25 de junho de 2020

PRIMEIRO DIA DE 38


Ontem foi festa, sem ter festa, mas é o clima. Não me preocupei com nada, fiquei só “sabendo” que o dia me pertencia, não fiz nada diferente, não me deprimi por não ser lembrada, não me surpreendi por ser festejada, apenas passei o dia trabalhando, andando, falando e, o tempo todo, “sentindo” meu dia.

Hoje não, hoje meu dia passou e de verdade acordei com 38. Não me sinto diferente do dia anterior ao meu dia, quando ainda estava com 37, mas sei que estou mais perto do dia em que estarei naquela casa de onde só sairei quando sair da vida, a casa dos “enta”

Ter 38 é como conviver com um diabinho invisível, eu não posso senti-lo, ouvi-lo ou vê-lo, mas sei que ele está aí, tenho consciência dele em tempo integral e sei que ele está fazendo coisas comigo. Ele é pequeno e carrega pouco por vez, mas está me levando para o nada, ou trazendo o nada para mim. não começou hoje, lógico, ele sou eu e está comigo desde sempre, mas eu vivi alguns anos sem saber que ele está me matando.

Meu primeiro dia de 38 embora não mude nada em relação às coisas dentro e à minha volta, é um marco, ciente ou inconsciente do dia em que deus em forma de natureza, vai me reciclar. Ah, se essa fosse a parte ruim disso! O ruim mesmo é o “chamado da mãe terra” a pele do corpo todo que se solta aos poucos dos ossos e está descendo ao encontro da terra. A lei da gravidade, infalível, está agindo no meu corpo agora.

Estava voltando para casa, o ônibus quebrou. Um dia também quebrarei, não terei mais conserto, ou terei, o fato é que já sou a geração a ser substituída. Ser olhada como nada e ser chamada de “senhora” me deprime. O maior castigo da vida não é existir morte, é existir a velhice, ela faz com que tudo se acabe antes e aos 38 muita coisa já acabou. Fica o vazio que não é morte, que não se pode lamentar porque aos pessimistas não é dado o direito de se expor porque eles dirão o que sentem, todos, vão colocar o dedo em uma feria e rasgar com as unhas.



Mais de mês de 38



Tudo bem, como sempre nada mudou realmente. Super mudanças acontecem devagar, a gente nem nota. Quando comecei a me sentir velha? Quando fui chamada de “senhora” pela primeira vez? Não, eu estava grávida.



PS: Isso aconteceu há mais de 20 anos.

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