Desculpe
se você for uma das pessoas que se definem como tal, mas não acredito na
existência de ex-ateu. E não acredito porque não se pode abrir a mente e depois
fechá-la de novo. Como bem disse Einstein. Com todo respeito aos teístas não
radicais.
E
quando digo "abrir a mente" não estou pensando que todo teísta
tem a mente fechada, no sentido pejorativo. Estou pensando (e afirmando) que
todo teísta tem a mente fechada para os aspectos da sua religião ou do seu
deus. Tenho certeza de que as pessoas não “abrem a mente” na totalidade
e ao mesmo tempo. Fosse assim não haveria pessoas que não são racistas mas são
homofóbicas, não haveria pessoas que se tornam religiosos piedosos mas defendem
o “direito ao porte de armas a todo cidadão”, não haveria biólogos que
sentem prazer no “esporte” da caça ou da pesca. As pessoas, quando o
fazem, abrem a mente a determinadas coisas, libertam-se de determinados
preconceitos, adquirem determinados conhecimentos. Alguns de nós vão abrindo a
mente para uma coisa, depois para outra, às vezes com espaço de anos entre uma
coisa e outra. Talvez ninguém consiga abrir a mente nessa totalidade que
parecemos entender pela expressão “abrir a mente”.
Sei
que existem muitos teístas que têm a mente aberta para uma série de coisas, sei
que muitos deles podem ter, com respeito a um mesmo tema a mente bem mais
aberta do que a mente de alguns ou de muitos ateus. Mas para os temas que
envolvem seu deus e a sua fé, me desculpe mas não. Não e nunca da mesma forma.
Teísmo é crença em deus ou deuses, teísmo envolve fé e fé não é lógica, fé não
é e não tem como ser sinônimo de mente aberta. Abrir a mente para a fé é como
segurar um floco de neve, quando você consegue, ele desapareceu.
Sei
que o ateísmo não é o ápice da racionalidade, aliás, está longe disso. Sei que
existem muitos ateus idiotas, intolerantes e sem noção e muitos teístas
inteligentes, tolerantes e racionais, assim como existem ateus inteligentes,
tolerantes e racionais e teístas idiotas, intolerantes e sem noção. Pessoas são
pessoas e são maravilhosas ou execráveis independentemente da crença que adotam
ou deixam de adotar. Mas, ainda assim, não acho que seja possível ser ateu,
perder a fé, desacreditar da existência de deuses e depois voltar atrás. Se
você desacredita da existência de um ou de alguns deuses, ou de todos os deuses
que conhece, mas existe um tipo de deus em cuja existência você acreditaria sem
provas caso alguém o “apresentasse” a você, ou caso você o “encontrasse”
em um momento específico de sua vida, então você não é ateu, apenas ainda não
encontrou o deus no qual você acredita.
Para
mim um ex-ateu é alguém que nunca foi ateu, apenas pensou que fosse e, depois,
"encontrou" um deus que se adequou às suas expectativas. Esse
teísta continua sempre sendo teísta mas, quando troca de deus com um espaço de
tempo um pouco maior entre um deus e outro do que a maioria, pensa que deixou
de ser ateu. Por favor, entenda que não estou querendo ofender ou dizendo que
há obrigatoriamente algo de errado nisso. Pessoas trocam de deus e de religião
o tempo todo, alguns quando “presenciam um milagre” atribuído a outro
deus, passam a acreditar nele e deixam de acreditar no anterior, outros leem todo
ou trechos do “livro sagrado” do deus no qual acreditava, ficam
horrorizados com o que encontram lá, deixam de acreditar naquele deus e criam
um outro com as “qualidades” e sem os “defeitos” do primeiro e
passam a acreditar em um deus muito pessoal que “não está em nenhum livro”.
Eu fiz isso durante muitos anos, antes de me descobrir ateia. Crer ou deixar de
crer é e deveria sempre ser direito de cada um. Errado é ser intolerante. Só
isso.
Tem
gente que se define como “ateu espiritual” e defende que o ateísmo não
precisa estar desvinculado da espiritualidade. Carl Sagan, em seu livro O mundo
assombrado pelos demônios diz que "A
ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de
espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no
transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza
da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente
espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande
arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de
Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a
espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um
desserviço a ambas." E isso pode parecer um forte indício de que Carl
Sagan pensava da mesma forma porque nesse trecho parece estar afirmando que
também era um “ateu espiritual”.
Acontece
que em um trecho anterior a esse, Sagan explica que “‘Espírito’ vem da palavra latina ‘respirar’. O que respiramos é ar, que
é realmente matéria, por sutil que seja. A pesar do uso em sentido contrário, a
palavra ‘espiritual’ não implica necessariamente que falemos de algo distinto
da matéria [...], ou de algo alheio ao reino da ciência "
O
problema é que as pessoas em geral não usam o termo "espiritual"
no mesmo sentido que Carl Sagan usou. Para a maioria das pessoas,
espiritualidade é uma manifestação do espírito e espírito é “a parte não
material” do ser humano, é um sinônimo de “alma”, aquilo que “o
ser humano tem de imortal”. Isso é pura religiosidade, ou então é algo
semelhante demais a religião para não o ser, e eu, com base nisso, afirmo que
"ser espiritual" contrasta com ser ateu sim porque estou
usando a palavra “espiritualidade” com a conotação que as pessoas em
geral dão a ela, não como o Carl Sagan a usou. E uma pessoa que se defina como
“ateu espiritual" nesse sentido está enganada. Para mim, ou essa
pessoa está a cominho de se tornar ateia ou está naquela fase entre uma religião
(ou religiosidade) e outra. Se alguém é espiritual, esse alguém não é ateu.
Pela
definição, e todo mundo concorda com ela até onde eu sei, ateu é uma pessoa que
não acredita em deuses. E, no meu entender, uma pessoa que não acredita em
determinados deuses, mas acredita em um deus específico assim que "entra
em contato" com ele, não é um ateu. E, de novo para mim, uma pessoa
que não acredita em determinados deuses continua não sendo ateu quando se sente
assim apenas no intervalo entre o desacreditar de tais deuses e o "encontro"
com o deus no qual passa a acreditar. Penso que essa pessoa nunca perdeu a fé,
houve apenas um intervalo no qual ela ainda não tinha conhecido o deus no qual
acredita. Eu, se fosse alguém assim, diria que pensei ser ateia mas depois
descobri que estava enganada, não que fui ateia, ou que agora sou uma ex-ateia.
Muitos
ateus, dentre os quais me incluo, têm problemas sérios com outros ateus e
também com teístas que se dizem “ex-ateus”. Um dos problemas são aqueles ateus
que só sabem ofender, que têm ideias mais conservadoras do que muitos
religiosos e que não conversam, só xingam. Alguns tratam o ateísmo como se
fosse religião, não sabem falar de religiosos a não ser com palavras ofensivas
e se julgam os mais inteligentes seres do planeta apenas por terem lido alguns
posts curtos a respeito de Carl Sagan e Darwin, mas nunca um livro inteiro.
Muitos teístas, porque veem e leem os posts e comentários desses ateus
radicais, pensam que todo ateu é assim. Daí, quando a gente tenta conversar com
eles, esses religiosos começam ofendendo e chamando a gente de "ateu
modinha" e outros nomes bestas assim. Esses ateus prestam um
desserviço não só ao ateísmo, mas também às religiões e aos religiosos
tolerantes e decentes.
Mas,
defendendo os ateus "revoltadinhos", porque não gosto de generalizações,
existem aqueles que se tornaram ateus há pouco tempo e que depois mudam o
discurso e passam a ser bem mais tolerantes. Acho que isso acontece porque
assim que descobre que deus não existe, o ateu descobre que foi enganado,
muitas vezes durante a maior parte de sua vida, e descobre, juntamente, que
quem o enganou foram os religiosos. Daí ficam com raiva e descontam essa raiva
xingando todos os religiosos que encontram. Com o tempo a raiva passa, estudam
mais, convivem mais e deixam de ser o protótipo do ateu "revoltadinho"
para se tornarem ateus que lutam pelo estado laico, que defendem as religiões
menores contra as religiões que pregam ódio e contra os grandes exploradores da
fé que instigam esse ódio em seus cultos. Eles passam a defender também os
religiosos humildes contra esses mesmos exploradores da fé. Eu fui um pouco
assim. Embora não tenha sido violentamente agressiva, tive uma fase na qual
tinha que me controlar mais para não ofender pessoas e às vezes não me segurava
tanto quanto deveria.
Mas
muitos desses ateus intolerantes na verdade não são ateus, são religiosos que
por alguma razão ficaram “de mal” não só com deus como também com os
outros religiosos. Eles estão passando por essa fase entre um deus e outro de
que falei lá em cima e logo se tornam “ex-ateus”. E chegamos ao outro
problema, talvez o mais sério deles, que é quando ateus intolerantes se tornam
”ex-ateus” intolerantes. Eles sobem no púlpito e “dão testemunho”.
Eles demonizam os ateus, “mostram” com meias verdades e mentiras
inteiras o quanto todos os ateus são maus, terríveis, perigosos. Para piorar, alguns
deles não ficam satisfeito em serem “ex-ateus” e se tornam “ex-gays”
prejudicando também, seriamente, a luta pelos direitos da comunidade LGBTQI+. Certamente
tem alguns que só não se tornam ex-negros por falta de possibilidade.
Finalizando,
sem querer ofender nenhuma pessoa, não acredito em ex-ateus porque não vejo possibilidade
de uma pessoa que realmente abandonou qualquer apego a um conceito de
espiritualidade que não seja a de Carl Sagan não vai conseguir tomar essa espiritualidade
de volta. É um salto muito grande, às vezes muito demorado e até dolorido, não
vejo como retroceder depois de realmente ter dado esse passo.
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