22 de junho de 2020

O DEUS DE SPINOZA


Não consigo perceber como a existência do universo possa ser evidência de existência de deus, de qualquer tipo de deus. Chamar o universo de deus, ou a natureza de deus, significa apenas que se deu outro nome para uma determinada coisa, natureza continua sendo natureza e universo continua sendo universo. Nenhum dos dois se transforma em deus só porque foi chamado por esse nome.

Já li a respeito do deus de Spinoza em mais de um lugar, inclusive no próprio Spinoza, mas não me convence. Desculpe, não quero parecer pretenciosa, prepotente ou mais sábia do que ninguém. Apenas estou usando meu direito de pensar e pensando. E penso que todos os textos que li e vídeos que vi sugerem, para mim, que dar outro nome a alguma coisa não é suficiente para torná-la essa coisa.

O principal problema, para mim, é que os atributos que Spinoza diz ser comum a deus e ao universo, embora possam até parecer um argumento forte, e talvez fosse mesmo muito forte na época em que Spinoza escreveu, não se sustentam em muitas vertentes de pensamentos que temos hoje. Não podemos atribuir a onipotência, a onipresença, a onisciência e a eternidade ao universo e isso, até onde eu sei, é um fato. Não conhecemos o universo o suficiente para dar a ele tais atributos e pretender que estamos certos. Então, para mim, voltamos à questão da nomenclatura: Chamar o universo de deus é apenas dar outro nome para a mesma coisa.

Percebo o raciocínio quando o defendem, mas sempre o vejo como ineficiente. Conhecemos tão pouco do universo! Temos várias conjecturas sobre o que ele seria mas, até onde eu sei, temos poucas certezas, se é que temos alguma, e não podemos nos atrever a comparar o universo a nada que se conheça em nenhum lugar, exceto como hipótese, nunca como afirmação porque faltam dados. Não dá para fazer paralelos positivos! Por isso não consigo pensar que a afirmação de que universo e deus são a mesma coisa possa ter qualquer validade, seria apenas uma hipótese sem nenhum fundamento inquestionável ou provável. Portanto, não é evidência.

Não sei sequer se o "conjunto de tudo o que existe" ou "toda a potência" pode ser realmente chamado de universo. Afinal, a hipótese do multiverso é uma das que, me parece, meio que coloca isso tudo em questão.

E se vamos falar em significado de uma palavra, onipotência, a meu ver seria todo o poder e não toda a energia ou toda a possibilidade. É dessa forma que os religiosos definem o atributo que dão a seu deus. Mas se for colocar como toda a potência, toda a possibilidade, ainda assim, não se pode afirmar que esse "todo" está contido no universo. Pode estar espalhado em múltiplos universos, por exemplo. E muito provavelmente o universo não é consciente e, até onde eu vi, todos os que defendem a existência de deus o defendem como consciência. Daí que chamar deus de universo ou universo de deus não se aplicaria.

Além disso, acho que chamar o universo de deus não é a mesma coisa de chamar o multiverso de deus. Afinal, é multiverso ou universo, e pode ser N outras coisas. O fato é que não sabemos.

Enfim, o que quero dizer é que para mim chamar universo de deus é muito simplista e trata apenas do que é desconhecido. Então não dá pra chamar nada que sai desse tipo de raciocínio de evidência.

Entendo o raciocínio, apenas acho que o nome deus para o universo continua sendo impróprio e uma simples questão de nomenclatura ou, como disse alguém, se não me engano Nietzsche, um desperdício de palavra. Fica ainda mais estranho se pensar nos atributos do deus abraônico que. além da onipotência, ainda tem os outros dois, a onipresença e a onisciência, ou quatro se acrescentar a bondade e a justiça que sempre estão atrelados às definições de deus que os religiosos nos apresentam.

Para tudo isso e diante de tudo isso, se levar em conta toda a nossa ignorância, me parece muito inadequado usar a nomenclatura deus para universo. Esse nome “deus”, para mim, define algo tão menos, tão pouco, tão fraco. Deus é um nome muito bobo para dar à natureza e ao universo, principalmente quando nos damos conta de que estamos nos referindo a esse todo mais amplo no qual mal conseguimos pensar quando falamos em universo. É como eu vejo. Acho que Spinoza só chamou deus à natureza por não ter realmente conseguido sair do teísmo.

Nenhum comentário: