22 de junho de 2020

O CORPO HUMANO, A PERFEITA CRIAÇÃO


Veja a perfeição e a beleza do corpo humano, é possível duvidar da existência de deus diante de tanta maravilha?” É assim que muitas vezes tentam nos convencer de que nós, ateus, estamos errados, muito errados. Mas eu respondo a essa pergunta: É possível sim duvidar da existência de deus e mais, é possível duvidar da perfeição e até da beleza do corpo humano, da mesma forma que é possível duvidar da perfeição da natureza, da vida e de tudo o mais que vocês dizem ser a criação perfeita de um deus perfeito. Se olhar bem de perto não vejo muita dificuldade para encontrar muitas imperfeições nos lugares e nas coisas que afirmam ser perfeitas, mas agora quero falar apenas do corpo humano, e vou começar de baixo.

Os pés não são perfeitos, existem pés grandes demais, existem pés tortos, existem pés chatos, existem joanetes, calos e pés com unhas deformadas são extremamente comuns. Não sei como os pés teriam que ser para que fossem perfeitos, mas sei que perfeito é aquilo que não tem defeitos, e pés têm defeitos demais; perfeitos é que não o são. Talvez se tivessem uma planta mais grossa e resistente e penugem macia e colorida, sensível como bigodes de gatos em cima eles fossem melhores do que são, mas mesmo assim talvez não fossem perfeitos. Um deus perfeito saberia como teriam que ser os pés para que fossem perfeitos. Talvez eles nem devessem existir; que tal ventosas em lugar de pés?

As pernas não são perfeitas, existem pernas curtas demais, longas demais, finas demais, grossas demais, existem pernas tortas em arco como as do Garrincha e pernas tortas para dentro, daquelas que fazem com que as pessoas batam um joelho no outro quando andam; e por falar em joelhos, como em geral os joelhos são feios! Tá, os da Nara Leão eram lindos, mas o comum é que não passem de dobras de ossos mal arranjadas, e quando a pessoa é bem magra essa aparência de esqueleto se torna mais gritante nos joelhos. E pernas têm varizes, têm estrias, têm manchas, têm acúmulos esquisitos de gordura em pontos determinados formando saliências e reentrâncias nada atraentes, tem doenças que incham as pernas a ponto de virarem verdadeiros balões de dor e desconforto, às vezes médicos são obrigados a amputá-las. Pernas perfeitas não daria defeitos que exigissem amputação. As pernas, com raras exceções e por um curto espaço de tempo, não são perfeitas.

Vou pular as “partes pudendas” porque elas merecem um olhar mais crítico e mais cuidadoso que é melhor deixar pra mais tarde e vou direto à barriga que é muito feia, com sua cicatriz esquisita e em geral nada estética e com sua tendência a crescer, a cair, a ficar uma coisa deformada e asquerosa. A maioria das pessoas carrega a barriga como um fardo, outras passam a vida inteira gastando energia física e mental, e dinheiro – que poderiam usar para coisas mais úteis – unicamente para evitar que esse trambolho chamado barriga se torne um marco incontestável de amor-próprio arrasado e de qualidade de vida diminuída. A barriga é uma das maiores responsáveis pelo fim dos mais belos romances; e eu não me surpreenderia se em uma pesquisa se descobrisse que ela é responsável também por um grande número de suicídios. A barriga está longe de ser perfeita!

Logo atrás da barriga tem as costas, que são feias, que são difíceis de se alcançar no banho, que podem ficar tortas com muita facilidade, formando arcos dos mais esquisitos, que muitas vezes doem porque lá está a coluna vertebral, que costuma dar muitos problemas, entre eles a chamada hérnia de disco que “trava” muita gente no meio de um movimento e causa dores atrozes, que têm tendência a ter aqueles ossos que vulgarmente chamamos “asas” salientes demais, e que na parte lateral de baixo tendem a criar os famosos “pneuzinhos” que muitas vezes são “de trator” e que, juntamente com a barriga, são o horror dos horrores. As costas não são perfeitas.

E ali, dos dois lados do corpo, entre as costas e o peito, estão os braços, que não são perfeitos porque são finos e costumam ser frágeis demais a ponto de quebrarem com facilidade em acidentes diversos, tendem a engrossar com muita facilidade e depois a “pendurar” essa pele na parte de baixo formando uma pelanca asquerosa que impede as pessoas de usarem roupas sem mangas ou de dizerem adeus, e tem os cotovelos que ficam ásperos e que não são elegantes de se apoiar na mesa mas que são desconfortáveis de não apoiar quando estamos descontraídos. Braços costumam às vezes ser peludos demais até nas mulheres, e braços peludos demais são feios. Para finalizar o assunto braços: existe coisa mais feia do que axilas? Não, decididamente, braços não são perfeitos.

Na extremidade dos braços estão as mãos, elas são consideradas a maior perfeição do corpo humano; existem muitos poemas sobre a beleza e o significado das mãos, todos concordam que é notável a capacidade dessa palma com cinco pontas para criar, e destruir, coisas fantásticas. A importância das mãos é tal que se poderia dizer que toda a capacidade intelectual e criativa do ser humano não seria de muita valia se não existissem as mãos. Mas as mãos também estão sujeitas a deformações e doenças incapacitantes e doloridas, e só são bonitas em crianças e muito raramente e por muito pouco tempo em adultos, no geral são feias e ficam mais e mais feias conforme o tempo passa, mesmo as manequins mais lindas, aquelas que vivem e sobrevivem – em geral muito bem – da beleza de seu rosto e da magreza de seu corpo, costumam ter mãos feias, magras, finas e ossudas como garras, lembram a descrição “manos de gorrion” que García Márquez faz de Melquíades. Não, eu não sei como deveriam ser as mãos para que fossem perfeitas, mas sei que, apesar de toda a utilidades que têm, elas não são perfeitas.

Agora vamos àquela parte que só as mulheres têm e que é o fetiche de muitos homens adultos e foi a razão de sobrevivência de muitos homens crianças: os seios. Ah, vão me dizer que os seios são maravilhosos e perfeitos, que nutrem os bebês, embelezam as mulheres e atraem os homens. Mas, gente, eles caem! E caem muito rápido, e caídos ficam muito feios! E, fora isso, às vezes eles são grandes demais e prejudicam a coluna, ou são pequenos demais e prejudicam a autoestima. Os seios são ótimos, mas, contrariando a voz corrente, não os acho bonitos; peito é uma coisa que só fica bem nos homens – na minha opinião, é claro! – mesmo assim, em alguns homens a área dos mamilos cresce de forma a ficar parecendo seios, ou o peito é peludo demais, e eu imagino como é ruim depilar peito. Não, com ou sem seios, peitos decididamente não são perfeitos.

E o pescoço? Pra começar quebram com facilidade, e quebrar pescoço é morte certa, pescoços doem e “travam” com as tais torcicolos que doem pra caramba e a gente tem que usar aqueles “colares” horríveis e desconfortáveis, e tem pescoço muito comprido, tem pescoço muito curto, tem pescoço muito fino, tem pescoço muito grosso, tem gente que não tem pescoço, e na parte da frente, rapidinho, a gente desenvolve rugas e, logo depois, papada, algumas viram uma coisa horrível e balançante como papo de peru. As plásticas não costumam ter muito sucesso em corrigir pescoço. Como dizer que são perfeitos? Acho que não dá.

Cabelos? São uma das partes menos perfeitas do corpo humano, dão um trabalho louco, e um consequente desperdício de energia e de dinheiro, ficam brancos e caem muito, e nos homens caem demais e os torna carecas com frequência, são ótimos esconderijos de todo tipo de parasita (uma imperfeição da natureza) e um ótimo ponto de acúmulo de todo tipo de sujeira. Não são práticos, não são úteis e são fator de discriminação e de preconceito. Cabelos são terríveis! Anos luz da perfeição.

Agora uma parada no rosto. São imensamente variados, mas na grande maioria de nós o rosto é feio, ou vai ficar feio rapidinho. Rosto tem boca com dentes que se quebram, se estragam, doem e caem, tem olhos que se cansam, que se tornam menos eficientes e que precisam de próteses; tem algumas capacidades de expressões lamentáveis. Muitos rostos nascem com defeitos sérios como olhos grandes ou pequenos demais, bocas grandes ou pequenas demais; muitos têm dentes tortos, amarelos e feios; aliás, digamos sinceramente, dentes não costumam ser bonitos. E tem nariz, testa, queixo, os três podem ser grandes ou pequenos demais, estranhos ou defeituosos, nariz de batata, testa enrugada, queixo recuado ou saliente demais, são muitas falhas e possibilidades de falhas. E a pele do rosto é propensa a todo tipo de ataque interno ou externo, do sol, do vento, do frio, do calor, criam-se manchas e acnes, a pele fica seca ou oleosa demais; e tem a terrível deformação das rugas, que no rosto chegam primeiro. Se o corpo humano fosse perfeito todos os rostos seriam bonitos, ninguém teria cárie e as rugas jamais surgiriam.

Agora vamos ao que deixamos de lado: bem no meio do corpo temos, primeiro e mais visível, a bunda. As bundas podem ser muito atraentes, eu particularmente sempre adorei homem de bunda arredondadinha, elas são maravilhosos travesseiros e se olhá-las já excita mais efeito ainda faz o beijá-las e mordê-las. Sou uma apreciadora de bundas, mas por mais que seja, friamente pensando e olhando (discretamente) as bundas todas das pessoas que andam pela rua, tornando-me uma “olhadeira” crítica de bundas (uma bundóloga), sou obrigada a afirmar que a bunda não é perfeita. Tem bundas achatadas, caídas, estranhas como fraldas, grandes demais, quase inexistentes; e o pior de tudo: muitas bundas têm – ou terão – celulites e estrias!

E os órgãos genitais, aquela parte do corpo responsável pelo prazer e pela procriação, isso é perfeito? Eu só tenho uma pergunta: Como pode ser perfeito se fica tão perto dos nossos “buracos excretores”? Aliás, por que temos que ter buracos excretores? Somos sexuais, nossa fisiologia é feita para que nos sintamos atraídos por essa parte do corpo do parceiro, podemos até achar que há beleza, podemos ficar enlouquecidos diante disso, e ficamos! Mas, friamente, se a gente conseguir olhar de forma desapaixonada, quanta imperfeição! O lugar é sujo, é feio, cheira mal, excreta melecas, líquidos e pastas asquerosos; é tudo que se possa ver de imperfeito e, pior do que tudo, é propício a causar doenças. E ainda tem o lado da impotência e da reprodução: a impotência, e outras complicações da ereção masculina e do tamanho e formato do pênis que nem sempre é satisfatório, são fontes de muito sofrimentos e muitos problemas que às vezes chegam a se tornar traumas e a comprometer toda a vida da pessoa. Como chamar isso de perfeição? E a dilatação, a dor, o processo todo do parto, que por sermos nós e por ser ele a “porta” da vida tendemos a afirmar que é magicamente lindo; na verdade o parto é feio, é imperfeito, é grotesco. Além disso, as mulheres nascem com um tal de hímen que simplesmente não faz sentido porque além de em geral causar dor na primeira relação, ainda tem a responsabilidade de tornar em um inferno a vida de muitos milhões de mulheres por ser uma “prova de virgindade” que, ao longo da história, vem sendo usada para humilhar e subjugar as mulheres das formas mais abjetas. Como chamar isso de perfeição?

Agora os partidários da perfeição do corpo humano vão dizer que minhas críticas foram colocadas pela vaidade, que fiquei atentando à estética o tempo todo e o tempo todo usando o meu critério de beleza, que é o critério do meu tempo e da sociedade consumista e narcisista em que vivo. E é verdade, pelo menos em parte, não tenho como negar. Mas se tenho um senso estético deturpável e não confiável, se sou capaz de rejeitar o corpo humano que a mim não pareça bonito, seja eu, agora e com meu senso estético deturpado pela sociedade de consumo em que vivo, seja a pessoa dos tempos em que “bonito era ser gordinha” ou o homem da caverna com o senso estético ditado pela praticidade, pela sobrevivência e pela procriação, esse senso estético não seria na verdade mais uma imperfeição do corpo humano? Não seria a imperfeição o que faz com que alguns sejam preteridos em favor de outros e, pior, com que alguns sejam preteridos por todos os demais? Há, olhando bem, duas imperfeições que se “abraçam” nesse argumento: É imperfeição se deixar levar pelo senso estético, no entanto é exatamente o que fazemos e por isso somos imperfeitos, é imperfeição alguém nascer fora desse senso estético porque será injustamente rejeitado. Os dois lados mostram que o ser humano, física, moral e sensivelmente, está muito longe de ser perfeito.

Mas, vão dizer alguns, e o funcionamento? Olha a perfeição do funcionamento dos órgãos, todos em harmonia fazendo seu papel para nutrir e movimentar o corpo, para proporcionar a esse corpo a interação com o mundo exterior, com a natureza e com outros corpos tão perfeitos quanto ele. Eu olho de novo e não vejo onde está essa perfeição. Claro que vejo que existe esse concatenamento e uma certa harmonia que faz funcionar o corpo humano, mas perfeição? O corpo envelhece! Nascem corpos que funcionam mal! Gente cega, surda, com vários tipos de problemas internos como coração fraco, rins que não funcionam de forma adequada, cérebros ineficientes. São múltiplos e vários os defeitos e as possibilidades deles. Como disse lá em cima, perfeito é aquilo que não tem defeitos e, por mais maravilhoso que possa ser o corpo de alguns e em determinados momentos, ele decididamente não está isento de defeitos, sejam eles de nascença ou adquiridos, portanto não pode ser incluído na categoria de perfeito. E se esse é um argumento para provar que deus existe, sinto dizer, mas não funciona.

Para um deus que é todo poderoso, que é perfeito e que é capaz de criar do nada o bom e o perfeito como afirmam que é a natureza e que somos nós, fisicamente pelo menos, eu diria que deus fez um trabalhinho bem medíocre. E antes que me perguntem, mordidos e ofendidos, se eu poderia fazer melhor, respondo: Apesar de até conseguir imaginar algumas melhoras, provavelmente não poderia fazer algo perfeito, como estou exigindo aqui, mas é que não sou toda poderosa e não sou perfeita. Sou, na minha imperfeição, prova bastante conclusiva de que deus não criou a perfeição, nem física nem mental, no ser humano. E eu diria mais, deus não criou perfeição em lugar nenhum.

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