Se você é religioso,
mas não frequenta nenhuma igreja; se você acredita em deus sem as amarras e a
prisão dos dogmas e preconceitos das religiões institucionalizadas; se você
apenas sente que tudo que tem e faz (orações, pensamentos, gestos e objetos
místicos) te dão proteção e conforto, tenho algo para te contar: Eu te entendo
muito bem porque já me senti como você.
Durante muitos anos não
tive nenhuma religião, mas não deixava de ter um certo conforto místico, mesmo
que na maior parte do tempo se resumisse apenas a cruzar os dedos e pensar algo
do tipo "Deus me ajude". A coisa mudou quando comecei a olhar para os
lados e pensar a respeito. Pensar mesmo entende? Associando o que via com o meu
sentimento de conforto, coisa que normalmente a gente não faz quando tem algum
tipo de crença que envolve deus, mesmo que seja um deus light, do tipo "Só
meu", "Diferente do deus das igrejas", "Aquele
com quem converso como quem fala com um amigo".
Pois bem, meio sem
querer comecei a pensar muito nisso e percebi que um deus assim, por mais
diferente que fosse, não me interessava porque se ele tinha poder para me ajudar
a não estar resfriada no dia que eu tinha um compromisso importante mas não
fazia nada para ajudar crianças que tinham algum tipo de vírus que as mataria
depois de muito sofrimento, então não era um amigo assim tão legal porque se até
pessoas legais são justas (ou procuram ser), um deus bom teria que ser mais justo
ainda, e esse meu “amigo” não estava sendo justo. Como digo sempre, não
sei apreciar a injustiça mesmo quando sou favorecida por ela.
Sobre muitas outras
coisas que me davam conforto comecei a fazer associações desse tipo. Por que a
ajuda vinha para mim e não para o outro que muitas vezes eu via que merecia
mais do que eu? Como ajudava a mim e não as crianças, que sempre merecem mais
do que eu? Meu senso de justiça começou a gritar cada vez mais alto e o meu
conforto foi se tornando muito desconfortável.
Eu não podia ver alguém
sofrendo sem comparar essa pessoa comigo e perguntar por que meu “amigo”
não a ajudava. Não houve, que eu me lembre, um fato marcante que desencadeasse
esse meu pensamento, apenas foi acontecendo. Fui pensando e comparando, não
conseguia me impedir de pensar, não conseguia deixar de comparar os grandes
sofrimentos com minhas insignificantes mazelas, ou mesmo com meus sofrimentos
realmente significativos, quando me livrava deles (graças a deus) e me
comparava com outras pessoas - muitas vezes claramente melhores do que eu - que
tiveram o mesmo sofrimento e não a mesma sorte.
Então comecei a ler
textos sobre ciência, textos de cientistas e de filósofos céticos e ateus.
Comecei a escrever sobre minhas dúvidas e meus pensamentos e mandar para meus
contatos de e-mail, isso foi antes das redes sociais, nem Orkut existia. Muito
poucos conversavam comigo, alguns me pediam que parasse de mandar “esse tipo”
de e-mail e outros respondiam me xingando e me mandando para o inferno.
Um dia uma ex-aluna que
se tornou uma amiga muito querida sentou do meu lado, me colocou no Orkut e fez
o meu primeiro blog. Comecei a publicar meus textos, comecei a “conversar”
com pessoas que pensavam como eu e com religiosos que tentavam me explicar suas
crenças e o porquê delas. Eles não conseguiam me convencer. Nunca conseguiram.
Dessa forma, lendo
textos e falando com pessoas pelo computador (Porque não conhecia nenhum ateu
pessoalmente), acabei concluindo que já era ateia há muito tempo, só não tinha
percebido isso ainda.
Será que não é esse o
seu caso? Será que você não está na fase em que eu estava quando tinha um deus “diferente”
só meu?
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