22 de junho de 2020

CASAR CIÊNCIA COM RELIGIOSIDADE?


Li todo e atentamente um texto enviado por um amigo e que é um daqueles textos que tentam casar ciência com religião, pelo menos foi isso basicamente o que entendi dele. Gostei bastante do texto até quase o final porque até aí ele fala unicamente de ciência; depois, na minha opinião, como é comum em textos desse tipo, o autor se perdeu confundindo ciência com religião e colocando deus onde absolutamente ele não cabe. Pra mim esses textos, ou os textos e trechos do tipo das observações finais do texto que estou comentando agora, lembram muito aquela brincadeira infantil que tem uma mesa com furos de diferentes formas e peças soltas no tamanho e formato dos furos para serem encaixados neles. As crianças por vezes tentam colocar, por exemplo, a peça cúbica no furo triangular e, como não conseguem, ficam um tempo insistindo, até que desistem, pegam outra peça e descobrem qual entra certinho em cada furo. Caso as peças fossem mais maleáveis a criança até conseguiria encaixá-la no furo errado, mas certamente teria que, para isso, deformar a peça cúbica transformando-a talvez em uma pirâmide ou, mais provavelmente, em algo meio disforme que, no entanto, passasse pelo buraco triangular. É mais ou menos isso, respeitando-se as proporções, que vejo os estudiosos e cientistas fazendo quando insistem em encontrar deus na física, na matemática, na biologia.

Sou uma aficionada pelas histórias dos seriados de Jornada nas Estrelas desde que conheci o Capitão Kirk e sua Interprise há muitos e muitos anos; portanto, já ouvi falar muito a respeito da dobra (é dessa forma que a Interprise viaja), dos buracos negros e até da teoria dos universos paralelos, assuntos de que o texto tratava. É claro que as referências que tenho a respeito desses assuntos saíram um pouco do universo do seriado, embora sem nunca chegar a se tornar algo que se possa chamar de conhecimento científico de fato, mas, pelo interesse que o seriado me despertou, li algumas coisas que não eram meramente histórias criativas de ficção científica, e ainda, como meu marido é professor de física, ele conseguiu colocar, na medida do possível, em termos claros para o meu parco entendimento, algumas dessas teorias e dessas descobertas científicas.

Além da série Jornada nas Estrelas, sempre gostei de todo tipo de filme, romance e conto que trate de viagem no tempo e assuntos semelhantes, de um deles me lembrei lendo o texto que meu amigo me enviou: Era um filme no qual um rapaz viajava no tempo com uma moto e conhecia uma moça a quem dava como presente um broche que havia recebido de sua avó. Acontece que aquele broche tinha sido dado de presente à avó do rapaz pela mãe dela, que o tinha recebido de sua mãe que, por sua vez o tinha recebido de um rapaz que conhecera e que veio do futuro cavalgando um “cavalo de ferro”. Preciso esclarecer que vi o filme há muitos anos e, portanto, não tenho certeza da sequência correta dos presentes e nem mesmo se o objeto em questão era realmente um broche ou um colar, mas o fato é que, no filme ele entrega à moça algo que tinha recebido indiretamente dela mesma. A pergunta que ficou na minha cabeça foi: Quem fabricou o broche? Juro que, embora não possa de forma alguma responder a essa pergunta, nem me ocorreu a hipótese de que deus tenha criado o broche. Mas isso é só uma brincadeira, não leve a sério.

O que quero dizer, ao fim e ao cabo, é que tenho noção, embora não muito profunda, do conhecimento que um cientista teria sobre esses temas, consigo ler e entender bastante bem o que o texto que meu amigo me enviou diz, e acho o assunto interessante, fascinante e em nada desprezível como possibilidade de verdade, mas não vejo por que deus tenha que fazer parte de tudo isso. Não consigo perceber onde a existência de deus como verdade se encaixaria nesses estudos, nessas teorias e nessas descobertas. Veja só um exemplo: Em certa altura o texto afirma a existência de matéria subatômica que se cria do nada e depois retorna para o nada. Se existem essas micropartículas, por que é mesmo que precisamos de deus? O universo todo poderia ter se criado a partir do nada de onde vêm essas partículas subatômicas.

Outra coisa de que me lembrei lendo o texto foi de uma frase muito conhecida do Carl Sagan que diz: “Se com «Deus» nos referimos ao conjunto de leis físicas que regem o universo, então há claramente um Deus. Só que esse Deus é emocionalmente frustrante... não faz muito sentido rezar às leis da gravidade”. Eu entendo que o Carl Sagan está corretíssimo, principalmente porque a expressão “leis da gravidade” aí pode ser substituída por qualquer outra força ou lei da física, da biologia, da ciência e do universo.

Disso tudo, tenho a dizer que continuo achando muito estranha a afirmação do meu amigo de que o estudioso oriental que ele admira, que se chama Mokiti Okada e de quem eu nunca tinha ouvido falar antes dos e-mails desse meu amigo, é alguém que “recebeu a revelação da Verdade”, isso para mim não faz o menor sentido principalmente porque, como o texto mesmo que ele me enviou afirma, nós, humanos, não temos como chegar ao conhecimento da Verdade. De acordo mesmo com esse texto, se é que eu o li corretamente, para que alguém consiga alcançar o conhecimento da Verdade é preciso que deixe de ser humano, deixe de ter um corpo físico, deixe de ser uma pessoa. E, por tudo que esse meu amigo disse e por tudo que está no texto que me enviou, ele me levou a crer que todos os nomes que citou são nomes de pessoas que existem ou existiram como tais efetivamente. Então eu pergunto: como pode uma dessas pessoas ter tido acesso a um conhecimento que é vedado a toda e qualquer pessoa pelo simples fato de ser pessoa? Não faz o menor sentido, não é?

Ainda falando em Verdade preciso dizer que nunca, nunca mesmo, consegui acreditar em alguém que se diz ou de quem dizem ter conhecimento da Verdade. Isso é algo que, de saída e de antemão, me deixa totalmente cética. Associo essas afirmações à prepotência, a convencimento e, mais ainda e principalmente, ao seu oposto: mentira. Posso estar enganada, mas acho que não estou e acho que ninguém em sã consciência e racionalmente pode afirmar seriamente, de si mesmo ou de qualquer outro ser humano, que tenha conhecimento da Verdade assim, com letra maiúscula. Até acredito em verdades relativas e tenho a pretensão de achar que eu mesma tenho o conhecimento de umas poucas delas, mas a Verdade, essa que meu amigo credita ao seu cientista-filósofo, essa não acredito mesmo que alguém possua, sinto muito.

E voltando a falar de deus, continuo me sentindo e me sabendo ateia. Até aceito - e nem poderia deixar de aceitar - que possa existir alguma força geradora do universo e da vida, mas não acredito que essa força - possível embora não necessária - tenha qualquer semelhança com o que as pessoas, religiosas ou não, definem como deus. Para mim essa força tem tanta consciência da minha existência, da minha personalidade, da minha verdadeira forma e comportamento quanto eu tenho esse mesmo conhecimento a respeito de uma microbactéria que habita um elétron de um átomo que forma uma molécula de água que está nesse momento em uma célula do meu fígado, por exemplo. Tanto quanto, para mim, essa bactéria não existe (e provavelmente não existe mesmo) para essa força geradora eu não existo, portanto, de que adianta chamá-la de deus, acreditar que ela tem um "plano" determinado para mim, que ela de alguma forma se importa comigo, se preocupa com a minha existência e com o meu futuro e, ainda pior, construir templos e rezar para ela? Na minha opinião, ao contrário do que meu amigo afirma, quanto mais a ciência e a filosofia descobrem coisas, mais claro fica que deus não existe.

Por último e voltando ao chão do nosso cotidiano e da vida do comum dos mortais: Que sentido faz um ser consciente e bom que, a partir do nada, cria coisas que matam crianças? Essa é, em última análise, a razão primeira porque eu, Divina de Jesus Scarpim, não acredito em deus.

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