Li todo e atentamente
um texto enviado por um amigo e que é um daqueles textos que tentam casar
ciência com religião, pelo menos foi isso basicamente o que entendi dele.
Gostei bastante do texto até quase o final porque até aí ele fala unicamente de
ciência; depois, na minha opinião, como é comum em textos desse tipo, o autor
se perdeu confundindo ciência com religião e colocando deus onde absolutamente
ele não cabe. Pra mim esses textos, ou os textos e trechos do tipo das
observações finais do texto que estou comentando agora, lembram muito aquela
brincadeira infantil que tem uma mesa com furos de diferentes formas e peças
soltas no tamanho e formato dos furos para serem encaixados neles. As crianças
por vezes tentam colocar, por exemplo, a peça cúbica no furo triangular e, como
não conseguem, ficam um tempo insistindo, até que desistem, pegam outra peça e
descobrem qual entra certinho em cada furo. Caso as peças fossem mais maleáveis
a criança até conseguiria encaixá-la no furo errado, mas certamente teria que,
para isso, deformar a peça cúbica transformando-a talvez em uma pirâmide ou,
mais provavelmente, em algo meio disforme que, no entanto, passasse pelo buraco
triangular. É mais ou menos isso, respeitando-se as proporções, que vejo os
estudiosos e cientistas fazendo quando insistem em encontrar deus na física, na
matemática, na biologia.
Sou uma
aficionada pelas histórias dos seriados de Jornada nas Estrelas desde que
conheci o Capitão Kirk e sua Interprise há muitos e muitos anos; portanto, já
ouvi falar muito a respeito da dobra (é dessa forma que a Interprise viaja),
dos buracos negros e até da teoria dos universos paralelos, assuntos de que o
texto tratava. É claro que as referências que tenho a respeito desses assuntos
saíram um pouco do universo do seriado, embora sem nunca chegar a se tornar
algo que se possa chamar de conhecimento científico de fato, mas, pelo
interesse que o seriado me despertou, li algumas coisas que não eram meramente
histórias criativas de ficção científica, e ainda, como meu marido é professor
de física, ele conseguiu colocar, na medida do possível, em termos claros para
o meu parco entendimento, algumas dessas teorias e dessas descobertas
científicas.
Além da
série Jornada nas Estrelas, sempre gostei de todo tipo de filme, romance e conto
que trate de viagem no tempo e assuntos semelhantes, de um deles me lembrei
lendo o texto que meu amigo me enviou: Era um filme no qual um rapaz viajava no
tempo com uma moto e conhecia uma moça a quem dava como presente um broche que
havia recebido de sua avó. Acontece que aquele broche tinha sido dado de
presente à avó do rapaz pela mãe dela, que o tinha recebido de sua mãe que, por
sua vez o tinha recebido de um rapaz que conhecera e que veio do futuro
cavalgando um “cavalo de ferro”. Preciso esclarecer que vi o filme há
muitos anos e, portanto, não tenho certeza da sequência correta dos presentes e
nem mesmo se o objeto em questão era realmente um broche ou um colar, mas o
fato é que, no filme ele entrega à moça algo que tinha recebido indiretamente
dela mesma. A pergunta que ficou na minha cabeça foi: Quem fabricou o broche?
Juro que, embora não possa de forma alguma responder a essa pergunta, nem me
ocorreu a hipótese de que deus tenha criado o broche. Mas isso é só uma
brincadeira, não leve a sério.
O que quero
dizer, ao fim e ao cabo, é que tenho noção, embora não muito profunda, do
conhecimento que um cientista teria sobre esses temas, consigo ler e entender
bastante bem o que o texto que meu amigo me enviou diz, e acho o assunto
interessante, fascinante e em nada desprezível como possibilidade de verdade,
mas não vejo por que deus tenha que fazer parte de tudo isso. Não consigo
perceber onde a existência de deus como verdade se encaixaria nesses estudos,
nessas teorias e nessas descobertas. Veja só um exemplo: Em certa altura o
texto afirma a existência de matéria subatômica que se cria do nada e depois
retorna para o nada. Se existem essas micropartículas, por que é mesmo que
precisamos de deus? O universo todo poderia ter se criado a partir do nada de
onde vêm essas partículas subatômicas.
Outra coisa
de que me lembrei lendo o texto foi de uma frase muito conhecida do Carl Sagan
que diz: “Se com «Deus» nos referimos ao conjunto de leis físicas que regem
o universo, então há claramente um Deus. Só que esse Deus é emocionalmente
frustrante... não faz muito sentido rezar às leis da gravidade”. Eu entendo
que o Carl Sagan está corretíssimo, principalmente porque a expressão “leis
da gravidade” aí pode ser substituída por qualquer outra força ou lei da física,
da biologia, da ciência e do universo.
Disso tudo,
tenho a dizer que continuo achando muito estranha a afirmação do meu amigo de
que o estudioso oriental que ele admira, que se chama Mokiti Okada e de quem eu
nunca tinha ouvido falar antes dos e-mails desse meu amigo, é alguém que “recebeu
a revelação da Verdade”, isso para mim não faz o menor sentido
principalmente porque, como o texto mesmo que ele me enviou afirma, nós,
humanos, não temos como chegar ao conhecimento da Verdade. De acordo mesmo com
esse texto, se é que eu o li corretamente, para que alguém consiga alcançar o
conhecimento da Verdade é preciso que deixe de ser humano, deixe de ter um
corpo físico, deixe de ser uma pessoa. E, por tudo que esse meu amigo disse e
por tudo que está no texto que me enviou, ele me levou a crer que todos os
nomes que citou são nomes de pessoas que existem ou existiram como tais
efetivamente. Então eu pergunto: como pode uma dessas pessoas ter tido acesso a
um conhecimento que é vedado a toda e qualquer pessoa pelo simples fato de ser
pessoa? Não faz o menor sentido, não é?
Ainda
falando em Verdade preciso dizer que nunca, nunca mesmo, consegui acreditar em
alguém que se diz ou de quem dizem ter conhecimento da Verdade. Isso é algo
que, de saída e de antemão, me deixa totalmente cética. Associo essas
afirmações à prepotência, a convencimento e, mais ainda e principalmente, ao
seu oposto: mentira. Posso estar enganada, mas acho que não estou e acho que
ninguém em sã consciência e racionalmente pode afirmar seriamente, de si mesmo
ou de qualquer outro ser humano, que tenha conhecimento da Verdade assim, com
letra maiúscula. Até acredito em verdades relativas e tenho a pretensão de
achar que eu mesma tenho o conhecimento de umas poucas delas, mas a Verdade,
essa que meu amigo credita ao seu cientista-filósofo, essa não acredito mesmo
que alguém possua, sinto muito.
E voltando
a falar de deus, continuo me sentindo e me sabendo ateia. Até aceito - e nem
poderia deixar de aceitar - que possa existir alguma força geradora do universo
e da vida, mas não acredito que essa força - possível embora não necessária -
tenha qualquer semelhança com o que as pessoas, religiosas ou não, definem como
deus. Para mim essa força tem tanta consciência da minha existência, da minha
personalidade, da minha verdadeira forma e comportamento quanto eu tenho esse
mesmo conhecimento a respeito de uma microbactéria que habita um elétron de um
átomo que forma uma molécula de água que está nesse momento em uma célula do
meu fígado, por exemplo. Tanto quanto, para mim, essa bactéria não existe (e
provavelmente não existe mesmo) para essa força geradora eu não existo,
portanto, de que adianta chamá-la de deus, acreditar que ela tem um "plano"
determinado para mim, que ela de alguma forma se importa comigo, se preocupa
com a minha existência e com o meu futuro e, ainda pior, construir templos e
rezar para ela? Na minha opinião, ao contrário do que meu amigo afirma, quanto
mais a ciência e a filosofia descobrem coisas, mais claro fica que deus não
existe.
Por último
e voltando ao chão do nosso cotidiano e da vida do comum dos mortais: Que
sentido faz um ser consciente e bom que, a partir do nada, cria coisas que
matam crianças? Essa é, em última análise, a razão primeira porque eu, Divina
de Jesus Scarpim, não acredito em deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário