23 de junho de 2020

QUEBRANDO CRENÇAS: O LIVRE ARBÍTRIO


Muitos dizem que deus não interfere na vida das pessoas por causa do livre-arbítrio e que é por causa do livre-arbítrio que ele não impede que ocorram os horrores que vemos todos os dias em todos os jornais. Deus também não impede os horrores que não vemos e dos quais não ficamos sabendo, mas que também são horrores e que também acontecem. Tudo isso por causa do livre-arbítrio. Essas pessoas usam muito como argumento a pergunta retórica que para eles tem força de cala-boca: “Você gostaria de ser um robozinho, sem capacidade de raciocínio, sem poder de escolha, sem liberdade?” Difícil ver desculpa mais sem nexo e frase mais vazia do que essa.

Então uma criança quando é estuprada tem o livre-arbítrio de se negar ao estuprador e por isso deus não impede o estupro? Mas os teístas diriam que o livre-arbítrio, nesse caso, não é da criança, é do estuprador que teve a escolha entre estuprar e não estuprar e escolheu estuprar; escolheu o caminho errado, tinha o livre-arbítrio e, por causa do seu pecado, irá para o inferno onde queimará por toda a eternidade para pagar por seu crime. Aliás, de acordo com o que entendi do que afirmam os teístas, o castigo é o mesmo independente de ele ter estuprado uma criança ou uma centena delas e será o mesmo também independente de ter estuprado uma criança ou um adulto. Isso, logicamente, se ele não se arrepender e não aceitar Jesus. Se fizer isso, de acordo com muitos religiosos, tudo será esquecido (inclusive a criança, aparentemente) e ele terá direito ao paraíso como todo crente. Desculpe, mas se esse argumento é bom para você eu fico muito chocada com o seu senso de justiça, e mais ainda com o senso de justiça do seu deus.

Por que quando defende o livre-arbítrio você esquece a criança? O pobre inocente que é todo-promessa e que sofreu tal violência? “Ah, essa é inocente e irá para o céu”, dirá você; “Essa tem a alma pura e sentará à direita do pai”, você pode dizer para me consolar e acalmar minha revolta. Mas eu lembro que crianças crescem, crianças crescem e se tornam adultas, e adultos pecam. E se essa criança que foi estuprada e foi violentada, de sabe-se lá que mil outras maneiras de violência, se tornar um adulto que, justificadamente ou não, venha a cometer um crime grave, como assassinato por exemplo? Então o que teremos aí voltando ao primeiro crime? Um estuprador que tinha o livre-arbítrio e que pecou e por isso vai queimar no inferno, uma vítima inocente que mereceu o paraíso, mas que também vai queimar no inferno. Que maravilha de “pasto” para esse deus “purossadismo”, não?

Um bebe, quando é espancado, tem o livre-arbítrio de se negar ao seu algoz e por isso deus não impede o espancamento? “Não”, dirão novamente os teístas, “Quem tem o livre-arbítrio é o espancador da criança, esse sim poderia ter escolhido entre espancar e não espancar e escolheu espancar, esse é que é o criminoso e é ele quem irá para o inferno”. Mas a criança espancada, me dirão, quando crescer terá também o livre-arbítrio e, se cometer um crime irá também para o inferno. “Ter sido vítima de um crime não dá a ninguém o direito de cometer um crime”, dirão, certamente e com toda a razão, os teístas.

Mas não consigo me furtar de pensar e sentir que tem algo muito errado na atitude desse deus que viu tudo e não interferiu. Por que o livre-arbítrio só existe para o adulto e não para a criança? Ou só para o criminoso e não para a vítima? Não consigo deixar de sentir o “cheiro” de uma injustiça aí. Por que é que o livre-arbítrio não começa, por exemplo, com deus dizendo algo do tipo “Olha, você vai nascer, vai ser estuprada, espancada e violentada de várias formas durante alguns anos, que será tempo suficiente para que você se torne um adulto revoltado e mentalmente desequilibrado, depois disso você vai passar a ter o livre-arbítrio e vai poder escolher entre dar vazão à sua revolta e ao seu desequilíbrio mental e cometer crimes ou ser uma pessoa boa e honesta, crer em mim, tornar-se meu servo e, se fizer tudo direitinho, ir para o céu. O que você escolhe? Nascer ou não nascer?

Aí o candidato a vivo poderia perguntar: “Mas com uma primeira fase assim tão traumatizante, qual será a chance de que eu, sem me lembrar absolutamente nada dessa nossa conversa, consiga controlar toda essa revolta e consiga superar esse desequilíbrio mental que terei?” Deus certamente responderia com um número extremamente baixo nesse caso específico e com números pouca coisa menos baixos em outros muitos casos não tão terríveis assim; entre essas duas opções tão desequilibradas e a volta ao nada, acho que essa pessoa, e muitas e muitas pessoas, escolheria voltar para o limbo. Esse seria um livre-arbítrio decente. No meu caso, por existir e por estar aqui, afirmo que tenho certeza de que essa opção não me foi mostrada porque, embora não seja a vítima nem o estuprador da história, embora saiba que a “conversa” entre mim e deus teria sido um pouco diferente na existência e na intensidade dos horrores que me esperavam, tenho certeza de que se tudo que vivi me tivesse sido mostrado, eu certamente teria escolhido o caminho da não existência, não tanto pelo que sofri na vida, mas principalmente pelo fato de ter que viver em um mundo em que crianças sofrem apenas para que EU tenha direito a um absurdo de injustiça chamado livre arbítrio.

Tenho ainda uma outra pergunta na mesma linha das duas anteriores: Uma criança quando acometida por uma doença tem o livre-arbítrio de se negar ao vírus, bactéria ou parasita que a esteja matando? É por isso que deus permite que morram tantas crianças? Agora ficou por conta de deus mesmo, eu acho! O vírus o fungo, a bactéria, ou seja lá o que está matando a criança não é um ser consciente e detentor do direito de livre-arbítrio, certamente não o é na visão dos teístas, então como é que se justifica a não interferência de deus nessas situações? Não parece compreensível ou aplicável nesse caso o raciocínio de que deus não interfere, evitando os horrores da vida, porque nos deu o livre-arbítrio. Parece ser por sadismo e maldade pura mesmo, ou então pela não existência, o que a meu ver é muito mais lógico.

Respondendo à pergunta boba colocada lá em cima, eu gostaria sim de ser esse robozinho sem capacidade de escolha e sem liberdade se dessa forma pudesse evitar que todos os horrores do mundo existissem. A ironia maior é que os teístas dizem: “Deus deu o livre arbítrio, mas de tudo que fizermos teremos que prestar contas a ele”. Então não somos livres! Que raio de liberdade é essa que só te dá apenas duas opções: "opção um: você faz o que eu mando, opção dois: você está F.!" ? Onde é que está o Plano B? Não existe plano B, não existe escolha antes da existência, não existe nada além de “Nós temos o livre-arbítrio, mas nossas escolhas na vida nos resultam em sofrimento ou felicidade; destruição ou salvação”. Será possível que só eu percebo que não existe liberdade nenhuma nesse contexto aí?

Se temos duas opções e uma vai nos prejudicar muito seriamente, tão seriamente que, em alguns casos esse prejuízo será uma tortura inimaginável que durará eternamente, então não temos opção nenhuma! A não ser para um supremo sádico que esteja olhando e sentindo indizível prazer nessa brincadeira de péssimo gosto. Alguém chamado Perrone, falando muito sábia e muito poeticamente, já disse que livre-arbítrio seria termos muitas escolhas e todas elas serem boas.

É igualzinho os tristes tempos da ditadura; assim nos diziam: “Você é livre para pensar, dizer e fazer tudo o que quiser, desde que só pense, diga e faça aquilo que eu permito que você diga, pense e faça” O tal deus que é “todo amor e bondade”, dentro do raciocínio dos teístas, faz exatamente a mesma coisa.

Não, que me perdoem aqueles muitos teístas que, por sua bondade e por sua beleza interna, merecem todo o meu respeito, mas não é possível para um ateu entender essa história de livre-arbítrio que parece ser apenas mais uma mentira criada para inocentar deus e fazer com que se continue acreditando nele apesar de todas as evidências em contrário. Por que será que os que creem não veem isso? Nesses momentos eu sinto mais e mais a verdade da afirmação de que fé não se justifica, não há mesmo possibilidade de se justificar tamanha cegueira!

Além de tudo o que foi dito acima, o livre-arbítrio e a existência de deus como o definem não se combinam logicamente, e não sou a primeira pessoa a perceber isso. Vejamos: Deus seria, por definição, onisciente; pois bem, se ele é onisciente sabe de absolutamente tudo desde sempre, inclusive de cada uma das situações de escolha com que cada ser humano vai se deparar ao longo da vida e qual será a escolha que esse ser humano vai fazer em cada uma dessas situações. Como dizem os teístas: Não há nada na mente humana que seja desconhecido para deus.

Sei que com esse último parágrafo estou entrando em uma discussão filosófica que, como todas as discussões filosóficas, não está fechada. Sei que quando uma discussão filosófica se fecha em uma certeza, aquele tema deixa de ser filosofia, e sei que tem nomes importantes como Schopenhauer, Kant, Espinosa e Nietzsche defendendo basicamente três formas de ver o tema; o determinismo radical, meio como esse de que estou falando aqui; um determinismo light, que não exclui a ideia de liberdade; e a negação mesma do determinismo. Sei que, como tema tão discutido e tão cheio de opiniões discordantes e concordantes em termos, eu teria que ter um conhecimento filosófico muitíssimo maior do que o meu parco e humilde cabedal de leituras para me aprofundar nele; por isso quero deixar claro que estou focada no problema deus e livre-arbítrio da forma que ouço os teístas definirem e explicarem - ou tentarem explicar - essa coexistência.

Para mim parece muito fácil concluir que se deus é um ser onisciente as escolhas todas, desde Adão até o último homem da terra, já são conhecidas por ele; são escolhas ilusórias e pré-programadas, consequentemente, não existem escolhas. Antes mesmo da existência da humanidade, antes mesmo da existência do universo, deus, com sua onisciência, sabia do resultado de cada escolha de cada pessoa. Portanto, a pessoa - toda pessoa - na verdade não terá nunca escolha nenhuma. Ou seja, se deus existe e se ele é onisciente, então ninguém é livre. Daí que não existe livre-arbítrio.

A ideia do livre-arbítrio parece uma espécie de coringa que as pessoas aprenderam a tirar da manga para justificar o injustificável, puxam essa carta e a mostram com a certeza de que dessa forma encerram o assunto e ganham qualquer discussão. Mas como? Não dá para entender um deus todo bom e todo poderoso que, com a desculpa de um livre-arbítrio que ninguém pediu, se omitisse de ajudar os seres que ele mesmo criou e colocou para sofrer nesse teatro macabro também criado por ele.

Então, querem nos convencer de que um filhote de foca tem livre-arbítrio para fugir do predador e o predador tem livre-arbítrio para não comer a foca e morrer de fome? Ou o livre-arbítrio é coisa só de homens e só de adultos? Ou ainda – esse é outro “argumento” muito usado - um bicho matar outro bicho não é algo feio porque foi deus, na sua suprema “bondade” quem criou isso e nada do que deus cria é feio, mal ou ruim. Seria bom pedir aos teístas que explicassem isso tudo porque não é possível a uma ateia leiga como eu entender. O problema é que quanto mais os teístas explicam menos o ateu entende e menos concorda com a possibilidade de um criador bom e poderoso que fizesse esse papel infeliz. Pelo menos é assim com essa ateia aqui.

Poucas, muito poucas pessoas tomam atitudes que sejam conscientemente em prejuízo próprio, e algumas - religiosas ou não - procuram durante a vida inteira nunca tomar atitudes que prejudiquem outras pessoas. Há muitíssimas situações em que as pessoas escolhem um tal caminho na certeza de estarem escolhendo bem e fazendo o bem, mas, e se o “deus dos enigmas” por um acaso achar que aquele é o caminho errado? Então tudo estará perdido e a pessoa estará condenada ao inferno por toda a eternidade.

Um exemplo razoavelmente recente foi o do médico que, cumprindo a sua promessa de lutar sempre para salvar vidas, optou por fazer o aborto de uma criança de nove anos que tinha uma gravidez de extremo risco e que quase certamente não sobreviveria à gestação e ao parto. Esse médico teve, como diriam os teístas, o livre-arbítrio e escolheu, na opinião da igreja católica representada por um de seus bispos, o caminho errado. O médico foi então excomungado e isso significa - de acordo com a igreja católica - que está condenado ao inferno e impedido para sempre de entrar no paraíso.

É claro que muitos teístas - e por isso mesmo estou afirmando desde o começo que existem muitos teístas decentes, honestos e bons no mundo – afirmariam que esse comportamento do bispo idiota e até mesmo da igreja católica como entidade não é, nesse caso, representativo do que seria a decisão de deus. Deus, diriam esses teístas, não condenaria nunca esse médico porque sabe que ele agiu na melhor das intenções. Mas eu responderia: Então para que serve a igreja católica? E para que servem as outras igrejas e as outras religiões se estão todas cheias de casos que, na opinião de muitos teístas decentes e bons, contrariam a “justiça de deus”? Por que deus apoiaria essas entidades? Por que permitiria que se chamassem santos os seus representantes? Por que faria dessas igrejas a sua morada?

Na minha visão teimosinha deus estaria, ao permitir que essas entidades e essas pessoas sejam seus representantes, novamente, cometendo o crime da conivência e da cumplicidade. E esse crime de conivência e cumplicidade não estaria presente apenas, é claro, no caso da excomunhão do médico que fez esse aborto, estaria também na permanência e no acobertamento, por parte de seus superiores, dos padres pedófilos; estaria no bispo que, descaradamente, negou o holocausto e estaria em todas as igrejas e em todos os representantes dessas igrejas - não somente a católica com toda certeza - que cometem erros, crimes e ações infelizes e impiedosas.

No que me diz respeito, ao menos como conivente, não dá pra tirar deus dessa jogada. Então se conclui que esse caso da excomunhão do médico é um dos exemplos - e muitos dos casos de aborto também são - de uso do livre-arbítrio que “dá zica”. O que tudo isso permite pensar é que o deus dos cristãos prepara essas armadilhas para que as pessoas caiam nelas e queimem no inferno para seu eterno deleite. Se ele já gostava tanto do cheiro da carne queimada dos animais perfeitos que os antigos fiéis sacrificavam a ele de acordo com o que diz a bíblia, deve adorar o cheiro de carne queimada de gente que sofre por toda a eternidade no inferno e que foram para lá levadas por ele.

Sim porque se existir um inferno, como afirmam muitos religiosos e com o qual costumam ameaçar os ateus frequentemente, cada uma das pessoas que estão ou estarão lá foram levadas por deus. Afinal, vejamos: se deus existe, então ele com toda a certeza tem livre-arbítrio, daí que ele optou por tirar cada uma das pessoas que já existiram, que existem e que ainda existirão, do nada mais absoluto para dar a elas a vida. E se deus existe e é onipotente isso quer dizer que, podendo tudo, ele poderia ter feito diferente, mas preferiu assim e criou essas pessoas como seres fracos, ignorantes e capazes de pecar; e ainda se, sendo onisciente, ele sabia, desde sempre, como, quando e o quanto cada uma das pessoas que criou pecaria, então, logicamente foi ele, por suas próprias decisões e sua própria vontade, quem levou essas pessoas ao inferno. Ou será que deus não tem livre-arbítrio?

Se deus existe e se o inferno existe, um ateu que pense um pouco mais profundamente poderá, sem pecar contra a lógica, concluir que cada ser humano, pode ser comparado a um leitão que foi criado por um fazendeiro para, no momento em que esse fazendeiro decidir, virar churrasco. É como se o fazendeiro dissesse aos seus porcos: “Vou colocar no espeto todos aqueles porcos que se comportarem como porcos, ou seja, todos os que chafurdarem na lama, todos os que roerem tudo o que estiver a seu alcance e também todos aqueles que, se e quando virem uma oportunidade, tentarem fugir do chiqueiro”.

Aí o fazendeiro simplesmente faz churrasco todas as semanas porque sempre encontra um porco que se comportou como porco, e justifica dizendo que o avisou, deu a ele a oportunidade e o livre-arbítrio para decidir chafurdar ou não chafurdar na lama, roer ou não roer tudo o que estivesse a seu alcance, tentar fugir quando a oportunidade se apresenta ou ficar quieto no chiqueiro e não tentar fugir nunca, mesmo que a porta seja deixada aberta. A comparação parece cruel para nós, os seres humanos que se julgam tão superiores aos porcos e que pensam ter criado um deus “à sua imagem e semelhança” tão superior a um criador de porcos, mas tenho certeza de que o paralelo não é absurdo e o fazendeiro parece, nesse caso, menos culpado que deus, afinal, o fazendeiro não criou os porcos a partir do nada.

Sei que os porcos não têm consciência e nós temos e sei que isso faz de nós seres muito diferentes dos porcos mas a nossa consciência, se comparada com a consciência de deus, não seria equivalente à não consciência do porco comparada com a consciência do fazendeiro? Pelo que afirmam os teístas a respeito da superioridade de deus sobre nós, a diferença entre nossa consciência e a consciência de deus é astronômica, acho que todo deísta concordará com qualquer um que disser que a consciência de deus é infinitamente superior à consciência do mais inteligente dos seres humanos; portanto, com base no que dizem os próprios teístas, essa comparação de proporções está longe de ser absurda. Veja: deus está para o homem assim como o fazendeiro está para o porco; e estou correndo o risco de ser injusta porque a distância entre a consciência do fazendeiro e a consciência do porco talvez não seja tão grande assim. O paralelo, portanto, parece perfeitamente aceitável na hipótese de existir esse deus no qual o ateu insiste em não crer.

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