“Veja a perfeição e
a beleza do corpo humano, é possível duvidar da existência de deus diante de
tanta maravilha?” É assim que muitas vezes tentam nos convencer de que nós,
ateus, estamos errados, muito errados. Mas eu respondo a essa pergunta: É
possível sim duvidar da existência de deus e mais, é possível duvidar da
perfeição e até da beleza do corpo humano, da mesma forma que é possível
duvidar da perfeição da natureza, da vida e de tudo o mais que vocês dizem ser
a criação perfeita de um deus perfeito. Se olhar bem de perto não vejo muita
dificuldade para encontrar muitas imperfeições nos lugares e nas coisas que
afirmam ser perfeitas, mas agora quero falar apenas do corpo humano, e vou
começar de baixo.
Os pés não são
perfeitos, existem pés grandes demais, existem pés tortos, existem pés chatos,
existem joanetes, calos e pés com unhas deformadas são extremamente comuns. Não
sei como os pés teriam que ser para que fossem perfeitos, mas sei que perfeito
é aquilo que não tem defeitos, e pés têm defeitos demais; perfeitos é que não o
são. Talvez se tivessem uma planta mais grossa e resistente e penugem macia e
colorida, sensível como bigodes de gatos em cima eles fossem melhores do que
são, mas mesmo assim talvez não fossem perfeitos. Um deus perfeito saberia como
teriam que ser os pés para que fossem perfeitos. Talvez eles nem devessem
existir; que tal ventosas em lugar de pés?
As pernas não são
perfeitas, existem pernas curtas demais, longas demais, finas demais, grossas
demais, existem pernas tortas em arco como as do Garrincha e pernas tortas para
dentro, daquelas que fazem com que as pessoas batam um joelho no outro quando
andam; e por falar em joelhos, como em geral os joelhos são feios! Tá, os da Nara
Leão eram lindos, mas o comum é que não passem de dobras de ossos mal
arranjadas, e quando a pessoa é bem magra essa aparência de esqueleto se torna
mais gritante nos joelhos. E pernas têm varizes, têm estrias, têm manchas, têm
acúmulos esquisitos de gordura em pontos determinados formando saliências e
reentrâncias nada atraentes, tem doenças que incham as pernas a ponto de
virarem verdadeiros balões de dor e desconforto, às vezes médicos são obrigados
a amputá-las. Pernas perfeitas não daria defeitos que exigissem amputação. As
pernas, com raras exceções e por um curto espaço de tempo, não são perfeitas.
Vou pular as “partes
pudendas” porque elas merecem um olhar mais crítico e mais cuidadoso que é
melhor deixar pra mais tarde e vou direto à barriga que é muito feia, com sua
cicatriz esquisita e em geral nada estética e com sua tendência a crescer, a
cair, a ficar uma coisa deformada e asquerosa. A maioria das pessoas carrega a
barriga como um fardo, outras passam a vida inteira gastando energia física e
mental, e dinheiro – que poderiam usar para coisas mais úteis – unicamente para
evitar que esse trambolho chamado barriga se torne um marco incontestável de amor-próprio
arrasado e de qualidade de vida diminuída. A barriga é uma das maiores
responsáveis pelo fim dos mais belos romances; e eu não me surpreenderia se em
uma pesquisa se descobrisse que ela é responsável também por um grande número
de suicídios. A barriga está longe de ser perfeita!
Logo atrás da barriga
tem as costas, que são feias, que são difíceis de se alcançar no banho, que
podem ficar tortas com muita facilidade, formando arcos dos mais esquisitos,
que muitas vezes doem porque lá está a coluna vertebral, que costuma dar muitos
problemas, entre eles a chamada hérnia de disco que “trava” muita gente no meio
de um movimento e causa dores atrozes, que têm tendência a ter aqueles ossos
que vulgarmente chamamos “asas” salientes demais, e que na parte lateral de
baixo tendem a criar os famosos “pneuzinhos” que muitas vezes são “de trator” e
que, juntamente com a barriga, são o horror dos horrores. As costas não são
perfeitas.
E ali, dos dois lados
do corpo, entre as costas e o peito, estão os braços, que não são perfeitos
porque são finos e costumam ser frágeis demais a ponto de quebrarem com facilidade
em acidentes diversos, tendem a engrossar com muita facilidade e depois a
“pendurar” essa pele na parte de baixo formando uma pelanca asquerosa que impede
as pessoas de usarem roupas sem mangas ou de dizerem adeus, e tem os cotovelos
que ficam ásperos e que não são elegantes de se apoiar na mesa mas que são
desconfortáveis de não apoiar quando estamos descontraídos. Braços costumam às
vezes ser peludos demais até nas mulheres, e braços peludos demais são feios.
Para finalizar o assunto braços: existe coisa mais feia do que axilas? Não,
decididamente, braços não são perfeitos.
Na extremidade dos
braços estão as mãos, elas são consideradas a maior perfeição do corpo humano;
existem muitos poemas sobre a beleza e o significado das mãos, todos concordam
que é notável a capacidade dessa palma com cinco pontas para criar, e destruir,
coisas fantásticas. A importância das mãos é tal que se poderia dizer que toda
a capacidade intelectual e criativa do ser humano não seria de muita valia se
não existissem as mãos. Mas as mãos também estão sujeitas a deformações e
doenças incapacitantes e doloridas, e só são bonitas em crianças e muito
raramente e por muito pouco tempo em adultos, no geral são feias e ficam mais e
mais feias conforme o tempo passa, mesmo as manequins mais lindas, aquelas que
vivem e sobrevivem – em geral muito bem – da beleza de seu rosto e da magreza
de seu corpo, costumam ter mãos feias, magras, finas e ossudas como garras,
lembram a descrição “manos de gorrion” que García Márquez faz de
Melquíades. Não, eu não sei como deveriam ser as mãos para que fossem
perfeitas, mas sei que, apesar de toda a utilidades que têm, elas não são
perfeitas.
Agora vamos àquela
parte que só as mulheres têm e que é o fetiche de muitos homens adultos e foi a
razão de sobrevivência de muitos homens crianças: os seios. Ah, vão me dizer
que os seios são maravilhosos e perfeitos, que nutrem os bebês, embelezam as
mulheres e atraem os homens. Mas, gente, eles caem! E caem muito rápido, e
caídos ficam muito feios! E, fora isso, às vezes eles são grandes demais e
prejudicam a coluna, ou são pequenos demais e prejudicam a autoestima. Os seios
são ótimos, mas, contrariando a voz corrente, não os acho bonitos; peito é uma
coisa que só fica bem nos homens – na minha opinião, é claro! – mesmo assim, em
alguns homens a área dos mamilos cresce de forma a ficar parecendo seios, ou o
peito é peludo demais, e eu imagino como é ruim depilar peito. Não, com ou sem
seios, peitos decididamente não são perfeitos.
E o pescoço? Pra
começar quebram com facilidade, e quebrar pescoço é morte certa, pescoços doem
e “travam” com as tais torcicolos que doem pra caramba e a gente tem que usar
aqueles “colares” horríveis e desconfortáveis, e tem pescoço muito comprido,
tem pescoço muito curto, tem pescoço muito fino, tem pescoço muito grosso, tem
gente que não tem pescoço, e na parte da frente, rapidinho, a gente desenvolve
rugas e, logo depois, papada, algumas viram uma coisa horrível e balançante
como papo de peru. As plásticas não costumam ter muito sucesso em corrigir
pescoço. Como dizer que são perfeitos? Acho que não dá.
Cabelos? São uma das
partes menos perfeitas do corpo humano, dão um trabalho louco, e um consequente
desperdício de energia e de dinheiro, ficam brancos e caem muito, e nos homens
caem demais e os torna carecas com frequência, são ótimos esconderijos de todo
tipo de parasita (uma imperfeição da natureza) e um ótimo ponto de acúmulo de
todo tipo de sujeira. Não são práticos, não são úteis e são fator de
discriminação e de preconceito. Cabelos são terríveis! Anos luz da perfeição.
Agora uma parada no
rosto. São imensamente variados, mas na grande maioria de nós o rosto é feio,
ou vai ficar feio rapidinho. Rosto tem boca com dentes que se quebram, se
estragam, doem e caem, tem olhos que se cansam, que se tornam menos eficientes
e que precisam de próteses; tem algumas capacidades de expressões lamentáveis.
Muitos rostos nascem com defeitos sérios como olhos grandes ou pequenos demais,
bocas grandes ou pequenas demais; muitos têm dentes tortos, amarelos e feios;
aliás, digamos sinceramente, dentes não costumam ser bonitos. E tem nariz,
testa, queixo, os três podem ser grandes ou pequenos demais, estranhos ou
defeituosos, nariz de batata, testa enrugada, queixo recuado ou saliente
demais, são muitas falhas e possibilidades de falhas. E a pele do rosto é
propensa a todo tipo de ataque interno ou externo, do sol, do vento, do frio,
do calor, criam-se manchas e acnes, a pele fica seca ou oleosa demais; e tem a
terrível deformação das rugas, que no rosto chegam primeiro. Se o corpo humano
fosse perfeito todos os rostos seriam bonitos, ninguém teria cárie e as rugas
jamais surgiriam.
Agora vamos ao que
deixamos de lado: bem no meio do corpo temos, primeiro e mais visível, a bunda.
As bundas podem ser muito atraentes, eu particularmente sempre adorei homem de
bunda arredondadinha, elas são maravilhosos travesseiros e se olhá-las já
excita mais efeito ainda faz o beijá-las e mordê-las. Sou uma apreciadora de
bundas, mas por mais que seja, friamente pensando e olhando (discretamente) as
bundas todas das pessoas que andam pela rua, tornando-me uma “olhadeira”
crítica de bundas (uma bundóloga), sou obrigada a afirmar que a bunda não é perfeita.
Tem bundas achatadas, caídas, estranhas como fraldas, grandes demais, quase
inexistentes; e o pior de tudo: muitas bundas têm – ou terão – celulites e
estrias!
E os órgãos genitais,
aquela parte do corpo responsável pelo prazer e pela procriação, isso é
perfeito? Eu só tenho uma pergunta: Como pode ser perfeito se fica tão perto
dos nossos “buracos excretores”? Aliás, por que temos que ter buracos
excretores? Somos sexuais, nossa fisiologia é feita para que nos sintamos
atraídos por essa parte do corpo do parceiro, podemos até achar que há beleza,
podemos ficar enlouquecidos diante disso, e ficamos! Mas, friamente, se a gente
conseguir olhar de forma desapaixonada, quanta imperfeição! O lugar é sujo, é
feio, cheira mal, excreta melecas, líquidos e pastas asquerosos; é tudo que se
possa ver de imperfeito e, pior do que tudo, é propício a causar doenças. E
ainda tem o lado da impotência e da reprodução: a impotência, e outras
complicações da ereção masculina e do tamanho e formato do pênis que nem sempre
é satisfatório, são fontes de muito sofrimentos e muitos problemas que às vezes
chegam a se tornar traumas e a comprometer toda a vida da pessoa. Como chamar
isso de perfeição? E a dilatação, a dor, o processo todo do parto, que por
sermos nós e por ser ele a “porta” da vida tendemos a afirmar que é magicamente
lindo; na verdade o parto é feio, é imperfeito, é grotesco. Além disso, as
mulheres nascem com um tal de hímen que simplesmente não faz sentido porque
além de em geral causar dor na primeira relação, ainda tem a responsabilidade
de tornar em um inferno a vida de muitos milhões de mulheres por ser uma “prova
de virgindade” que, ao longo da história, vem sendo usada para humilhar e
subjugar as mulheres das formas mais abjetas. Como chamar isso de perfeição?
Agora os partidários da
perfeição do corpo humano vão dizer que minhas críticas foram colocadas pela vaidade,
que fiquei atentando à estética o tempo todo e o tempo todo usando o meu
critério de beleza, que é o critério do meu tempo e da sociedade consumista e
narcisista em que vivo. E é verdade, pelo menos em parte, não tenho como negar.
Mas se tenho um senso estético deturpável e não confiável, se sou capaz de
rejeitar o corpo humano que a mim não pareça bonito, seja eu, agora e com meu
senso estético deturpado pela sociedade de consumo em que vivo, seja a pessoa
dos tempos em que “bonito era ser gordinha” ou o homem da caverna com o senso
estético ditado pela praticidade, pela sobrevivência e pela procriação, esse
senso estético não seria na verdade mais uma imperfeição do corpo humano? Não
seria a imperfeição o que faz com que alguns sejam preteridos em favor de
outros e, pior, com que alguns sejam preteridos por todos os demais? Há,
olhando bem, duas imperfeições que se “abraçam” nesse argumento: É imperfeição
se deixar levar pelo senso estético, no entanto é exatamente o que fazemos e
por isso somos imperfeitos, é imperfeição alguém nascer fora desse senso
estético porque será injustamente rejeitado. Os dois lados mostram que o ser
humano, física, moral e sensivelmente, está muito longe de ser perfeito.
Mas, vão dizer alguns,
e o funcionamento? Olha a perfeição do funcionamento dos órgãos, todos em
harmonia fazendo seu papel para nutrir e movimentar o corpo, para proporcionar
a esse corpo a interação com o mundo exterior, com a natureza e com outros
corpos tão perfeitos quanto ele. Eu olho de novo e não vejo onde está essa
perfeição. Claro que vejo que existe esse concatenamento e uma certa harmonia
que faz funcionar o corpo humano, mas perfeição? O corpo envelhece! Nascem
corpos que funcionam mal! Gente cega, surda, com vários tipos de problemas
internos como coração fraco, rins que não funcionam de forma adequada, cérebros
ineficientes. São múltiplos e vários os defeitos e as possibilidades deles.
Como disse lá em cima, perfeito é aquilo que não tem defeitos e, por mais
maravilhoso que possa ser o corpo de alguns e em determinados momentos, ele
decididamente não está isento de defeitos, sejam eles de nascença ou
adquiridos, portanto não pode ser incluído na categoria de perfeito. E se esse
é um argumento para provar que deus existe, sinto dizer, mas não funciona.
Para um deus que é todo
poderoso, que é perfeito e que é capaz de criar do nada o bom e o perfeito como
afirmam que é a natureza e que somos nós, fisicamente pelo menos, eu diria que
deus fez um trabalhinho bem medíocre. E antes que me perguntem, mordidos e
ofendidos, se eu poderia fazer melhor, respondo: Apesar de até conseguir
imaginar algumas melhoras, provavelmente não poderia fazer algo perfeito, como
estou exigindo aqui, mas é que não sou toda poderosa e não sou perfeita. Sou,
na minha imperfeição, prova bastante conclusiva de que deus não criou a perfeição,
nem física nem mental, no ser humano. E eu diria mais, deus não criou perfeição
em lugar nenhum.
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