25 de junho de 2020

ACREDITAR EM DEUS


Tem gente que acredita em deus, estão em maioria, são felizes porque colocam tudo “nas mãos de deus” e vivem suas vidas esperando pela eternidade no paraíso, uma felicidade eterna prometida para depois da morte. Eu não consigo, não sei, não tenho condições de acreditar nisso tudo: nem em deus nem em paraíso eterno. No final das contas quem sai mal nessa sou eu, afinal, acreditar em um deus criador faz bem e dá paz às pessoas.

Não é por querer, não é de propósito, é por incapacidade mesmo. Eu não ficaria bem e não me sentiria nunca em paz com esse deus criador caso acreditasse na existência dele. Tenho que ser ateia para não odiar deus porque, para mim, caso existisse, o único sentimento que eu seria capaz de nutrir por ele seria esse: ódio. E eu odeio odiar! O amor é tão melhor e tão mais gostoso! Sou ateia para não odiar, fico livre e leve sendo ateia, não me sentiria livre se acreditasse.

Tem gente que admite a existência de deus e a admite com base na razão, pelo menos é o que afirmam, e nomes famosos como Tomás de Aquino tiveram um trabalhão para ajudar essas pessoas que querem crer com base na razão. Mas aí está um problema grande para mim: por mais que leia Tomás de Aquino, minha razão não consegue admitir a existência de um deus criador. Não consigo pensar em um deus que, sendo todo poderoso e todo bom, fosse capaz, conscientemente, de criar o mundo e a vida como ela é. Minha razão não consegue casar uma bondade suprema aliada a um poder supremo que crie, por exemplo, coisas que matam crianças; sejam essas coisas outros seres humanos, vírus, bactérias, catástrofes naturais, parasitas, não importa. Para mim, um deus bom seria incapaz de criar algo que mate crianças. E esse é só um dos motivos que levam a minha razão a rejeitar a possibilidade da existência de deus.

Tem as pessoas que costumam não se ligar a nenhuma religião tradicional, apenas aceitam a ideia de um criador mas acreditam que ele não interfere na criação. Para a minha razão, dentro desse juízo, o deus fica pior ainda. Ele cria todo esse circo de horrores que é a vida, coloca suas criaturas inseridas numa corrente macabra de sangue e de morte e deixa que se virem como puderem sem tomar conhecimento e sem se importar com o que acontece. Se ele criou e saiu de perto, não está nem olhando, não sabe nem quer saber o que rola, ele é mal por omissão; se criou e fica só olhando sem interferir, é mal por sadismo. Não sei em qual dos dois casos eu o julgaria pior.

Outros dizem que deus não interfere por causa do livre-arbítrio, difícil ver desculpa mais sem nexo do que essa. Então uma criança quando é estuprada tem o livre-arbítrio de se negar ao estuprador? Um bebê quando é espancado tem o livre-arbítrio de se negar ao seu algoz? Uma criança quando acometida por uma doença tem o livre-arbítrio de se negar ao vírus, bactéria ou parasita que a esteja matando? Não, eu não consigo entender essa história de livre-arbítrio, que parece ser apenas mais uma mentira criada para inocentar deus e fazer com que se continue acreditando nele apesar de todas as evidências em contrário.

O livre-arbítrio me parece uma espécie de coringa que as pessoas tiram da manga para justificar o injustificável. Puxam essa carta e a mostram com a certeza de que dessa forma encerram o assunto e ganham qualquer discussão. Mas como? Não entendo um deus todo bom e tão poderoso que, com a desculpa de um livre-arbítrio que ninguém pediu, se omitisse de ajudar criaturas que ele mesmo, em sua maldade suprema, criou e colocou para sofrer nesse teatro macabro. Então querem me convencer de que um filhote de foca tem livre-arbítrio para fugir do predador? Ou o livre-arbítrio é coisa só de homens e só de adultos? Eu pediria que me explicassem porque não consigo entender, mas sei que quanto mais as pessoas me explicarem menos entenderei e menos concordarei com a possibilidade, inviável e absurda, de um criador bom e poderoso que fizesse esse papel infeliz.

Algumas pessoas deixam de crer em deus quando enfrentam problemas graves, não foi o meu caso, acho que nem sequer deixei de crer, simplesmente descobri que não acreditava, descobri que já desde muito não negava deus simplesmente porque me negava a pensar no assunto, quando pensei vi que a crença firme que costuma estar dentro das pessoas nunca esteve dentro de mim. Tem gente que deixa de crer por raiva, acontece uma desgraça e a pessoa vê que deus, embora tenha sido chamado, não esteve lá para ajudar e conclui que ele não existe. Mas tem também o contrário; tem aqueles que passam a crer em deus, e às vezes se tornam fanáticos, justamente quando enfrentam um problema grave e o superam.

Acho hilário que alguém consiga fazer isso! A situação fica assim: Milhares de pessoas têm câncer todo ano e milhares de pessoas morrem de câncer todo ano, mas se eu tenho um câncer e consigo escapar, tomo isso como prova de que deus existe e me curou e esqueço os milhares que ele não curou. É como se eu estivesse afirmando que deus curou a mim porque sou melhor do que todo mundo e mereço mais do que todo mundo. Pessoas se tornam religiosas por causa de coisas assim e pessoas que já eram religiosas vivem fazendo alegações desse tipo como se isso fosse uma prova inquestionável da existência de deus e de sua suprema bondade. Elas fazem isso o tempo todo e a respeito de qualquer coisa! Até o fato de não ter chovido antes que ela chegasse em casa é motivo para dizer que foi deus quem “segurou” a chuva porque naquele dia ela - a pessoa mais importante do universo - saiu de casa sem guarda-chuva. Não consigo ver isso se não como piada. Piada de mau gosto.

Acho que é muito convencimento, muita pretensão, muito egoísmo por parte das pessoas agirem e pensarem assim e, no entanto, é exatamente como elas pensam e agem. Se um ônibus escolar sofreu um acidente e de trinta e cinco crianças uma escapou e é meu filho, vou dizer que foi milagre e que deus é bom e misericordioso porque salvou meu filho, e danem-se as outras trinta e quatro crianças que morreram e os sessenta e oito pais que perderam seus filhos! Essa visão tacanha chega a me dar raiva!

Fala-se muito também em “Justiça Divina”. Acho que não entendo bem isso de justiça divina, onde está ela que não a vejo em canto nenhum desse mundo em que vivo?  Dizem que todos temos a mesma capacidade. Mas basta olhar para ver que um aleijado, um portador de síndrome de down, um órfão jogado em orfanatos-depósitos ou nas ruas para comer cola e craque não têm a mesma capacidade - porque não têm a mesma oportunidade - de uma pessoa que nasce perfeita em um lar saudável; basta olhar para ver que uma leoa albina não tem a mesma capacidade de sobrevivência que tem um leão saudável. Não dá para falar em justiça se a gente for por aí.

Eu não sei, não consigo ver igualdade e justiça na criação e na “manutenção” desse mundo que me garantem ter sido criado por um deus justo. Pessoas que acreditam dizem que nós somos parte do criador e saber disso faz com que essas pessoas se sintam bem, no meu caso, se acreditar em um criador e me sentir parte dele me sentirei muito mal porque saberei que sou parte de algo pior do que eu ou qualquer pessoa consegue ser... Espero mesmo que esse criador não exista e que eu não seja parte dele e nunca me sinta como tal, seria terrível pra mim, já não tenho um amor-próprio dos mais evoluídos, sabendo-me parte desse ser que consideraria abominável caso existisse, eu teria que odiar muito ser o que sou, prefiro continuar sendo ateia para que, já que não posso me amar porque sei que sou um ser cheio de defeitos e falhas e não tenho o poder de corrigir os piores deles, que eu consiga ao menos não me odiar.

Tem gente que diz, diante desses sofrimentos inexplicáveis, que eles fazem parte da justiça de deus, que essas pessoas que sofrem dessa forma são as que, em uma outra vida, fizeram alguém sofrer. Quanto a isso achei demais a colocação de uma amiga sobre o algoz! Ela se pergunta se o algoz teria como “missão” prejudicar sua vítima e se, portanto, está isento de castigo. No caso daqueles que acreditam que o que sofremos aqui é causado por algo de ruim que tenhamos feito em outra vida (ou mesmo nessa), a pergunta faz sentido. Se fosse acreditar num deus que castiga numa encarnação os pecados da encarnação anterior, essa colocação seria perfeita! Deus poderia ter realmente feito com que o cara nascesse com a “missão” de estuprar a fulana que, em encarnação anterior, foi um homem e estuprou alguém; e esse estuprador em uma próxima encarnação nasceria com a “missão” de ser estuprado para pagar pelo seu crime; isso gera uma corrente sem possibilidade de fim, acho.

Para mim o algoz, quando é um ser humano, é uma criação com defeito e contraria nele mesmo e na sua existência a própria definição de deus como ser perfeito. Se existisse um deus e ele fosse perfeito não criaria seres imperfeitos, ou seja, com defeitos físicos ou mentais, como aleijões, má formação ou taras para estupro, pedofilia e outras aberrações que, infelizmente, são mais comuns do que a gente pensa, e não adianta dizerem que é culpa do nosso mundo atual que, por causa da poluição e dos ataques à natureza e ao corpo, tem propiciado o nascimento de pessoas assim, isso é mentira, ou no mínimo exagero; pessoas com defeitos e doenças mentais sempre existiram, muito antes de que pudéssemos sequer pensar em ter algum poder sobre a natureza. Na minha opinião cada estupro, cada assassinato, cada violência que acontece no mundo prova a inexistência de deus.

Não sei se estou correta em algum ponto do que penso, mas mesmo que não esteja em ponto nenhum, o meu problema é que simplesmente não consigo ver a coisa toda de outro modo. Cada vez que vejo uma notícia ruim no jornal, seja um desastre causado por algum fenômeno natural como tempestade ou terremoto ou um crime cometido por um ser humano, vejo nessa notícia a confirmação da impossibilidade de existência de um deus criador que seja consciente e bom. Estou em um mundo que de forma alguma poderia ter sido criado por um personagem como esse. É como me sinto.

Tenho uma amiga espírita, aliás, uma amiga de quem gosto muito. Estamos afastadas já faz um tempo porque a vida nos levou para lados diferentes, ficamos então com os “oi, eu te amo” que a gente troca pelas redes sociais. Ela já me falou um bocado de coisas a respeito do espiritismo, acho que não é uma doutrina hipócrita como muitas das religiões cristãs e não cristãs que eu conheço pouco mais ou pouco menos, mas não consegui me convencer porque, pra variar, tem coisas demais que eu questiono: o próprio número de habitantes do planeta durante o tempo que a história marca como “a evolução do homem na terra” dificulta bastante a compreensão do que o espiritismo aceita como verdade. A pergunta é: De onde vieram tantas almas tendo a população do planeta aumentado tanto? Pela teoria de que cada alma reencarna num processo de evolução até se tornar algo especial que eu não sei exatamente o que seja, a lógica seria que a população do mundo diminuísse e não o contrário. Mas esse não é o mais grave problema para mim, tem o detalhe de qual eu reencarnaria; sim porque eu sou muitas, eu-velha não sou a mesma eu-adulta e não sou a mesma eu-jovem e não sou a mesma eu-adolescente e por aí vai. Qual dessas eu, múltiplas e tão diferentes, terá o privilégio de reencarnar? Nenhuma resposta que consiga imaginar para essa pergunta consegue me convencer de que isso faça sentido. Mas a pergunta mais terrível mesmo é outra: se estamos vivendo e evoluindo, se estamos reencarnando sucessivamente a fim de aperfeiçoar quem somos, então por que não evoluímos como espécie? Por que ainda temos os crimes, os abusos de poder, as aberrações que tínhamos desde que habitamos o planeta? 

Além de tudo isso, o espiritismo é também cristão, também acredita em deus, na bondade de deus, e em Jesus e no fato de que ele foi esse cara que o Paulo de Tarso inventou que ele era. Não levo Jesus muito a sério, ele está no meu nome e tudo, mas não boto muita fé na existência dele não. Acho que pode até ter existido uma pessoa (ou mais) com esse nome, que andou pregando por aqueles desertos e que morreu na cruz, mas acho que, se existiu essa pessoa, ele e sua história foram muito diferentes do que nos pregam e do que está na bíblia. Sei que para os espíritas Jesus foi apenas uma alma mais evoluída, mas acho que nem isso ele foi. Acho que, caso tenha existido, foi um Antônio Conselheiro da Palestina; mais um profeta meio maluco que conseguiu levar desesperados na conversa, só isso.

Pronto! Sou uma herege mesmo! Não só não acredito no pai como não acredito no filho. O espírito santo então, nesse é que não acredito mesmo!

Voltando a Jesus, fala-se da força de seu exemplo. A primeira vez que fiquei decepcionada com o exemplo de Jesus foi a primeira vez que li a bíblia. Ele trata a própria mãe com uma falta de respeito e de mínima educação que não condiz de forma alguma com o comportamento de alguém que tem exemplos a dar. Me lembra aquela recomendação romântico-social: “Não se apaixone nunca por um rapaz, por mais perfeito que ele seja ou aparente ser, se ele, em um restaurante, tratar mal o garçom”, porque se alguém não é capaz de tratar com educação e respeito uma pessoa que está em determinado momento em uma situação social inferior, é porque essa não é na verdade uma boa pessoa. Na minha visão Jesus fez muito pior do que tratar mal o garçom.

Tem mais uma porção de coisinhas sobre ele que pra mim não casam, por exemplo aquela história de colocar demônios nos corpos dos porcos e depois levá-los à morte, que culpa têm os coitados dos porcos? E as curas então! Por que, se tinha poder dado pelo seu pai, ao invés de curar uma meia dúzia de leprosos, ele não curou logo a lepra? Por que ressuscitar alguém da família e não uma criança que teria a vida toda pela frente? Por que ele, e ninguém em nome dele, nunca curou um amputado? Enfim, são questões que indicam mais lendas e charlatanismos do que milagres e suprema bondade, a meu ver. E tem ainda mais coisas que não fazem sentido: Querem muitos cristãos que o antigo testamento meio que deixou de ter validade com o advento de Jesus, mas ele mesmo diz na bíblia que não veio para modificar as leis do pai. Ora, se isso não é uma incoerência então eu não sei o que seja.

Gostei muito da expressão “Teologia curupira” que uma amiga me disse que um teólogo conhecido dela define como sendo a tentativa de ler e seguir a bíblia como ela está escrita, sem levar em conta a passagem do tempo, as mudanças que a história impõe, ou seja, esse teólogo defende que a bíblia deve ser interpretada e não seguida à risca. Mas aí entro eu com a minha lógica questionadora: Se a pessoa é religiosa e pertence a uma religião que afirma que a bíblia é a palavra de deus, ela, pela lógica, teria que aceitar a bíblia literalmente. Para mim não faz sentido aceitar a bíblia como a palavra de deus mas ficar fazendo “interpretações” e adaptações para a realidade atual. Na minha opinião a bíblia ou é a palavra de deus ou não é. Esse meio termo que inventaram só serve para que as pessoas deixem de ver o óbvio: que a bíblia não faz sentido nenhum como palavra de deus.

Um deus que se diz único, perfeito e imutável, se tiver uma palavra, essa palavra também tem que ser única, perfeita e imutável. Para que a bíblia se sustente como “palavra de deus” - o que claramente ela não é - inventou-se essa coisa de “interpretação”. Lógico que não é possível seguir o “livro sagrado” literalmente, até porque ele é cheio de contradições e manda cometer crimes que hoje levaria o fiel à prisão, sem dúvida, então, para escapar dessa arapuca que o texto coloca, faz-se a chamada “interpretação”. É como os oráculos da Grécia antiga: Cada templo tinha seus sacerdotes cuja função era “interpretar” o que a pítia dizia sob efeito da fumaça aromática que ela cheirava. E os sacerdotes de então, como os de hoje, recebiam presentes e eram sustentados pelos fieis do templo. A bíblia é a pítia dos nossos tempos, e isso desde antes do cristianismo já que os judeus a interpretavam antes mesmo de Jesus nascer.

Eu sempre me questionava (e me questiono ainda mais quanto mais o tempo passa e quanto mais penso e aprendo) sobre o que leva as pessoas a acreditarem a ponto de abraçarem religiões muitas vezes exploradoras e claramente “lavadoras de cérebros”. Além do óbvio daquelas pessoas que se deixam explorar por verdadeiros bandidos que usam o nome de deus para tirar dinheiro delas, é difícil pra mim, por exemplo, entender como pessoas esclarecidas conseguem ser católicas. A história da igreja católica é tão horrível que abraçar essa religião é muito parecido com aderir ao nazismo e afirmar que o faço porque o nazismo hoje é diferente e não se cria mais campos de concentração. Não acho que estou exagerando no paralelo, acho que é bem por aí: Como se aderisse ao nazismo mesmo não havendo mais campos de concentração, eu estaria obrigatoriamente aderindo à instituição que os aprovou e os colocou em prática e me propondo a participar ativamente caso essa atividade volte a ser praticada; como católica eu pensaria que estou aderindo à instituição que criou e aplicou a inquisição e que estaria também disposta a jogar meu fósforo aceso na lenha assim que essa instituição ache que devemos voltar a queimar hereges.

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