Muitos dizem que deus
não interfere na vida das pessoas por causa do livre-arbítrio e que é por causa
do livre-arbítrio que ele não impede que ocorram os horrores que vemos todos os
dias em todos os jornais. Deus também não impede os horrores que não vemos e
dos quais não ficamos sabendo, mas que também são horrores e que também
acontecem. Tudo isso por causa do livre-arbítrio. Essas pessoas usam muito como
argumento a pergunta retórica que para eles tem força de cala-boca: “Você
gostaria de ser um robozinho, sem capacidade de raciocínio, sem poder de
escolha, sem liberdade?” Difícil ver desculpa mais sem nexo e frase mais
vazia do que essa.
Então uma criança
quando é estuprada tem o livre-arbítrio de se negar ao estuprador e por isso
deus não impede o estupro? Mas os teístas diriam que o livre-arbítrio, nesse
caso, não é da criança, é do estuprador que teve a escolha entre estuprar e não
estuprar e escolheu estuprar; escolheu o caminho errado, tinha o livre-arbítrio
e, por causa do seu pecado, irá para o inferno onde queimará por toda a
eternidade para pagar por seu crime. Aliás, de acordo com o que entendi do que
afirmam os teístas, o castigo é o mesmo independente de ele ter estuprado uma
criança ou uma centena delas e será o mesmo também independente de ter
estuprado uma criança ou um adulto. Isso, logicamente, se ele não se arrepender
e não aceitar Jesus. Se fizer isso, de acordo com muitos religiosos, tudo será
esquecido (inclusive a criança, aparentemente) e ele terá direito ao paraíso
como todo crente. Desculpe, mas se esse argumento é bom para você eu fico muito
chocada com o seu senso de justiça, e mais ainda com o senso de justiça do seu
deus.
Por que quando defende
o livre-arbítrio você esquece a criança? O pobre inocente que é todo-promessa e
que sofreu tal violência? “Ah, essa é inocente e irá para o céu”, dirá
você; “Essa tem a alma pura e sentará à direita do pai”, você pode dizer
para me consolar e acalmar minha revolta. Mas eu lembro que crianças crescem,
crianças crescem e se tornam adultas, e adultos pecam. E se essa criança que
foi estuprada e foi violentada, de sabe-se lá que mil outras maneiras de
violência, se tornar um adulto que, justificadamente ou não, venha a cometer um
crime grave, como assassinato por exemplo? Então o que teremos aí voltando ao
primeiro crime? Um estuprador que tinha o livre-arbítrio e que pecou e por isso
vai queimar no inferno, uma vítima inocente que mereceu o paraíso, mas que
também vai queimar no inferno. Que maravilha de “pasto” para esse deus “purossadismo”,
não?
Um bebe, quando é
espancado, tem o livre-arbítrio de se negar ao seu algoz e por isso deus não
impede o espancamento? “Não”, dirão novamente os teístas, “Quem tem o
livre-arbítrio é o espancador da criança, esse sim poderia ter escolhido entre
espancar e não espancar e escolheu espancar, esse é que é o criminoso e é ele
quem irá para o inferno”. Mas a criança espancada, me dirão, quando crescer
terá também o livre-arbítrio e, se cometer um crime irá também para o inferno.
“Ter sido vítima de um crime não dá a ninguém o direito de cometer um crime”,
dirão, certamente e com toda a razão, os teístas.
Mas não consigo me
furtar de pensar e sentir que tem algo muito errado na atitude desse deus que
viu tudo e não interferiu. Por que o livre-arbítrio só existe para o adulto e
não para a criança? Ou só para o criminoso e não para a vítima? Não consigo
deixar de sentir o “cheiro” de uma injustiça aí. Por que é que o
livre-arbítrio não começa, por exemplo, com deus dizendo algo do tipo “Olha,
você vai nascer, vai ser estuprada, espancada e violentada de várias formas
durante alguns anos, que será tempo suficiente para que você se torne um adulto
revoltado e mentalmente desequilibrado, depois disso você vai passar a ter o
livre-arbítrio e vai poder escolher entre dar vazão à sua revolta e ao seu
desequilíbrio mental e cometer crimes ou ser uma pessoa boa e honesta, crer em
mim, tornar-se meu servo e, se fizer tudo direitinho, ir para o céu. O que você
escolhe? Nascer ou não nascer?”
Aí o candidato a vivo
poderia perguntar: “Mas com uma primeira fase assim tão traumatizante, qual
será a chance de que eu, sem me lembrar absolutamente nada dessa nossa
conversa, consiga controlar toda essa revolta e consiga superar esse desequilíbrio
mental que terei?” Deus certamente responderia com um número extremamente
baixo nesse caso específico e com números pouca coisa menos baixos em outros
muitos casos não tão terríveis assim; entre essas duas opções tão
desequilibradas e a volta ao nada, acho que essa pessoa, e muitas e muitas pessoas,
escolheria voltar para o limbo. Esse seria um livre-arbítrio decente. No meu
caso, por existir e por estar aqui, afirmo que tenho certeza de que essa opção
não me foi mostrada porque, embora não seja a vítima nem o estuprador da
história, embora saiba que a “conversa” entre mim e deus teria sido um pouco
diferente na existência e na intensidade dos horrores que me esperavam, tenho
certeza de que se tudo que vivi me tivesse sido mostrado, eu certamente teria
escolhido o caminho da não existência, não tanto pelo que sofri na vida, mas
principalmente pelo fato de ter que viver em um mundo em que crianças sofrem
apenas para que EU tenha direito a um absurdo de injustiça chamado livre
arbítrio.
Tenho ainda uma outra
pergunta na mesma linha das duas anteriores: Uma criança quando acometida por
uma doença tem o livre-arbítrio de se negar ao vírus, bactéria ou parasita que
a esteja matando? É por isso que deus permite que morram tantas crianças? Agora
ficou por conta de deus mesmo, eu acho! O vírus o fungo, a bactéria, ou seja lá
o que está matando a criança não é um ser consciente e detentor do direito de
livre-arbítrio, certamente não o é na visão dos teístas, então como é que se
justifica a não interferência de deus nessas situações? Não parece
compreensível ou aplicável nesse caso o raciocínio de que deus não interfere,
evitando os horrores da vida, porque nos deu o livre-arbítrio. Parece ser por
sadismo e maldade pura mesmo, ou então pela não existência, o que a meu ver é
muito mais lógico.
Respondendo à pergunta
boba colocada lá em cima, eu gostaria sim de ser esse robozinho sem capacidade
de escolha e sem liberdade se dessa forma pudesse evitar que todos os horrores
do mundo existissem. A ironia maior é que os teístas dizem: “Deus deu o
livre arbítrio, mas de tudo que fizermos teremos que prestar contas a ele”.
Então não somos livres! Que raio de liberdade é essa que só te dá apenas duas
opções: "opção um: você faz o que eu mando, opção dois: você está F.!"
? Onde é que está o Plano B? Não existe plano B, não existe escolha antes da
existência, não existe nada além de “Nós temos o livre-arbítrio, mas nossas
escolhas na vida nos resultam em sofrimento ou felicidade; destruição ou
salvação”. Será possível que só eu percebo que não existe liberdade nenhuma
nesse contexto aí?
Se temos duas opções e
uma vai nos prejudicar muito seriamente, tão seriamente que, em alguns casos
esse prejuízo será uma tortura inimaginável que durará eternamente, então não
temos opção nenhuma! A não ser para um supremo sádico que esteja olhando e
sentindo indizível prazer nessa brincadeira de péssimo gosto. Alguém chamado
Perrone, falando muito sábia e muito poeticamente, já disse que livre-arbítrio
seria termos muitas escolhas e todas elas serem boas.
É igualzinho os tristes
tempos da ditadura; assim nos diziam: “Você é livre para pensar, dizer e
fazer tudo o que quiser, desde que só pense, diga e faça aquilo que eu permito
que você diga, pense e faça” O tal deus que é “todo amor e bondade”,
dentro do raciocínio dos teístas, faz exatamente a mesma coisa.
Não, que me perdoem
aqueles muitos teístas que, por sua bondade e por sua beleza interna, merecem
todo o meu respeito, mas não é possível para um ateu entender essa história de
livre-arbítrio que parece ser apenas mais uma mentira criada para inocentar
deus e fazer com que se continue acreditando nele apesar de todas as evidências
em contrário. Por que será que os que creem não veem isso? Nesses momentos eu
sinto mais e mais a verdade da afirmação de que fé não se justifica, não há
mesmo possibilidade de se justificar tamanha cegueira!
Além de tudo o que foi
dito acima, o livre-arbítrio e a existência de deus como o definem não se
combinam logicamente, e não sou a primeira pessoa a perceber isso. Vejamos:
Deus seria, por definição, onisciente; pois bem, se ele é onisciente sabe de
absolutamente tudo desde sempre, inclusive de cada uma das situações de escolha
com que cada ser humano vai se deparar ao longo da vida e qual será a escolha
que esse ser humano vai fazer em cada uma dessas situações. Como dizem os
teístas: Não há nada na mente humana que seja desconhecido para deus.
Sei que com esse último
parágrafo estou entrando em uma discussão filosófica que, como todas as
discussões filosóficas, não está fechada. Sei que quando uma discussão filosófica
se fecha em uma certeza, aquele tema deixa de ser filosofia, e sei que tem
nomes importantes como Schopenhauer, Kant, Espinosa e Nietzsche defendendo basicamente
três formas de ver o tema; o determinismo radical, meio como esse de que estou
falando aqui; um determinismo light, que não exclui a ideia de liberdade; e a
negação mesma do determinismo. Sei que, como tema tão discutido e tão cheio de
opiniões discordantes e concordantes em termos, eu teria que ter um
conhecimento filosófico muitíssimo maior do que o meu parco e humilde cabedal
de leituras para me aprofundar nele; por isso quero deixar claro que estou
focada no problema deus e livre-arbítrio da forma que ouço os teístas definirem
e explicarem - ou tentarem explicar - essa coexistência.
Para mim parece muito
fácil concluir que se deus é um ser onisciente as escolhas todas, desde Adão
até o último homem da terra, já são conhecidas por ele; são escolhas ilusórias
e pré-programadas, consequentemente, não existem escolhas. Antes mesmo da
existência da humanidade, antes mesmo da existência do universo, deus, com sua
onisciência, sabia do resultado de cada escolha de cada pessoa. Portanto, a
pessoa - toda pessoa - na verdade não terá nunca escolha nenhuma. Ou seja, se
deus existe e se ele é onisciente, então ninguém é livre. Daí que não existe
livre-arbítrio.
A ideia do
livre-arbítrio parece uma espécie de coringa que as pessoas aprenderam a tirar
da manga para justificar o injustificável, puxam essa carta e a mostram com a
certeza de que dessa forma encerram o assunto e ganham qualquer discussão. Mas
como? Não dá para entender um deus todo bom e todo poderoso que, com a desculpa
de um livre-arbítrio que ninguém pediu, se omitisse de ajudar os seres que ele
mesmo criou e colocou para sofrer nesse teatro macabro também criado por ele.
Então, querem nos
convencer de que um filhote de foca tem livre-arbítrio para fugir do predador e
o predador tem livre-arbítrio para não comer a foca e morrer de fome? Ou o
livre-arbítrio é coisa só de homens e só de adultos? Ou ainda – esse é outro
“argumento” muito usado - um bicho matar outro bicho não é algo feio porque foi
deus, na sua suprema “bondade” quem criou isso e nada do que deus cria é
feio, mal ou ruim. Seria bom pedir aos teístas que explicassem isso tudo porque
não é possível a uma ateia leiga como eu entender. O problema é que quanto mais
os teístas explicam menos o ateu entende e menos concorda com a possibilidade
de um criador bom e poderoso que fizesse esse papel infeliz. Pelo menos é assim
com essa ateia aqui.
Poucas, muito poucas
pessoas tomam atitudes que sejam conscientemente em prejuízo próprio, e algumas
- religiosas ou não - procuram durante a vida inteira nunca tomar atitudes que
prejudiquem outras pessoas. Há muitíssimas situações em que as pessoas escolhem
um tal caminho na certeza de estarem escolhendo bem e fazendo o bem, mas, e se
o “deus dos enigmas” por um acaso achar que aquele é o caminho errado?
Então tudo estará perdido e a pessoa estará condenada ao inferno por toda a
eternidade.
Um exemplo
razoavelmente recente foi o do médico que, cumprindo a sua promessa de lutar
sempre para salvar vidas, optou por fazer o aborto de uma criança de nove anos
que tinha uma gravidez de extremo risco e que quase certamente não sobreviveria
à gestação e ao parto. Esse médico teve, como diriam os teístas, o
livre-arbítrio e escolheu, na opinião da igreja católica representada por um de
seus bispos, o caminho errado. O médico foi então excomungado e isso significa
- de acordo com a igreja católica - que está condenado ao inferno e impedido
para sempre de entrar no paraíso.
É claro que muitos
teístas - e por isso mesmo estou afirmando desde o começo que existem muitos
teístas decentes, honestos e bons no mundo – afirmariam que esse comportamento do
bispo idiota e até mesmo da igreja católica como entidade não é, nesse caso,
representativo do que seria a decisão de deus. Deus, diriam esses teístas, não
condenaria nunca esse médico porque sabe que ele agiu na melhor das intenções.
Mas eu responderia: Então para que serve a igreja católica? E para que servem
as outras igrejas e as outras religiões se estão todas cheias de casos que, na
opinião de muitos teístas decentes e bons, contrariam a “justiça de deus”?
Por que deus apoiaria essas entidades? Por que permitiria que se chamassem
santos os seus representantes? Por que faria dessas igrejas a sua morada?
Na minha visão
teimosinha deus estaria, ao permitir que essas entidades e essas pessoas sejam
seus representantes, novamente, cometendo o crime da conivência e da
cumplicidade. E esse crime de conivência e cumplicidade não estaria presente
apenas, é claro, no caso da excomunhão do médico que fez esse aborto, estaria
também na permanência e no acobertamento, por parte de seus superiores, dos
padres pedófilos; estaria no bispo que, descaradamente, negou o holocausto e
estaria em todas as igrejas e em todos os representantes dessas igrejas - não
somente a católica com toda certeza - que cometem erros, crimes e ações
infelizes e impiedosas.
No que me diz respeito,
ao menos como conivente, não dá pra tirar deus dessa jogada. Então se conclui
que esse caso da excomunhão do médico é um dos exemplos - e muitos dos casos de
aborto também são - de uso do livre-arbítrio que “dá zica”. O que tudo
isso permite pensar é que o deus dos cristãos prepara essas armadilhas para que
as pessoas caiam nelas e queimem no inferno para seu eterno deleite. Se ele já
gostava tanto do cheiro da carne queimada dos animais perfeitos que os antigos
fiéis sacrificavam a ele de acordo com o que diz a bíblia, deve adorar o cheiro
de carne queimada de gente que sofre por toda a eternidade no inferno e que
foram para lá levadas por ele.
Sim porque se existir
um inferno, como afirmam muitos religiosos e com o qual costumam ameaçar os
ateus frequentemente, cada uma das pessoas que estão ou estarão lá foram
levadas por deus. Afinal, vejamos: se deus existe, então ele com toda a certeza
tem livre-arbítrio, daí que ele optou por tirar cada uma das pessoas que já
existiram, que existem e que ainda existirão, do nada mais absoluto para dar a
elas a vida. E se deus existe e é onipotente isso quer dizer que, podendo tudo,
ele poderia ter feito diferente, mas preferiu assim e criou essas pessoas como
seres fracos, ignorantes e capazes de pecar; e ainda se, sendo onisciente, ele
sabia, desde sempre, como, quando e o quanto cada uma das pessoas que criou
pecaria, então, logicamente foi ele, por suas próprias decisões e sua própria
vontade, quem levou essas pessoas ao inferno. Ou será que deus não tem livre-arbítrio?
Se deus existe e se o
inferno existe, um ateu que pense um pouco mais profundamente poderá, sem pecar
contra a lógica, concluir que cada ser humano, pode ser comparado a um leitão
que foi criado por um fazendeiro para, no momento em que esse fazendeiro
decidir, virar churrasco. É como se o fazendeiro dissesse aos seus porcos: “Vou
colocar no espeto todos aqueles porcos que se comportarem como porcos, ou seja,
todos os que chafurdarem na lama, todos os que roerem tudo o que estiver a seu
alcance e também todos aqueles que, se e quando virem uma oportunidade,
tentarem fugir do chiqueiro”.
Aí o fazendeiro
simplesmente faz churrasco todas as semanas porque sempre encontra um porco que
se comportou como porco, e justifica dizendo que o avisou, deu a ele a
oportunidade e o livre-arbítrio para decidir chafurdar ou não chafurdar na lama,
roer ou não roer tudo o que estivesse a seu alcance, tentar fugir quando a
oportunidade se apresenta ou ficar quieto no chiqueiro e não tentar fugir
nunca, mesmo que a porta seja deixada aberta. A comparação parece cruel para
nós, os seres humanos que se julgam tão superiores aos porcos e que pensam ter
criado um deus “à sua imagem e semelhança” tão superior a um criador de
porcos, mas tenho certeza de que o paralelo não é absurdo e o fazendeiro
parece, nesse caso, menos culpado que deus, afinal, o fazendeiro não criou os
porcos a partir do nada.
Sei que os porcos não
têm consciência e nós temos e sei que isso faz de nós seres muito diferentes
dos porcos mas a nossa consciência, se comparada com a consciência de deus, não
seria equivalente à não consciência do porco comparada com a consciência do
fazendeiro? Pelo que afirmam os teístas a respeito da superioridade de deus
sobre nós, a diferença entre nossa consciência e a consciência de deus é
astronômica, acho que todo deísta concordará com qualquer um que disser que a
consciência de deus é infinitamente superior à consciência do mais inteligente
dos seres humanos; portanto, com base no que dizem os próprios teístas, essa comparação
de proporções está longe de ser absurda. Veja: deus está para o homem assim
como o fazendeiro está para o porco; e estou correndo o risco de ser injusta
porque a distância entre a consciência do fazendeiro e a consciência do porco
talvez não seja tão grande assim. O paralelo, portanto, parece perfeitamente
aceitável na hipótese de existir esse deus no qual o ateu insiste em não crer.
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