também a mulher que o homem que eu queria conquistar escolheu para namorar ou casar, nesse caso o comportamento sexual dela não importa.

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Honra: É uma coisa muito importante e que a gente deve ter caso não tenha dinheiro nem posição social ou política de destaque. No caso de termos dinheiro a necessidade de honra será inversamente proporcional ao número de zeros em nossa conta bancária. No caso de termos posição social a necessidade de honra também será inversamente proporcional a essa posição, só muda um pouco no caso da posição política, aí o importante não é ter honra, é parecer que tem ou, melhor ainda, é que ninguém fique sabendo que você não a tem.

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Irmão: É alguém que foi criado comigo e que, teoricamente, tem os mesmos direitos que eu, mas só teoricamente porque na prática eu sempre tenho direito a mais um pouco. Irmão é também o outro: o outro ser humano, a outra pessoa, o outro membro do grupo, ou seja, aquele a quem eu digo amar como a mim mesmo mas que comumente, no trabalho e na vida, faço de escada para minha ascensão social.

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Jamais: É o tempo em que, sem dizer para ninguém nem sequer para nós mesmos, sabemos que acontecerão muitas das coisas que formam nossas esperanças e metas para o futuro, seja no aspecto pessoal ou no coletivo. Sabemos, por exemplo, que os homens jamais serão irmãos uns dos outros; sabemos que jamais deixaremos de separar a humanidade em nós os melhores, e eles os inferiores. Essa separação é feita em todos os aspectos da vida: aspectos físicos como espessura do tecido adiposo, cor da pele ou do cabelo; local e condição de nascimento, como ter nascido em um país, cidade ou até hemisfério do globo diferente, ou ser pobre; tendências como orientação sexual ou ser de esquerda ou de direita; crenças religiosas ou políticas; opções por times de futebol ou por esporte predileto e características como ser tímido ou extrovertido. Jamais deixaremos de ser inimigos uns dos outros.

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Liberdade: Uma das maiores mentiras que contamos a nós mesmos. Todos queremos ser livres e por saber que a liberdade é totalmente impossível, gostamos de dizer que somos livres sem nos dar tempo de pensar mais profundamente no significado de ser livre. Estamos presos a nossa cultura, a nossa família, a nosso corpo a nosso planeta a nossas reduzidas opções de escolha, a nossas crenças, a nossas convenções sociais. E ironicamente nos dizemos livres!

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Morte: É algo que nos assusta tanto que criamos subterfúgios para, pelo menos enquanto estamos vivos, escapar dela. Muitas culturas têm a crença em uma vida após a morte, outras acreditam em reencarnação e tem aquelas que acreditam em retorno dos mortos aos seus corpos originais. Aí eu fico imaginando uma pessoa que viveu há mais de mil anos e que vai retornar e precisa de seu corpo, mas as moléculas que o formavam já estão diluídas em outros corpos, animados e inanimados, como será feita essa “cata”? Suponha que uma parte do que foi a pessoa está agora formando o corpo de uma criança, como se resolverá esse problema? Mas ninguém quer pensar nessas coisas, o importante é fugir da morte, fazer de conta que a vida não é um suspiro entre duas eternidades.

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Natureza: Uma coisa que a gente costuma colocar como exemplo máximo de beleza mas que tem morte, tortura, parasitismo, exploração; que a gente costuma colocar como sinônimo de toda perfeição mas que tem má formação, defeitos congênitos, distúrbios de crescimento. A natureza é algo que nós podemos afirmar que nos comove ao extremo com suas belezas mas que, se olharmos mais de perto, pode nos arrepiar e apavorar com seu horrores.

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Oportunidade: É aquilo que a gente costuma aproveitar para se aproveitar das pessoas. Chamamos de oportunidade a ocasião, o ensejo que se nos apresenta de fazermos ou usarmos algo de forma a que esse algo nos traga algum tipo de vantagem, o problema é que em geral esse algo e essa vantagem é uma coisa que prejudica alguém, que faz mal a alguém ou que usa alguém como meio, como degrau, como objeto a ser explorado. Não nos importamos na maioria das vezes, porque é tudo para um bem maior: o nosso.

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Paz: Uma utopia que às vezes a gente faz de conta que tem. O ser humano como indivíduo não tem paz porque está sempre com medo: medo de deus, medo da morte, medo do outro ser humano. Como grupo não temos paz porque estamos sempre em posição de defesa ou de ataque, geralmente dos dois, contra o grupo vizinho. Para nos defendermos, e atacarmos, precisamos de exércitos, estratégias, segredos e, fundamentalmente, esconder o medo e gritar mais alto, seja esse grito no sentido real ou no sentido figurado. Jamais houve um período de paz no mundo, jamais haverá, mas muitos de nós continuamos afirmando que nossa vida é totalmente dedicada a alcançar a paz, e muitos de nós estamos sendo sinceros.

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Querer: É a vontade de ter algo, de que algo aconteça. O querer é que nos faz sentir vivos, queremos sempre alguma coisa, em geral muitas coisas. Sabemos que todas as pessoas do planeta, assim como nós, exatamente como nós, também querem coisas, mas nosso egoísmo não nos permite colocar o querer do outro à frente do nosso. O que importa se tudo que o outro quer nesse momento é ter um teto sobre sua cabeça se eu quero comprar aquela mansão de vinte e cinco quartos? Que importa se tudo que o outro quer é fazer três refeições por dia se eu quero dar um jantar para cento e oitenta pessoas fúteis, vazias e alienadas como eu e servir como sobremesa quindins em forminhas folhadas a ouro?

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Razão: É algo de cuja falta ninguém costuma reclamar. Todos nós nos sentimos e nos vemos como pessoas extremamente racionais até mesmo quando fazemos coisas totalmente insensatas ou acreditamos nos maiores disparates. E todos temos razão sempre que expressamos nossa opinião, temos razão quanto a nossas escolhas e preferências, temos razão quanto às nossas crenças. Tenho razão em torcer para esse time porque ele é o melhor; tenho razão em pertencer a essa religião porque ela é a única verdadeira; tenho razão em amar meu país porque ele é o melhor país do mundo; tenho razão. Nunca nos damos conta de que é gente demais tendo razão para que alguém efetivamente a tenha.

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Sentido: é algo de que, em geral as pessoas, as coisas e a vida são totalmente desprovidas. As pessoas não fazem sentido porque se julgam boas no mesmo momento em que se aplicam em pisar e repisar outras pessoas, em matar por esporte, em condenar seres alados à prisão perpétua, em achar que o outro merece, deve e será torturado por toda a eternidade, em achar que conhece o outro a ponto de decretar sua derrota, sua inferioridade, sua miséria. As coisas não fazem sentido porque tomam diversos aspectos, definições, utilidades e características ao bel prazer ou à revelia das pessoas e ao mesmo tempo com respeito a diferentes pessoas: as coisas são muito complexas! A vida não faz sentido, nenhum sentido, porque não há objetivo, fim, utilidade que possa ser comprovada indiscutivelmente para nenhuma vida em nenhum momento, vista de nenhuma perspectiva. E dizem que se deus não existisse a vida não teria sentido...

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Terra: É o planeta azul que a gente gosta de chamar de casa mas que é prisão, que a gente gosta de dizer que está em perigo quando nós é que estamos, que a gente gosta de dizer que pede socorro quando a nossa existência é que clama. Nos achamos tão importantes que chegamos a pensar que a terra é um organismo que sente a nossa presença e precisa de nós, pobres seres oniprepotentes que somos! Quando mais pessimistas, vemos a nós mesmos como algo que incomoda a terra e causa mal a ela. O que não podemos pensar e o que não suportamos acreditar é na muito possível verdade de que a terra é um organismo que ignora, no sentido mais fundo e dolorido da palavra, a nossa existência. Chegamos e partiremos sem que o planeta tome conhecimento de nós para o bem ou para o mal, essa é a possibilidade que não podemos aceitar.

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Universo: É a nossa casca de noz, o mundinho que vemos sem vermos nada à frente do nosso próprio nariz. Dizemos, estudamos, sabemos que o universo é imenso, no entanto acreditamos que todo ele foi criado apenas para nós, com o único objetivo de nos conter. Nossa prepotência é tão grande que quase todos nós freqüentamos lugares diversos, ouvimos discursos em línguas diversas e lemos livros “sagrados” diversos que nos contam como foi o universo criado em nosso nome e para nos servir de casa. Não nos damos conta de que nossa pretensão, nosso convencimento, nossa megalomania é tão grande que se pudesse ser medida ultrapassaria em muito o tamanho do universo, por maior que ele seja e mesmo que ele seja infinito.

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Vida: É algo que a gente diz que todos devemos valorizar mas que nós só valorizamos mesmo a nossa e, no máximo, algumas poucas que estão próximas a nós. Devemos valorizar a vida mas vamos matar o inimigo; devemos valorizar a vida mas vamos brincar de matar o animal; devemos valorizar a vida mas vamos contar as mortes como estatística e afirmar que a chacina não foi tão grande assim.

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Reflexão final - Meu dicionário termina aqui, poderia ter muitas palavras mais mas estou cansada de olhar para mim mesma e ver quão horrível sou, deixa ir até lá fora ver se encontro uma flor.

4.11.09

COMENTÁRIO SOBRE UM TEXTO MEU QUE NEGA A EXISTÊNCIA DE DEUS E MINHA RESPOSTA A ELE

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"DEUS nosso senhor criou as coisas mais maravilhosas neste patamar aki q estamos e em outro q é a gloria (o céu) tudo começou , primeiramnete criou os anjos para exaltalo dar graças glorias a ele entre esses anjo DEUS criou um anjo diferente dos outros esse reluzia luz e esse anjo era LUCIFER este anjo foi criado para encinar os outros anjo cançoes musicaspara entoar ao SANTO DEUS em seu louvor, mais um dia esse anjo LUCIFER resolveu vir a terra e ai começou o plano dele em tentar se apoçar da magestade ou do trone de DEUS, ele keria fazer seu reino mais alto do q o reino do SENHOR, E deus COMO SABE DE TODAS AS COISAS ele é oniciente e onipresente ja sentiu isto no coraçao de LUCIFER, entao o DIABO foi ate a presença de DEUS e desafiou, DEUS entao para nao destruir LUCIFER ALI MESMO em sua presença criou o anjo MIGUEL Q ALMEIJA UMA ESPADA DE FOGO, E ouve grande batalha no céu os anjos de DEUS contra os anjos do mal, MIGUEM RECEM CRIADO DE DEUS VENCEU SATANAS e satanas caiu nesta terra como um relampago na crosta da terra onde hj os teologos dizem q isso foi um asteroide, mais nada disso foi satanas q caiu na terra com um impacto extremo, ai começou a horigem do mal o anjo de DEUS q se rebelou contra DEUS E NISSO DEUS FEZ A CRIATURA MAIS PERFEITA PARA LOUVALO E PARA EXALTALO O SER HUMANO, MAIS O DIABO VEIO PARA MATAR ROUBAR E DESTRUIR SABE PQ?? ELE SERA DESTRUIDO E ELE QR LEVAR O MAXIMO DE PESSOAS PARA A MORTE JUNTO COM ELE E VC ESTA SENDO UMA DELAS,ele esta agindo em sua vida"
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Minha Resposta:
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Ponto 1: Um deus assim tão maravilhoso seria bom e humilde o suficiente para não precisar criar seres com o único propósito de exaltá-lo. Que megalomania a desse deus que precisa de todo um grupo de seres unicamente para passar o tempo todo louvando-o!? Não há glória nenhuma em um ser tão cheio de si como esse, muito pelo contrário! Credo! Tô fora! Nunca gostei de gente convencida e qualquer pessoa por mais convencida que seja é fichinha perto desse deus todo besta!

Ponto 2: Se ele é onisciente então ele sabia que Lúcifer o trairia ANTES de criar Lúcifer. Então por que o criou? Será que a necessidade de puxa-saquismo que ele tem é maior do que a onisciência? Ou será que ele só é onisciente com tempo determinado, tipo: Ficou sabendo que Lúcifer o trairia só depois de criá-lo, antes não sabia de nada? Nos dois casos o poder dele meio que tá comprometido! Agora, no caso de ele ser mesmo totalmente onisciente, significa, logicamente, que ele sabia Lúcifer o trairia e que, em conseqüência disso o mal seria criado se ele criasse Lúcifer e mesmo assim ele criou Lúcifer! Então, logicamente, ele Criou o mal, por tabela. Por que isso é tão difícil de entender para os crentes?

3.11.09

II - MINHA VIAGEM DE FIM DE ANO (Espanha e Portugal)


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Acabei por ir a Mérida duas vezes ao invés de uma só. A primeira vez foi nessa viagem de fim de ano que fizemos com o Daniel, mas quando chegamos lá estava tudo fechado porque era dia primeiro de janeiro, então o que fizemos foi passear pelas ruas semi-desertas e ver o que dava pra ser visto sem pagar ingresso. Mas, como eu já disse, somos fascinados por história e não nos contentaríamos com isso. Na primeira oportunidade voltamos e passamos o fim de semana inteiro na cidade, compramos o pacote de ingressos, que custa mais barato do que comprar cada um no seu lugar e vem em forma de um “carnezinho” que dá direito a entrar em todos os lugares (A casa romana, o anfiteatro, o museu, o bairro...) e passamos os dois dias inteiros mergulhados na história. Seguimos alguns grupos de turistas em alguns dos lugares para ouvir o que diziam os guias (um “parasitismo” bem humorado que é também uma boa maneira de aprender mais sobre o lugar que estamos visitando). Só então ficamos satisfeitos e voltamos felizes para Vigo. Um detalhe: Na visita ao trecho do bairro romano todos podiam pisar naquele piso de pequenas pedrinhas coloridas que formavam figuras; eu me senti até mal de estar pisando ali, achei que não deveria ser permitido e até bati uma foto de meus pés naquele piso tão trabalhado e tão antigo.

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Voltamos depois a Lisboa e passeamos com o Daniel pela cidade, no Castelo de São Jorge e andamos um monte porque eu estava procurando a estátua do Adamastor e a do Eça de Queirós, achei as duas! Dessa vez conseguimos ir ao museu de cera e fotografamos tudo. No final das contas a foto que tirei ao lado do Fernando Pessoa lá na frente da lanchonete “A Brasileira” não saiu, ou melhor, foi perdida no enrolar do filme (lembrem que estávamos em 1999 para 2000 e nossa máquina fotográfica ainda era de filme) e acabei ficando apenas com a foto que tirei ao lado do Pessoa lá no museu de cera. Ah, uma curiosidade: Quando fui à lanchonete onde fica a estátua do Pessoa sentado à mesa ela ainda se chamava “A Brasileira”, como no tempo em que o próprio Fernando pessoa ficava lá tomando seu vinhozinho; em 2005 meu filho voltou lá e o lugar tinha mudado de nome.

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Depois disso fomos a Sintra, que é muito perto de Lisboa e onde tem dois palácios para visitar e mais as ruínas do castelo dos mouros, esse castelo está bem menos conservado do que o de São Jorge mas é mais legal ainda de visitar porque é mais verdadeiro, o fato de não ter sido restaurado torna tudo mais interessante. Os palácios são visitas que valem a pena: Tem o Palácio da Pena, que é enorme, colorido e lindo por dentro e por fora. Ele fica no alto e no meio do verde, caminhar pelos arredores dele e ver a cidade La embaixo é um prazer. E do Palácio da Pena dá pra ver o Palácio Nacional com suas duas imensas chaminés brancas, esse palácio não é tão bonito quanto o Palácio da Pena, não impressiona tanto pela beleza e, como fica embaixo, não tem aquela vista maravilhosa, mas, mesmo assim, a visita vale a pena porque, de certa forma há entre os dois a mesma diferença que há entre o Castelo de São Jorge e a Muralha do Castelo dos Mouros; o segundo não é tão bonito, mas parece mais “de verdade”.

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Além dessas atrações, Sintra é um lugar que vale a visita pelo próprio lugar, a cidade é toda bonita e tem muito verde, muitas ruas gostosas de andar e pousadas e hoteis gostosos e simpáticos, ficamos em uma pousada muito simples e muito linda com atendimento impecável e educação a toda prova. Acho que posso dizer que Sintra é como uma Campos do Jordão de Portugal, um pouco menor talvez.

1.11.09

I - MINHA VIAGEM DE FIM DE ANO (Espanha e Portugal)


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Em nossa próxima viagens quem escolheu os lugares a visitar foi o Daniel. Chegou a época do Natal e tivemos muitos dias para passear por Espanha e Portugal. O Daniel, olhando o livro de turismo, foi escolhendo os lugares e lá fomos nós. Um dos primeiros que visitamos foi a cidade de Bragança, onde tem uma cidadela cercada por uma bela muralha e, no centro da cidadela, um castelo bastante bem conservado onde funciona um museu do exército. Não sou muito fã, pra não dizer que não gosto mesmo, de coisas ligadas aos militares, sou pacifista demais pra ficar me babando por fardas e armas, mas meus “meninos” gostaram de ver as armas e uniformes antigos expostos no museu. Fizemos também uma caminhada por toda a volta da muralha e foi muito bom porque tem pontos onde se pode subir e ver a paisagem de lá de cima, tem umas portas estranhas que dão para “saletas” escuras e meio assustadoras. O Daniel ficou todo serelepe subindo todas as escadas e entrando por todas as portas e “buracos” que a gente via. As casas todas brancas deixam o lugar ainda mais bonito.
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Outro lugar que visitamos foi a cidade de Guimarães, a cidade de onde D. Afonso Henriques saiu para as brigas que teve que brigar a fim de tornar Portugal um país. Lá tem a uma parede de muralha com letras grandes onde se lê: “E aqui nasceu Portugal”. Tem a muralha e o castelo onde viveu D. Afonso I, tem, é claro, uma estátua dele e tem um palácio imponente de um religioso importante. Fora esses pontos, que são muito legais de ver, a cidade é bem moderna e tem até um shopping. Nós passamos a noite lá e ficamos em um hotel confortável e gostoso que me deixou a lembrança do estacionamento cheio de pedrinhas soltas que faziam um barulho gostoso quando a gente andava.
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Voltamos a Évora e a Évora Monte, fomos novamente à Capela dos Ossos e o Daniel, todo atraído por coisas tétricas, adorou a visita. Lá ouvimos falar que existem outras capelas dos ossos e seguimos a indicação para ver uma outra em uma cidade lá perto, essa fica dentro de uma espécie de palácio. Não me interessei muito por essas pilhas de caveiras, eu que nem vou em velório nem entro em cemitérios, apenas acompanhei os rapazes e nem sequer me lembro do nome da cidade da segunda capela... sorry!