25 de junho de 2020

AINDA SOBRE AS COTAS


O que eu sempre digo a respeito desse assunto é: "Concordo com quase todos os argumetos utilizados pelas pessoas que são contra as cotas. Mas mesmo assim, sou a favor!". Que a educação precisa melhorar, que o professor precisa ser valorizado, que deveria existir mais vagas nas universidades, que deveriam admitir mais professores. Tudo isso é fato mais do que falado, é tema de reivindicações e é verdadeiro desde muito antes de eu entrar no magistério. Quanto tempo mais as pessoas menos favorecidas terão que esperar se não existirem as cotas?

Se de cada 100 que entrarem por cota – e que não entrariam de outro modo – um (um só!) concluir o curso e se tornar um profissional ativo da área em que se formou, para mim a cota já valeu minha aprovação. Não tenho dados, mas acho que o número será maior.

Repito e repetirei muito tempo ainda: Concordo com praticamente todos os argumentos dos que são contra as cotas, mas sou a favor! E concordo que se tivesse uma boa escola pública as cotas não fariam sentido porque os negros têm tanta capacidade quanto os brancos. Sim, temos que lutar para melhorar a educação, efetivamente, e não precisaremos de cotas. Verdade, negro pobre é favelado, negro rico é aceito. Tudo verdade. Mas até quando teremos (ou eles terão) que esperar? Tudo o que dizem eu já ouço há décadas, e nesse tempo a educação pública não só não melhorou como piorou.

Como ficariam os negros sem as cotas? Como os cidadãos de segunda classe que na prática muitos ainda são, esperando por uma igualdade de oportunidade que nunca vem? O negro rico é aceito – e mesmo assim não tanto, lembra a rejeição que o Carlinhos Brown sofreu quando foi morar em um condomínio de luxo? – mas o negro pobre ainda perde para o branco pobre em muitas situações. Ao contrário de muitos dos que são contra as cotas e usam todos esses argumentos que citei, eu não posso dizer que tenho sangue negro em minhas veias – pelo menos não que eu saiba – mas tomei as devidas providências para que meu filho tivesse, e posso dizer, meu marido já foi preterido em vaga de emprego por conta da cor.

          Mas se você não quiser pensar que isso ainda acontece, dá para citar pelo menos mais duas situações: Negro é parado pela polícia com mais frequência muitas vezes com resultados terríveis; mulheres negras são frequentemente confundidas com empregadas domésticas no elevador do prédio onde moram. E atenção que meu comentário não pretende ser nenhuma ofensa às empregadas domésticas! Talvez (só talvez) se esse sistema de cotas ajudar a ter mais negros com nível superior e, consequentemente, a ter mais negros em empregos mais valorizados social e financeiramente, as coisas deixem de ser como são.

          Sobre o que falei do Carlinhos Brown, aqui está o trecho da entrevista em que Chico Buarque, sogro do rapaz, falou do assunto: “Quer dizer, sem ser diretamente com os meus netos, já aconteceu uma agressão à casa em que eles moravam. Saíram de lá, a família saiu de lá e foram para a Bahia. Quando a minha família vem agora, o Carlinhos e os filhos, eles ficam na casa de Marieta (Severo, atriz), porque ficou desagradável conviver e morar num condomínio de classe média na Gávea, onde eles eram claramente indesejáveis, onde foram agredidos. Você não tem o que fazer. Meu ímpeto era ir lá e chamar o síndico. Perguntar “quem foi que fez isso?”. E não adianta, é inútil”.

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