O
que eu sempre digo a respeito desse assunto é: "Concordo com quase todos
os argumetos utilizados pelas pessoas que são contra as cotas. Mas mesmo assim,
sou a favor!". Que a educação precisa melhorar, que o professor precisa
ser valorizado, que deveria existir mais vagas nas universidades, que deveriam
admitir mais professores. Tudo isso é fato mais do que falado, é tema de
reivindicações e é verdadeiro desde muito antes de eu entrar no magistério.
Quanto tempo mais as pessoas menos favorecidas terão que esperar se não
existirem as cotas?
Se
de cada 100 que entrarem por cota – e que não entrariam de outro modo – um (um
só!) concluir o curso e se tornar um profissional ativo da área em que se
formou, para mim a cota já valeu minha aprovação. Não tenho dados, mas acho que
o número será maior.
Repito
e repetirei muito tempo ainda: Concordo com praticamente todos os argumentos
dos que são contra as cotas, mas sou a favor! E concordo que se tivesse uma boa
escola pública as cotas não fariam sentido porque os negros têm tanta
capacidade quanto os brancos. Sim, temos que lutar para melhorar a educação,
efetivamente, e não precisaremos de cotas. Verdade, negro pobre é favelado,
negro rico é aceito. Tudo verdade. Mas até quando teremos (ou eles terão) que
esperar? Tudo o que dizem eu já ouço há décadas, e nesse tempo a educação
pública não só não melhorou como piorou.
Como
ficariam os negros sem as cotas? Como os cidadãos de segunda classe que na
prática muitos ainda são, esperando por uma igualdade de oportunidade que nunca
vem? O negro rico é aceito – e mesmo assim não tanto, lembra a rejeição que o
Carlinhos Brown sofreu quando foi morar em um condomínio de luxo? – mas o negro
pobre ainda perde para o branco pobre em muitas situações. Ao contrário de
muitos dos que são contra as cotas e usam todos esses argumentos que citei, eu
não posso dizer que tenho sangue negro em minhas veias – pelo menos não que eu
saiba – mas tomei as devidas providências para que meu filho tivesse, e posso
dizer, meu marido já foi preterido em vaga de emprego por conta da cor.
Mas se você não quiser pensar que isso
ainda acontece, dá para citar pelo menos mais duas situações: Negro é parado
pela polícia com mais frequência muitas vezes com resultados terríveis;
mulheres negras são frequentemente confundidas com empregadas domésticas no
elevador do prédio onde moram. E atenção que meu comentário não pretende ser
nenhuma ofensa às empregadas domésticas! Talvez (só talvez) se esse sistema de
cotas ajudar a ter mais negros com nível superior e, consequentemente, a ter
mais negros em empregos mais valorizados social e financeiramente, as coisas deixem
de ser como são.
Sobre o que falei do Carlinhos Brown,
aqui está o trecho da entrevista em que Chico Buarque, sogro do rapaz, falou do
assunto: “Quer dizer, sem ser diretamente com os meus netos, já aconteceu
uma agressão à casa em que eles moravam. Saíram de lá, a família saiu de lá e
foram para a Bahia. Quando a minha família vem agora, o Carlinhos e os filhos,
eles ficam na casa de Marieta (Severo, atriz), porque ficou desagradável
conviver e morar num condomínio de classe média na Gávea, onde eles eram
claramente indesejáveis, onde foram agredidos. Você não tem o que fazer. Meu
ímpeto era ir lá e chamar o síndico. Perguntar “quem foi que fez isso?”. E não
adianta, é inútil”.
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