Sempre que faço uma "previsão" pessimista,
faço "com os dedos cruzados" e com muita vontade de estar errada. Mas
pelo que já vi nas escolas e nas conversas que tive a respeito desse assunto
parece que há uma espécie de "teia de aranha" insidiosa que se vem
construindo há algum tempo e que tem conseguido envolver inclusive alguns
ateus.
Uma vez tive uma conversa bem longa com um ateu que
defendia que o ensino religioso nas escolas era uma boa ideia porque ele achava
que quando nas orientações do MEC está escrito que não é para que os
professores façam proselitismo religioso então os professores não farão
proselitismo religioso e que, como vão ensinar sobre as religiões e suas
histórias de forma indiscriminada e imparcial, os alunos terão conhecimentos
importantes e, segundo ele, até aumentaria o número de ateus. Tive que explicar
a ele que "a teoria na prática é outra".
Tive também um colega no meu curso de Filosofia que
dava aulas de ensino religioso e falava de forma muito convincente sobre como suas
aulas fugiam do proselitismo religioso. Acontece que ele era teólogo formado, ex
seminarista e católico praticante. Por mais convincente que fosse seu discurso,
ele na verdade não me convenceu muito.
Dei aulas em
quatro escolas onde tinha ensino religioso, uma particular e três públicas, e todos
os professores diziam que "não damos aula de religião, damos aula de
cidadania"; e me pareceu, todas as vezes, mesmo quando foi uma freira a
dizer isso, que essas pessoas acreditavam que estavam dizendo a verdade. E os
diretores dessas quatro escolas, mesmo um deles sendo padre, também tinham o
mesmo discurso e a mesma aparente sinceridade.
Acontece que na escola particular, todos os dias, o
professor recebia um pacotinho de folhas de papel que deveria distribuir aos
alunos na turma em que fosse dar a primeira aula, era sempre um pequeno texto
(de cunho religioso) que o professor deveria ler com eles e, se possível, comentar
antes de dar início à sua aula. Eu Ficava imaginando como seria possível que os
comentários dos professores religiosos pudessem deixar de ser proselitismo
religioso diante daquele material. No meu caso, e só porque, como empregada,
não podia deixar de obedecer, entregava os papeis e dizia para os alunos
"A (esqueci o nome da freira) pediu que vocês leiam isso", daí eu
esperava organizando meus papéis e dava minha aula normalmente, sempre
aproveitando (como é comum nas minhas aulas) todas as oportunidades que se
apresentassem para levantar o tema da aberração que é o preconceito de qualquer
tipo, da necessidade de duvidar de tudo (inclusive do que eu estava ensinando)
de pesquisar antes de acreditar em tudo que ouve ou lê e na importância de pensar.
Eu meio que contrariava (sutilmente mas não muito) o que eles liam antes de
começar a primeira aula. Fiquei só um ano nessa escola, embora o salário fosse
bom essa coisa religiosa era torturante para mim.
Quanto às escolas públicas, os professores que diziam
ensinar cidadania e não religião faziam coisas que não condiziam absolutamente
com esse discurso laico. Quando entrava na sala depois de uma aula dessas de
"cidadania" eu sempre tinha que começar apagando algum versículo da
bíblia ou trecho de oração do quadro. Fora isso tinha as comemorações que esses
professores organizavam nos feriados religiosos com seus papéis xerocados com
letras de músicas de igreja e seus cartazes com imagens de santos e de Jesus.
Uma vez uma professora organizou uma "Festa do Dia da Bíblia", foi
uma festa marcante, com direito a apresentação de alunos (teatrinho e
declamação de poemas e textos bíblicos), canto, barraquinhas de docinhos,
exposições de cartazes e presença dos pais; e eu, com minha pouco discreta
ironia, perguntei à minha colega quando seria a "Festa do Dia do Alcorão”.
Meu, precisava ver como a mulher se embaraçou para (não) responder minha
pergunta!
Além disso, nessas escolas tinha outros inconvenientes
muito sérios: Quadros de aviso cheios de imagens e mensagens religiosas na sala
dos professores e nos corredores; convite para que todo mundo se levantasse,
desse as mão e rezasse o Pai Nosso antes de começar qualquer reunião pedagógica
e os conselhos de classe; a abertura de toda festa da escola feita por um padre
ou pastor convidado; o Momento Cívico com uma oração depois do Hino Nacional e
- em uma delas - um verdadeiro culto "pregado" pela diretora
evangélica uma vez por semana para toda a escola no que era chamado também de
"momento cívico" porque tocavam o Hino Nacional antes do culto.
Em todas essas escolas as pessoas estavam tão
envolvidas com isso; os professores, a direção e todo o pessoal da escola; que
nunca vi ninguém reclamar. Exceto eu é claro! E a resposta que me davam sempre,
em todos os casos e todas as vezes, era que "Um pouco de religião não
faz mal para ninguém", "A gente respeita as outras religiões
também, por isso rezamos somente o Pai Nosso e não a Ave Maria",
"Precisamos ensinar valores cristãos para os alunos", "Ninguém
é obrigado (só constrangido) a participar", "Mas essas
frases são tão bonitas!".
Por conta dessa vivência que tive, não consigo ser
muito otimista quanto à força que uma crítica da ONU possa ter. São pessoas
demais achando isso tudo bom e lindo e educativo, e achando que quem é contra é
intolerante.
Reforçando: Desejo, muito muito, estar errada.
PS: Esse texto tem mais de 10 anos, e o tempo provou que eu não estava
errada...infelizmente!
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